P – 11. Crítica, gramática e telepatia

Começo este artigo com três citações, correspondentes a três letras “S”: Silveira Bueno (S¹), Said Ali (S²) e Stephen King (S³). Depois retorno para minhas considerações.

🟧 S¹) Silveira Bueno

— Francisco da SILVEIRA BUENO, Estudos de Filologia Portuguesa. (Saraiva, 1967), p.83. Grifo nosso.

🟫 S²) Said Ali

— Manuel Said Ali Ida, Dificuldades da Língua Portuguesa (ABL, 2008) p. X e XII. Grifos e interpolação nossa.

🟥 S³) Stephen King

— Stephen King. Sobre a escrita: A arte em memórias. Edição do Kindle. Grifos e interpolações nossas.

🔳 TELG) Comentário — O Fator Pessoa

▪ “Restituir a mente do autor”, diz Silveira Bueno sobre o trabalho filológico de estabelecer a versão perfeita de um texto/manuscrito.

▪ “Averiguar o que poderia ter ditado ao escritor ora este, ora aquele modo de falar”, diz Said Ali sobre a opção do autor entre duas construções gramaticais próximas, mas não idênticas.

▪ “Encontro de mentes”, “telepatia”, diz Stephen King sobre a arte do escritor, que não apenas provoca na mente do leitor uma imagem que está na sua própria mente de escritor, como também orienta a atenção e curiosidade de quem lê para este ou aquele elemento específico da imagem criada (como o número oito pintado nas costas do coelho).

Os três “S” formam conjunto heterogêneo, reconheço-o. 

No entanto, caso sigamos suas pistas, será fácil concluir que a leitura, a análise e a crítica do texto — desde o nível da letra, passando pelo vocabulário e pela sintaxe, até chegar à totalidade da narrativa, ou do ensaio, ou do poema —, muito ganharão em considerar o fator “pessoa”. No mínimo:

a) A Pessoa-Autor, que maneja os recursos da língua com a dupla-intencionalidade (I) da técnica consciente e  (II) da intuição inconsciente. 

b) A Pessoa-Leitor, que (I) é em potencial qualquer falante do idioma, mas (II) é desde o início suposta pelo autor ao imaginar seu público específico — e, enfim, (III) é encarnada em nós e em outros que efetivamente chegam a ler o texto.

Longe de mim propor que se reduza a interpretação da obra à aplicação de algum expediente interpretativo de tipo “biográfico-psicanalítico”. Também não pretendo entregar a última palavra sobre a obra às impressões subjetivas, personalíssimas de cada leitor.

Trata-se apenas de resgatar o dado fulcral de que o estudo da língua, do estilo e da técnica literária está sempre lidando com as mentes, com as subjetividades, com isso que chamamos há pouco de “fator pessoa”.

Eis uma metodologia em esboço. Voltaremos ao assunto no futuro.

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