Um amigo trouxe-me esta expressão para falar de um aspecto do trabalho intelectual: a “máquina de guerra”.
Tratávamos então do conjunto ordenado e útil de nossas notas de leitura, resumos, esquemas, fichas, escritos inéditos ou impressos… também das obras de consulta e os mais livros sobre a escrivaninha, e os arquivos de computador, e o material de escritório bem escolhido, e as múltiplas listas que mantemos para o futuro, e até aquelas frases que vão e voltam em nossa cabeça. Ou seja, como magistralmente definiu esse amigo, “a máquina de guerra é tudo o que o homem cria para poder criar”.
É sobre tal “máquina” que versam as presentes notas.
1. Manifestações
O trabalho intelectual é um constante aperfeiçoar da máquina de guerra, o que não se confunde com o aumentá-la indefinidamente.
O período de formação é aquele em que o trabalhador aprende seu ofício, seu artesanato, mas também aquele em que compra seu ferramental e testa diferentes matérias-primas, escolhe os processos mais vantajosos e guarda como prêmios os produtos bem-sucedidos. Na vida intelectual não será diferente.
A manifestação física da máquina de guerra está nos objetos que mais frequentam a mesa do estudioso, naquilo que se espalha em seu entorno e quase orbita. A manifestação espiritual da máquina gravita de forma parecida, mas constitui-se de idéias, versos, melodias, lembranças. Há ainda a face digital da máquina: as planilhas de controle, os vídeos a que mais assiste, as rotinas de pesquisa. Por fim, a máquina como o processo permanente de interligar tudo isso, auxiliado pelos links, pela memorização, pelos bilhetes.
2. Aperfeiçoamento
Devemos ter em mente que o risco de cairmos em repetições mecânicas que sabotam nossos estudos, transformando-os em pseudo-trabalho, é perene, tão quanto as distrações. Do mesmo modo, guardemos o “vanitas vanitatum omnia vanitas” como um alerta feito por alguém que conhece melhor do que nós as profundezas de nossa alma, e que se aplica bem à vaidade intelectual. Deixada ao sabor de sua inteligência artificial, desprovida da atenção amorosa do homem vocacionado, a máquina de guerra engana-se com rotinas fáceis e desvia de seu rumo; vagueia ou desfila em círculos pelo simples prazer de sentir-se ou mostrar-se em movimento.
Tudo isso é dizer que a máquina boa é aquela conduzida num permanente esforço de autoconsciência. O trabalho diário de colocá-la em funcionamento, ativando com regularidade suas diversas alavancas e consultando sempre os mostradores do painel, permitir-nos-á compreender o que é essencial à máquina e o que é supérfluo, quais circuitos precisam de reforço, quais mecanismos são dispensáveis.
A experiência alheia é uma excelente fonte para aperfeiçoar a máquina de guerra. A conversa com outros trabalhadores supre lacunas e traz alternativas impensadas; alguns livros sobre técnica de estudo, sobre organização e sobre escrita, podem contribuir para afastar métodos ineficazes e aprimorar aqueles que já estão funcionando. Mas nada disso presta quando não se está “por dentro” da própria máquina.
3. Conclusão pretensiosa
Sim, precisamos estar “por dentro”. Olhar para o que temos, indagar o que são esses objetos e palavras, cogitar se estão ali para ajudar o futuro ou para atrapalhá-lo… afinal, podem até estar atrapalhando o presente. Lembrar que um rascunho existe e que está aqui, ou lá, ajuda a mais tarde lembrar de recorrer a ele. Evidentemente ajudará a reencontrá-lo.
A máquina de guerra só é boa se for familiar ao soldado, se for seu corpo expandido, sua mente exteriorizada. Construída por ele, não faz sentido que nela encontre um só botão cuja funcionalidade lhe seja estranha, uma só barra quebrada que não queira ou não possa soldar, um só componente obsoleto que não tenha coragem de descartar.
Em suma, e com estilo: a máquina de guerra é o próprio homem.
4. Pós-escrito
O objetivo das “Dicas de Estudo”, neste blog, é oferecer ferramentas e idéias que melhorem a máquina de guerra dos estudantes comprometidos com seu trabalho. Qualquer sugestão ou objeção será bem-vinda.

