1. Tenha algum controle positivo do que faz

Manter uma lista de livros para ler, riscando ou colocando um “check” conforme termina, não deixa de ser um bom mecanismo de controle. Definir que estudará duas ou quatro horas semanais de determinado assunto e marcar esse tempo no relógio, também.

Mas é preciso aprender a registrar as coisas de maneira afirmativa. O que eu fiz hoje? ontem? no ano que termina? Tais registros mudam a relação psicológica com as atividades intelectuais que realizamos.

1.1. Controle positivo: Livros Lidos

Se você já tem uma lista de obras que pretende ler ao longo dos próximos meses (ou anos), parabéns. Sugiro, porém, que você crie uma lista de livros lidos, indicando ali algumas informações, como

  • o nome do autor e o título do livro;
  • o ano e o mês em que terminou aquela leitura;
  • a forma como tomou suas notas, e onde estão guardadas (no próprio livro? numa pasta? qual? digitadas? — se online, um link poupará seu tempo no futuro);
  • o que achou do livro (talvez uma resenha sua, ou um link para ela);
  • outras observações que julgar pertinentes (como: “terei de reler”, “li em espanhol” ou “perdi as anotações”);

Eu costumo esta planilha no Google Drive, que além de tudo me permite, com uma fórmula simples, contar quantos livros eu li naquele ano

NOTA: Escrevi mais sobre o controle de livros lidos no artigo “Registre o que leu (e o que escreveu)“.

1.2. Controle positivo: Diário de Estudos

Outra forma de controlar afirmativamente o trabalho intelectual é criar um diário voltado para os estudos. Se você está precisando de um incentivo a mais para criar disciplina de escrita, um diário como esse vai forçá-lo a escrever sem poder alegar nenhum “bloqueio”, pois o assunto está predefinido e os fatos tratados são concretos.

Escolha um caderno pautado, com não mais de 20 centímetros de altura; o encadernamento em espiral tem a vantagem de parar aberto como você o deixou. Há quem prefira escrever no computador, o que é plenamente possível num diário. Em qualquer suporte, é importante colocar a data, porque ela é o mecanismo mais prático de fazer referência a cada texto ali escrito — dispensando a numeração das páginas.

Nesse diário, o estudante pode relatar o que fez e o que não conseguiu fazer; o que o empolga e o que demanda uma revisão nos planos; quais foram suas dificuldades e seus aprendizados. Pode, inclusive, destacar os dias especialmente produtivos e gratificantes, usando uma caneta marca-texto ou um “post-it”, e voltar a ler tais relatos nos momentos de desânimo: o trabalhador de hoje consolará o trabalhador de amanhã.

1.3. Controle positivo: Quadro Semanal

Há muitas vantagens em agregar uma dimensão “visual” às informações que produzimos. Esse que, por falta de nome melhor, batizei de “Quadro Semanal”, é um companheiro de trabalho que transforma o “Diário de Estudos” num diagrama simples de manusear. O registro de um ano inteiro passa a caber na palma da mão, com alto grau de “customização”.

Com sete colunas, uma para cada dia da semana, cada linha representará uma atividade comum da sua rotina de estudos, conforme a época em que está (p. ex. “História”, “Latim”, “Machado de Assis”, “São Tomás”, “Escrever/Revisar”).

O painel pode inclusive adentrar outros campos da vida dos quais você gostaria de cuidar, e que se relacionam d’algum modo com o dia-a-dia do trabalho intelectual (“Prática Devocional”, “Caminhada”, “Meditação”, “Duolingo”, “Memorização de Poesias”, “Planejamento e Metas”, “Violino”, “Organizar Papéis”, “Relaxamento”, “Exercício Físico” etc.). Também umas linhas para “Outros” são bem-vindas, com a legenda embaixo.

É importante deixar claro que as linhas não precisam representar o mesmo nível de dificuldade ou importância, nem há o dever de as atividades durarem o mesmo tempo. Também não é necessário que todas as linhas se repitam de uma semana para a outra, podendo sumir e reaparecer conforme se transforma a rotina de trabalho.

Em suma: basta pintar o quadradinho sempre que você passou por aquilo, para poder lembrar, no final da semana, que cuidou daquele assunto ou daquela atividade em determinados dias — ou lembrar que vem se esquecendo de fazer tal ou tal coisa.

A consequência certa de um controle desse tipo é, conforme os dias passam, descobrirmos que fizemos muito mais coisas do que antes percebíamos. É, afinal, o problema do controle “negativo”: embora essencial para o estabelecimento de metas, ele perde tudo aquilo que é feito além das metas ou em torno delas.

É por isso que os dois métodos, positivo e negativo, devem-se combinar.

1.4. Controle positivo: “Meu garotinho, nunca fiques de olho no relógio”

Começo este bloco com uma citação do Padre Sertillanges, no magnífico livro A Vida Intelectual. O intertítulo, “Ser constante, paciente, e perseverante”, já é por si só um sopro de ar fresco para o estudioso.

Diz o dominicano:

Tendo alguém pedido a Edison, um dia, que desse a uma criança uma recomendação de que ela pudesse lembrar-se, o grande inventor disse com um sorriso: “Meu garotinho, nunca fiques de olho no relógio”. O próprio Edison prestava tão pouca atenção ao relógio que no dia de seu casamento — um casamento por amor — foram obrigados a ir buscá-lo; ele estava absorto numa de suas pesquisas, esquecido de si e do mundo.
É admirável estar-se entregue por completo ao que se está fazendo, tal e qual Deus, que não se separa de sua obra.

A. Sertillanges, A Vida Intelectual, pp.168-169

A recomendação, a meu ver, vale em dois sentidos: o trabalho intelectual exige uma dedicação que às vezes transborda o tempo previamente atribuído a cada tarefa, mas também realiza-se mais rapidamente do que imaginamos. E se o planejamento dos estudos em blocos de tempo (cinquenta minutos para aquilo, duas horas para isto) às vezes é uma boa estratégia, realizar um “controle positivo” excessivamente ligado ao tempo pode desviar o nosso foco daquilo que é realmente significativo nos estudos.

Há aplicativos de celular, voltados à tribo dos “concurseiros”, que permitem cronometrar e computar rigorosamente o tempo gasto com cada matéria, gerando inclusive gráficos de barras e pizza. Na vida de concursos públicos, pode funcionar; num trabalho intelectual permanente, que não tem o prazo, a “data da prova”, parece-me um exagero contraproducente.

Sugiro que o estudante só use aplicativos do gênero se tem uma atividade com prazo certo — e, de preferência, não muito próximo. Para redigir uma dissertação, prestar um vestibular, entregar um artigo, pode ser uma ferramenta valiosa. Os esportistas já têm à sua disposição relógios inteligentes que calculam o rendimento do atleta com precisão e alto grau de detalhamento. O intelectual também não deve recusar o que há de mais avançado na tecnologia, mas o conselho de Edison continua memorável: nunca fiques de olho no relógio.

1.5. Controle positivo: Conclusão

Neste artigo, falamos da importância de, em paralelo com os registros negativos (“o que devo fazer?”),  utilizar uma memória afirmativa (“o que eu fiz?”) do trabalho intelectual.

Apresentamos algumas idéias de como esse controle pode ser feito, como a Lista de Livros Lidos, o Diário de Estudos e o Quadro Semanal. Também falamos sobre o controle de Tempo de Estudo, citando seus prós e contras.

Não é preciso dizer que cada um tem liberdade para adaptar e inventar novas ferramentas de controle afirmativo. No campo de comentários de qualquer dos posts o leitor pode trazer sugestões ou dúvidas a respeito do assunto.

Até a próxima.

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