4.1. A função das notas de leitura

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1. Disciplina

Tomar notas é fundamental aos estudos, mas não podem as anotações ser um substituto ao pensamento e à boa memória.

As notas têm, para muitos estudantes, a função de dar foco, de promover a concentração; alguns não conseguem ler sem disciplinar o corpo, sem restringi-lo a uma atividade ordenada e sem obter de pronto algum resultado material. As anotações são neste caso um instrumento para o tempo presente — o que não as impede de ser também um instrumento para o futuro, quando o estudioso precisará retomar aquele livro e aquelas notas.

Se o tomar notas tiver para o estudante essa função disciplinar, é crucial que preste ele atenção à efetividade do método: estou realmente trabalhando melhor? A confecção das notas é um auxílio à minha atenção, ou apenas uma distração mecânica, um pseudo-trabalho? Quem já se flagrou copiando palavras ou sublinhando longos trechos por mera inércia, sem ter apreendido sua relevância no capítulo que está lendo ou na aula que está ouvindo, sabe do que estou falando.

2. Utilidade

Também é necessário ao trabalhador entender que as notas copiosas serão mais difíceis de consultar no futuro do que as resumidas.

Portanto, antes de arquivar um maço de papéis, ou de dar início ao fichamento de um novo capítulo, atalhe-se com as seguintes perguntas: será isto útil para mim no futuro? tenho como potencializar esta utilidade?

E esse potencializar é bem mais concreto do que parece: releia as notas com um pincel “marca-texto” à mão, para destacar as idéias mais relevantes; anote com canetas coloridas de risco fino (estas, estoutras) algumas dicas e pistas para seu “eu futuro”. Será o caso de numerar as páginas do caderno e lhe dar um pequeno sumário ou índice temático? Ou de digitar as cinco ou seis fichas, talvez não inteiras, mas o suficiente para, lá na frente, ter um arquivo pesquisável e com letra legível? E quão custoso seria colocar, no final, uma legenda para as cores e símbolos empregados?

Não se esqueça, por fim, de deixar registrado no próprio livro, ou em uma lista unificada, onde encontrar as notas produzidas.

3. Depoimento pseudo-hegeliano

Digo tais coisas por experiência própria. Comecei a estudar sem saber como estudar — sabia apenas ir bem em provas e passar em vestibulares, nada além disso. Cometi muitos erros antes de encontrar um sistema razoável de trabalho.

Tenho aqui, em um canto do escritório, mais de cem páginas de caderno, que fui escrevendo conforme lia a Fenomenologia do Espírito de Hegel, já no terceiro ano da faculdade de psicologia. Eu abria um tópico para cada parágrafo (“§”) — e estes passam de oitocentos —, anotando ali algumas coisas que estavam no texto, palavras ou idéias que me chamavam a atenção. Era, na verdade, um truque para aguentar uma leitura muita vez penosa; depois de lido o último parágrafo, simplesmente guardei os cadernos.

Isso foi em 2012. Escrevo em 2019 podendo afirmar duas coisas:

1) Primeira: eu não me lembro de quase nada da Fenomenologia; sobraram-me as sensações empolgantes dos primeiros capítulos (certeza sensível, percepção, dialética do senhor e do escravo) que são aqueles que busquei entender mais a sério, com ajuda da vasta bibliografia que os comenta; são também os capítulos que eu tentei explicar para um amigo. Lembro-me ainda do fato de que o livro aborda diversos temas (frenologia, fisiognomia, Antígona etc.), e de que pude identificar um ou dois modos característicos de Hegel encaminhar suas questões (que devem ser a tal “dialética”).

2) A segunda coisa que posso afirmar: aquelas notas não me interessam nem um pouco hoje. O trabalho que me dariam, se comparado a um hipotético benefício de eventualmente as reler, é absolutamente desanimador. Creio até mesmo que, embora em alguns momentos eu anotasse aquilo que entendia, estava quase sempre anotando para não precisar entender. Preguiça justificável diante de Hegel, mas um enorme desperdício de papel, caneta, tempo e (até hoje) espaço no armário .

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