Começo este artigo com três citações, correspondentes a três letras “S”: Silveira Bueno (S¹), Said Ali (S²) e Stephen King (S³). Depois retorno para minhas considerações.
🟧 S¹) Silveira Bueno
Se o objetivo essencial da filologia é o conhecimento da civilização de um povo através de seus documentos escritos, facilmente se compreenderá quão importantes sejam os textos à ciência filológica.
[…]
Consiste a crítica dos textos em estabelecer e, algumas vezes, em restabelecer um documento em toda a sua perfeição, não só quanto às idéias, mas também quanto à linguagem, às expressões, às palavras do autor. […] Exige-se para o completo entendimento do texto que o filólogo seja capaz de esclarecer os pontos obscuros, as referências apenas acenadas, completando as passagens falhas, restituindo, assim, em toda a sua perfeição, a mente do autor.
— Francisco da SILVEIRA BUENO, Estudos de Filologia Portuguesa. (Saraiva, 1967), p.83. Grifo nosso.
🟫 S²) Said Ali
Entendo que se deve ir mais longe [i.é: ir além do mero colecionar exemplos abonadores de tal ou tal construção gramatical]: entrar pelo terreno psicológico, averiguar o que poderia ter ditado ao escritor ora este, ora aquele modo de falar. Nem a assinatura do autor de um trecho – ou a do gramático – é o bastante para legitimar a defesa ou condenação de doutrinas controversas, nem as passagens que citamos podem ser encaradas sistematicamente como entidades independentes do contexto.
[…]
Levei sempre em conta, nas diversas questões de que me ocupei, o elemento psicológico como fator importantíssimo das alterações de linguagem e, inquirindo a persistência ou instabilidade dos fatos linguísticos, tomei para campo de pesquisas não somente o português do período literário que se estende de João de Barros a Manoel Bernardes, mas ainda o falar hodierno e, por outra parte, o menos estudado falar medieval.
— Manuel Said Ali Ida, Dificuldades da Língua Portuguesa (ABL, 2008) p. X e XII. Grifos e interpolação nossa.
🟥 S³) Stephen King
O que é a escrita — Telepatia, é claro. […] Todas as artes dependem de certo grau de telepatia, mas acredito que a escrita ofereça a destilação mais pura. Posso estar sendo parcial, mas, mesmo que esteja, podemos escolher a escrita, porque, afinal, estamos pensando e falando sobre ela.
[…]
Então, vamos considerar que você [leitor] esteja em seu lugar favorito de recepção, como eu [escritor] estou em meu lugar favorito de transmissão. Precisamos desempenhar nossa rotina mentalista não só a distância no espaço, mas também no tempo, embora isso não seja um problema. Se ainda conseguimos ler Dickens, Shakespeare e (com a ajuda de uma nota de pé de página ou duas) Heródoto, acho que podemos lidar bem com a distância entre 1997 e 2000 [ou 2024]. E aqui vamos nós — telepatia de verdade em curso. […]
Olha, aqui temos uma mesa coberta com um pano vermelho. Nela está uma gaiola do tamanho de um aquário pequeno. Na gaiola está um coelho branco de nariz e olhos rosados. Nas patas de frente está um toco de cenoura que ele rói alegremente. Nas costas, escrito em tinta azul, está o número 8.
Nós vemos a mesma coisa? Precisaríamos nos reunir e conversar para ter certeza absoluta, mas acho que sim. Claro que haveria as variações necessárias: alguns receptores verão um pano vermelho-vivo, outros, vinho, e outros mais verão tonalidades distintas. (Para daltônicos, a toalha de mesa vermelha tem a cor de cinzas de cigarro.) Alguns verão bordas franzidas; outros, tudo liso. Almas mais decoradoras podem incluir alguns laçarotes. Fiquem à vontade — minha toalha de mesa é sua toalha de mesa.
[…] A coisa mais interessante aqui não é nem o coelho que rói a cenoura, mas o número que ele traz nas costas. Não é um seis, nem um quatro, nem 19,5. É um oito. É para isso que estamos olhando, e todos sabemos. Eu não disse a você. Você não me perguntou. Eu jamais abri minha boca, e você jamais abriu a sua. Nós não estamos nem no mesmo ano, quanto mais na mesma sala… mas estamos juntos. Estamos próximos.
Estamos tendo um encontro de mentes.
Mandei uma mesa com um pano vermelho, uma gaiola, um coelho e um número oito escrito em tinta azul. Você recebeu tudo, principalmente o oito azul. Estamos participando de um ato de telepatia. E não é enrolação mística; é telepatia de verdade.
— Stephen King. Sobre a escrita: A arte em memórias. Edição do Kindle. Grifos e interpolações nossas.
🔳 TELG) Comentário — O Fator Pessoa
▪ “Restituir a mente do autor”, diz Silveira Bueno sobre o trabalho filológico de estabelecer a versão perfeita de um texto/manuscrito.
▪ “Averiguar o que poderia ter ditado ao escritor ora este, ora aquele modo de falar”, diz Said Ali sobre a opção do autor entre duas construções gramaticais próximas, mas não idênticas.
▪ “Encontro de mentes”, “telepatia”, diz Stephen King sobre a arte do escritor, que não apenas provoca na mente do leitor uma imagem que está na sua própria mente de escritor, como também orienta a atenção e curiosidade de quem lê para este ou aquele elemento específico da imagem criada (como o número oito pintado nas costas do coelho).
Os três “S” formam conjunto heterogêneo, reconheço-o.
No entanto, caso sigamos suas pistas, será fácil concluir que a leitura, a análise e a crítica do texto — desde o nível da letra, passando pelo vocabulário e pela sintaxe, até chegar à totalidade da narrativa, ou do ensaio, ou do poema —, muito ganharão em considerar o fator “pessoa”. No mínimo:
a) A Pessoa-Autor, que maneja os recursos da língua com a dupla-intencionalidade (I) da técnica consciente e (II) da intuição inconsciente.
b) A Pessoa-Leitor, que (I) é em potencial qualquer falante do idioma, mas (II) é desde o início suposta pelo autor ao imaginar seu público específico — e, enfim, (III) é encarnada em nós e em outros que efetivamente chegam a ler o texto.
Longe de mim propor que se reduza a interpretação da obra à aplicação de algum expediente interpretativo de tipo “biográfico-psicanalítico”. Também não pretendo entregar a última palavra sobre a obra às impressões subjetivas, personalíssimas de cada leitor.
Trata-se apenas de resgatar o dado fulcral de que o estudo da língua, do estilo e da técnica literária está sempre lidando com as mentes, com as subjetividades, com isso que chamamos há pouco de “fator pessoa”.
Eis uma metodologia em esboço. Voltaremos ao assunto no futuro.

