R – 3. Também altamente recomendável a quem é intelectual “no terceiro turno”: A Vida Intelectual, de A.‑D. Sertillanges

Altiora te ne quaesieris.
Não tentar nada acima de seus limites.
Não se diz ao caçador de lebres: para abordar um leopardo, proceda de tal maneira.
Não alargues teu destino.

(trechos extraídos da p.179)

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Li A Vida Intelectual”(A.-D. Sertillanges, 1920/1934) pela primeira vez direto no original — em francês —, apoiando-me na edição de língua inglesa quando aparecia alguma dificuldade maior. A leitura em francês, ainda que tenha sido incrivelmente facilitada pela linguagem cativante e os períodos claros e arejados do autor, foi à velocidade de uma ou duas páginas por dia; tal progresso lento permitiu-me aproveitar a obra pedaço por pedaço, degustando-a.

A releitura, agora nesta tradução brasileira publicada pela É Realizações, deixou-me com um forte desejo de retorno, como se eu quisesse refazer minha primeira ruminação e ler de novo, ainda mais lentamente, esta obra “pela primeira vez”. Contemplando-a depois de relida, simplesmente me parece que nada nela ressobra ou se pode dispensar; que o livro é uma unidade arquitetônica robusta e equilibrada, construída com a mais sóbria delicadeza que um escritor pode externar; parece-me, enfim, que cada parágrafo, cada frase guarda uma dose tão concentrada de sabedoria, que poderia ser objeto de longas meditações.

Quanto ao conteúdo, cabe de saída lembrar que a perspectiva do autor é a de um cristão, de um pensador católico. Isso não quer dizer que você tenha de ser cristão para aproveitar o livro, muito pelo contrário; imagino, aliás, que um leitor ateu ou uma daquelas pessoas que professa de modo arraigado o desprezo à religiosidade, a qualquer metafísica ou mesmo à ideia de “verdade”, teria uma experiência ainda mais decisiva — ainda que mais dolorida.

Sertillanges nos mostra aqui como a vida do intelectual é uma “Vida Intelectual”, como o intelectual é um consagrado, alguém que, vocacionado à busca da verdade, dedica-se de forma integral, de corpo e alma, a suas atividades. Qual é o lugar do estudo na sua vida? Qual o sentido de aplicar o tempo e os esforços nesse ramo de atividades? Como pode alguém ser chamado a isso, e que frutos se espera que dê? São questões que parecem animar o início de uma reflexão profunda, e que encontram neste livro um guia excepcional.

Vemos uma quantidade muito significativa de problemas relacionados à vida do estudioso ser abordada de forma absolutamente atenciosa e temperada pelo Padre Sertillanges. As virtudes necessárias ao intelectual, as orações, o cuidado com o corpo, o uso eficaz da necessária solidão, a importância do silêncio, os diferentes momentos no dia de um estudioso, a contribuição da família, as formas de trabalhar, anotar, organizar o tempo, relaxar; a importância da formação ampla, a necessidade da especialização e da escolha de mestres, a quantidade das leituras, as qualidades necessárias ao escritor…. Cada um desses pontos é abordado em parágrafos cristalinos, com inúmeras prescrições, regras e dicas, e que só não são mais diretivos porque há aspectos em que descabe exarar instruções gerais.

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Quanto ao conteúdo, cabe de saída lembrar que a perspectiva do autor é a de um cristão, de um pensador católico. Isso não quer dizer que você tenha de ser cristão para aproveitar o livro, muito pelo contrário; imagino, aliás, que um leitor ateu ou uma daquelas pessoas que professa de modo arraigado o desprezo à religiosidade, a qualquer metafísica ou mesmo à ideia de “verdade”, teria uma experiência ainda mais decisiva — ainda que mais dolorida.

