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6.1. “A HARMONIA DO ESTILO”
Eis o que diz Albalat na lição sobre “a harmonia do estilo”, a sétima de sua Arte de Escrever – em vinte lições (negritos meus):
Foi Guez de Balzac o primeiro que deu à prosa francesa a suavidade, a doçura, o número, o equilíbrio, a ordem, a harmonia.
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Este cuidado conservou-se até Chateaubriand e Flaubert, que escreviam suas frases como se as destinassem a serem lidas em voz alta.
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Falando de Flaubert, diz Guy de Maupassant: “Algumas vezes, deitado num grande prato oriental, cheio de penas de pato, cuidadosamente aparada a pena que ele segurava na mão, tomava a folha de papel, elevava-a à altura dos olhos e, apoiando-se num dos cotovelos, lia em voz alta e vibrante. Escutava o ritmo da sua prosa, detinha-se, como para aparar uma sonoridade fugidia, combinava os tons, afastava as dissonâncias, fazia a pontuação conscienciosamente, como se fossem descansos de uma longa caminhada.
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Dizia Maupassant: “Uma frase viverá se corresponder a todas as necessidades da respiração. Sei que é boa quando pode ser lida em voz alta”
No prefácio das ‘Últimas Canções’ de Louis Bouilhet, acrescentou: “As frases mal escritas não resistem a tal experiência; oprimem o peito, incomodam o pulsar do coração e encontram-se, assim, fora das condições da vida”.
– A. Albalat, A arte de escrever em 20 lições, “Lição 7”, pp. 124-125
Comento a seguir.
6.2. de exercício a regra
Transformei logo esses excertos de Albalat em um exercício de escrita; a partir do exercício, passei a adotar uma regra: Antes de tornar definitivo o seu texto, leia-o inteiro, em voz alta, ouvindo-se atentamente.
A leitura em voz alta é uma ferramenta poderosa para a revisão dos aspectos melódicos e rítmicos do texto. Muitas vezes é por meio dela que conseguimos perceber ecos, cacofonias, pausas incorretas, monotonias na posição dos adjuntos, excessos da palavra “que”, e assim por diante.
Quando ouvimos nosso próprio texto, frequentemente se nos insinuam mudanças vocabulares e reorganizações na estrutura das frases e parágrafos — como dividir períodos longos demais ou alterar a pontuação, por exemplo.
A fala interna e os murmúrios não substituem o alto e bom som; não devemos subestimar a eficácia da leitura em voz alta.
6.3. A ESCOLHA DO ORADOR
A pronunciação pode ser feita por outra pessoa, o que consistirá numa verdadeira “prova de fogo” para a pontuação e para a capacidade de o texto sugerir corretamente sua própria cadência ao leitor. Tal auxílio amigo não está disponível a todos, porém, e em alguns casos pode inclusive trair o texto: quem garante que a culpa de aquilo soar truncado é do escrito em si e não do orador escolhido?
Já quando fazemos nós mesmos a leitura em voz alta, ocorre de estarmos ouvindo uma palavra enquanto os olhos já estão lendo as duas ou três seguintes, o que cria uma noção mais espessa da cadência textual. Isso aumenta a apropriação do autor sobre o próprio escrito, e dá qualidade à revisão.
Solitária ou amparada, a leitura em voz alta tende a melhorar a redação e revelar detalhes sonoros até então ignorados pelo escritor.
6.4. CONCLUSÃO
Deveríamos ler em voz alta mais de uma vez antes de publicar, e trabalhar especialmente a pronúncia e a escuta dos trechos que julgamos cruciais em nossa obra.
Para que tal processo se incorpore à nossa rotina de revisões e refundições, nada melhor que começar com uma regra direta, com momento definido: Antes de tornar definitivo o seu texto — antes de postar online, antes de imprimir a tese —, leia-o inteiro, em voz alta, ouvindo-se atentamente — fazendo os ajustes necessários e depois relendo os trechos ajustados.
P.S: Não deixe de ler o artigo “Imprima para Revisar”.
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