R – 1. Passando revista às “linhas” da Psicologia: Evasivas Admiráveis, de T. Dalrymple

Estudei Psicologia em uma universidade pública brasileira, e tenho notado — também pelo contato com alunos de outras faculdades — que os cursos da área caracterizam-se pelo seguinte fenômeno: há uma multiplicidade de “linhas” na Psicologia, que são apresentadas aos alunos ao mesmo tempo (i) como modelos que convivem sem refutarem uns aos outros de forma definitiva (algo que obrigaria algumas escolas a saírem pela porta dos fundos, depois de pedir desculpas duas ou três vezes) e (ii) como concepções que colidem entre si de forma tão radical que logo se impõe ao calouro a ideia de que terá de “escolher” uma linha. É claro que, como há uma dose de sentimentalismo nisso tudo, a escolha da vertente a ser seguida enuncia-se muito mais muito mais como “uma linha com que me identifico”, e a superioridade de uma sobre a outra é idéia que tem de permanecer meio velada — esperando até que um encontro entre membros de uma mesma “panelinha” permita a cada um extravasar o sentimento de que, no fundo, pratica de uma Psicologia melhor do que as outras.

Onde estudei, havia uma forte polarização entre “behaviorismo” e psicanálise — freudiana, inglesa ou lacaniana —, embora também fizessem escola a ala de esquerda da psicologia social, os construtivistas piagetianos, a fenomenologia, a etologia, e a psicologia experimental mais conexa às neurociências. Existem, é claro, muitas outras linhas, e é possível que logo cheguemos à conclusão de que “há tantas psicologias quantos psicólogos” — mais um brocardo que estaria bem alinhado com o espírito do tempo.

Mas o que, afinal, tem isso a ver com o livro do T. Dalrymple?
Fiz essa breve introdução porque “Evasivas Admiráveis” é um texto que passa revista às diferentes “linhas” da Psicologia. Mais ou menos nesta ordem, abordam-se: a psicanálise de Freud; o behaviorismo de Watson e Skinner; a TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental); as concepções que começam a ligar a Psicologia à ideia de doença e “saúde mental”; a doutrina do “eu verdadeiro”, que está presente na psicanálise mas entrou também no senso comum e agora bate à porta da criminologia; a psiquiatria do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais); as hipóteses neuroquímicas que conduzem à ideia de uma “deficiência” a ser suprida pela ingestão de pílulas; a neurociência; e o neodarwinismo, presente na etologia e nas mais explicações genéticas ou evolucionistas do comportamento humano.

Atravessando toda essa barafunda de discursos sobre a alma e o comportamento humanos, o Dalrymple traz sempre consigo a citação da contracapa do livro — uma fala do bastardo Edmundo, na peça Rei Lear, de William Shakespeare (v. abaixo). Trata-se de um discurso sobre a fuga do homem à responsabilidade por seus atos, sobre a evasão presente em explicações que culpam o sol, as estrelas e o zodíaco por nossos erros, como se nossas falhas de caráter viessem de alguma necessidade externa que se impõe sem termos nem consciência de sua intervenção, nem força para resistir, nem qualquer ponta de responsabilidade.

O livro vale muito a pena. Uma das coisas que mais tenho gostado nos livros de Dalrymple é o recurso a citações de textos exemplares do fenômeno que ele está investigando, acompanhadas de algo que se aproxima a uma análise de discurso. Também se destacam as últimas duas páginas, que contêm uma conclusão poderosa sobre a dimensão trágica da experiência humana — e as limitações das teorias psicológicas em acessar tal dimensão.

Deixo de dar as cinco estrelas (depois de muito hesitar) porque o livro está ainda um pouco distante da situação da Psicologia no Brasil; o leitor estudante de Psicologia, ou psicólogo, encontrará uma proporcionalidade bem diferente daquela que se lhe apresenta no currículo de graduação. A Psicologia mais chegada às ciências médicas e biológicas, bem como os métodos experimentais, são muito mais expressivos nas faculdades norte-americanas e europeias, e o livro de Dalrymple acompanha esse cenário — dando destaque menor, e às vezes deixando de lado, “linhas” que são parte relevante dos nossos cursos. A tarefa de ver se nestas também há “evasivas admiráveis” ficará a cargo do leitor brasileiro.

Chamada - Evasivas Admiráveis

Deixe um comentário