2.1. Três virtudes
Não trago aqui uma lista exaustiva ou pretensamente universal. Antes é um exercício: estou num longo projeto de formação intelectual — quais as qualidades ou virtudes de que preciso nesse processo?
Tente fazer sua lista tríplice; aí vai a minha.
A) Paciência
O percurso é longo, a conjuntura não é a ideal, mas é a melhor que posso criar. Meu emprego nada tem a ver com meus estudos, e me consome tempo; a vida familiar exige cuidados e mais cuidados exigirá; as metas precisarão ser afrouxadas em algumas fases, os prazos devem dilatar-se um pouco. Mas eu chegarei ao final com um resultado digno.
B) Fibra
Junto com a paciência vem a força, a fibra. Não desistir, não vacilar. Não parar, não regredir, não açodar. Suportar a duração da jornada, suportar o peso da cruz. Repousar, como até os cavalos de tiro repousam, e recomeçar no dia seguinte. Com uma força nova que não explica donde veio.
C) Flexibilidade
Formação também é “tomar forma”. E não só a inteligência e a consciência tomam forma, mas também a vocação e o próprio projeto de formação. Há diretrizes, passagens obrigatórias, mas não há roteiro predeterminado. A formação não é um bloco rígido, mas um trabalho em argila, que se vai moldando e endurecendo, e moldando e endurecendo, até a forma final. É de mister ser flexível com os planos, listas, metas, cronogramas. Adaptar-se aos interesses, necessidades, contratempos e oportunidades.
Seja flexível. Seja paciente. Tenha fibra.
Seguem trechos que ilustram e completam essas idéias.
2.2. O segredo do Êxito de David Copperfield
David Copperfield é um romance de Charles Dickens escrito em primeira pessoa que narra a vida do narrador-protagonista, David Copperfield. O trecho a seguir nos revela o espírito com que David enfrentou o trabalho na vida adulta. “Paciente energia” quer dizer “paciência” e “fibra”, ou seja, cá estão duas das três virtudes que mencionamos acima. Aviso que nesse trecho não há revelações significativas sobre o enredo.
Sinto que não devia narrar, embora este manuscrito não seja destinado senão a mim, com que ardor me entreguei aos trabalhos tremendos da taquigrafia, a fim de que os meus progressos correspondessem às expectativas de Dora e suas tias. Acrescentarei somente ao que já disse de minha perseverança naquela época, que paciente energia então começava a constituir a base de meu caráter, e foi sobretudo a tais qualidades que devi mais tarde o êxito que alcancei. Tive muita felicidade nos negócios. Muita gente tem trabalhado mais do que eu sem conseguir o mesmo sucesso; porém eu nunca poderia ter feito o que fiz sem o hábito da pontualidade, ordem e diligência que comecei a contrair, e, sobretudo, sem a faculdade que então adquiri de concentrar toda a minha atenção num só objeto de cada vez, sem me inquietar com o que lhe ia suceder depois. Deus sabe que não escrevo isso para me vangloriar! Um homem que rememora sua própria vida como agora faço, página por página, devia ser realmente um santo para não estarrecer diante de tantos talentos desprezados, tantas oportunidades perdidas, tantos erros, tantos sentimentos pervertidos a combater-lhe o bondoso coração. É provável que eu tenha empregado mal, como qualquer outro, todos os dons que recebi. O que quero dizer simplesmente é que, desde aquele tempo, tudo que eu tinha de executar neste mundo, procurava fazê-lo bem, que me devotei de corpo e alma a tudo que empreendi, e que assim, nas pequenas como nas grandes coisas, marchei sempre decididamente para o fim. Não acho que seja possível, mesmo aos filhos de pais influentes, conseguir o êxito se não unirem ao talento natural qualidades simples, sólidas, laboriosas e, principalmente, uma legítima confiança no sucesso: nada há no mundo como o poder da vontade. Talentos raros ou ocasiões favoráveis, por assim dizer, formam as duas hastes da escada em que é preciso subir; mister se faz porém, acima de tudo, que os degraus sejam construídos de madeira dura e resistente; nada existe que possa vencer uma vontade refletida e inquebrantável. Em vez de tocar o assunto pela superfície, afundava-me nele, e, fosse qual fosse minha obra, nunca procurei diminuir-lhe o valor. Aqui estão as regras com as quais tão bem me dei…
(Charles Dickens, David Copperfield, Vol. II, pp. 160-161)
2.3. A vocação de Machado de Assis
O aparecimento de sua inclinação artística nessa idade nos autoriza a falar em vocação. O pai, logo que o viu habilitado nos estudos primários, quis encaminhá-lo no comércio, mas o impulso do filho pelas letras o levou a consentir que abandonasse, para continuar os estudos, o primeiro emprego de caixeiro em uma papelaria. Essa obstinação vitoriosa é das primeiras manifestações que se conhecem de sua inflexível marcha para o fim secreto a que se propusera. A sua linha de aproximação será daí por diante singularmente certa, prevista, e sem desvios inúteis. Machado sabia o que desejava, e empregou na construção de seu futuro qualidades de paciência, de firmeza e coerência que nunca foram desmentidas.
(Barretto Filho, Introdução a Machado de Assis, pp.16-17)