Sertillanges nos mostra aqui como a vida do intelectual é uma “Vida Intelectual”, como o intelectual é um consagrado, alguém que, vocacionado à busca da verdade, dedica-se de forma integral, de corpo e alma, a suas atividades. Qual é o lugar do estudo na sua vida? Qual o sentido de aplicar o tempo e os esforços nesse ramo de atividades? Como pode alguém ser chamado a isso, e que frutos se espera que dê? São questões que parecem animar o início de uma reflexão profunda, e que encontram neste livro um guia excepcional.

Vemos uma quantidade muito significativa de problemas relacionados à vida do estudioso ser abordada de forma absolutamente atenciosa e temperada pelo Padre Sertillanges. As virtudes necessárias ao intelectual, as orações, o cuidado com o corpo, o uso eficaz da necessária solidão, a importância do silêncio, os diferentes momentos no dia de um estudioso, a contribuição da família, as formas de trabalhar, anotar, organizar o tempo, relaxar; a importância da formação ampla, a necessidade da especialização e da escolha de mestres, a quantidade das leituras, as qualidades necessárias ao escritor…. Cada um desses pontos é abordado em parágrafos cristalinos, com inúmeras prescrições, regras e dicas, e que só não são mais diretivos porque há aspectos em que descabe exarar instruções gerais.

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Se você é, como eu sou, o que podemos chamar de um “intelectual em terceiro turno”, cujos estudos ocorrem antes ou depois de ao menos oito horas diárias de um trabalho que lhe garante o sustento, mas que pouco tem a ver com a sua vocação, este livro lhe proporcionará um importante alento para os momentos de vacilação. Principalmente, dar-lhe-á força para lutar, contra o mundo e contra si mesmo, pelo bom uso do tempo, pela correta escolha das companhias, pela justa medida de ação, pela montagem inteligente do plano de estudos.
No final, você vai acabar descobrindo que NÃO é um intelectual no “terceiro turno”, porque a vida intelectual é uma vida inteira, e no seu “terceiro turno” apenas se concentram a busca de informações, a organização dos papéis e, principalmente, os “instantes de plenitude” — aqueles em que a absorção do espírito pelo trabalho intelectual é-nos finalmente concedida, aqueles que precisamos aprender a aproveitar com fervor e a defender, sem dó, de todas as preocupações inerentes ao restante do dia, as quais devem aguardar, juntamente com o mundo inteiro, do lado de fora, bem longe da nossa mesa de trabalho. Intelectual, se você o é, sê-lo-á até no modo de fazer compras, coar um café ou dar o nó na gravata.

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Quanto a esta tradução, acho que está boa. Embora eu não tenha procedido a um cotejo, nada me causou estranhamento além da tradução de “vous” por “os senhores”, que não está errada, apenas não soa bem em todos os casos — tudo consequência de termos, n’algum momento da história, sacrificado no altar da preguiça a segunda do plural portuguesa. Há um ou outro erros de colocação pronominal, o que de modo algum prejudica o texto, que está bem cuidado. O livro tem dimensões um pouco grandes, mas não é grosso (são 200 páginas); o papel é amarelado, de gramatura um pouco maior, e a página inicial de cada capítulo apresenta um “floreio” cinza no canto superior direito, que é um tanto chamativo, mas útil por fornecer mais um pouco de espaço em branco para anotações.

5

Eu gostaria de falar muito mais sobre este livro, de trazer aqui os trechos que me cativaram, resumir as idéias de cada capítulo, ensaiar adaptações “aos dias de hoje” ou “ao intelectual brasileiro”, em suma: dizer eu mesmo tudo o que o autor já disse, simplesmente porque acredito ser uma obra de importância vital para qualquer um que cogite poder ser a vida intelectual sua vocação. Tal trabalho ainda está, porém, bem acima das minhas capacidades, e talvez esteja acima das capacidades da muitos de nós, porque “A Vida Intelectual” é, sem sombra de dúvida, uma obra-prima.

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Chamada - Sertillanges

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