Há lapsos de sintaxe, repetições, cacofonias que só aparecem no papel impresso, em letra de imprensa. Não sei por que é assim, mas assim é.
Procure portanto incorporar a impressão ao processo de escrever–refundir–revisar seus textos.
Não imprima com fonte pequena ou margens estreitas, nem deixe pouco espaço entre as linhas: o escrito precisa ser rabiscado, e para isso há mister de muitos espaços em branco. Utilize uma caneta esferográfica de cor distinta daquela em que imprimiu (eu prefiro caneta vermelha sobre a letra preta).
Leia com cuidado, riscando, anotando, reescrevendo. Se a mudança for sutil — um ponto trocado por vírgula, por exemplo — faça-lhe um círculo em volta, para que não passe despercebida. No dia seguinte, emende o texto no computador, seguindo o impresso rabiscado, sem esquecer nada.
Depois disso, o texto ainda poderá ser trabalhado de outras maneiras: a releitura em ordem aleatória é uma delas. A leitura em voz alta é outra, que trataremos oportunamente neste blog. Mudanças de maior vulto podem demandar uma segunda impressão, para novos ajustes. Não economize tempo — nem papel.
Viana filho sobre eça
á temos algumas citações acerca do recomendado.
A primeira vem d’A Vida de Eça de Queirós, de Luís Viana Filho, quando comenta “O Crime do Padre Amaro” (grifei):
De acordo com hábitos jamais abandonados, o romance se limitou, inicialmente, a um texto de cerca de cem páginas. Não mais que isso. Depois as multiplicava. Ramalho [Ortigão], que tão de perto o conheceu, daria este depoimento sobre a maneira por que Eça trabalhava:
Lançando ao papel o primeiro jorro de tinta, que ninguém tem mais fácil, mais abundante, mais caudaloso e mais rápido; fazendo imprimir tudo; e em seguida, sobre os granéis, na letra impressa, com um zelo de penitente, estimulado até o mais agudo paroxismo da dor, remanipulando frase por frase, vírgula por vírgula, palavra por palavra, sílaba por sílaba, até que a escrita se converta no espelho límpido e fiel da emoção assimilada pelo seu temperamento…
[…]
Certa vez, a seu editor Chardron, que dele reclamava as sucessivas alterações de originais, Eça diria sem meias palavras: “É-me tão impossível mudar esse método de trabalho como mudar a forma do meu nariz”. E acrescentava:
‘J’ai beau corriger le manuscrit’: somente vendo a coisa impressa é que me dou bem conta dos meus personagens, da ação, do que falta para interessar o público e tornar a obra original e forte. Há escritores que não podem trabalhar senão com esse método — é mau e fatigante, mas é assim: isso acontecia a Balzac — e é mesmo o único ponto de contato e semelhança que tenho com ele
– L. Viana Filho, A Vida de Eça de Queirós, pp. 68-69
albalat sobre balzac
Nossa segunda citação vem de Antoine Albalat, em sua sempre educativa Arte de Escrever – em vinte lições, que nos diz o seguinte no capítulo sobre “o processo das refundições” (grifei):
O que produz a magia de um estilo, não o esqueçamos, é a condensação, a força, a originalidade, o relevo, qualidades que se não obtêm senão por meio de refundições sucessivas e por correções contínuas.
Simplificai também as vossas fórmulas, calculai as vossas expressões, mostrai-vos mais rigorosos, não deixeis passar nada do que vos possa parecer trivial. Vede bem se, a cada palavra, não podeis empregar uma locução mais forte.
[…]
Não abandoneis uma frase, senão depois de dardes-lhe toda a perfeição possível, pela justeza, pelo brilho e pelo natural. Quando estiver concluído este trabalho, depois de recopiado, vereis se não há que empregar terceiro esforço, e quase sempre sentireis necessidade disso.
[…]
Não se aprecia bem um trecho, senão quando já não tem rasuras. Conviria que a obra fosse recopiada por mão estranha. É o que explica a obrigação que Balzac criou, de corrigir o seu estilo nas provas tipográficas. A nitidez da imprensa, fazendo sobressair os defeitos da execução, obrigava-o a ver que o seu trabalho não estava perfeito, e o escritor via-se na necessidade de fazer mais correções.
[…]
Ter talento é compreender que se pode escrever melhor, e possuir os meios intelectuais para realizar a perfeição que se procura. Os verdadeiros artistas não desanimam, e só esta perseverança é que constitui a pedra-de-toque do estilo.
– A. Albalat, A arte de escrever em 20 lições, “Lição 12”, pp. 199-200
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