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“O Trabalho Intelectual” foi publicado pela primeira vez em 1951. Já nas páginas iniciais, Jean Guitton mostra grande dívida com o livro do padre Sertillanges, “A Vida Intelectual”, e também com os trabalhos de Jules Payot. Destes últimos eu nada conheço, mas quem leu aquele de fato perceberá grande influência “sertillangiana” na forma de Guitton abordar o trabalho intelectual. Como primeira diferença entre os livros, porém, noto que o estilo de Guitton em geral não alcança a escrita magistral de Sertillanges — e, quando logra alcançá-la, parece-nos mesmo que o faz impregnado no estilo do mestre tomista.
O livro ora em análise também apresenta detalhes e especificidades que estão ausentes em “A Vida Intelectual”, principalmente quanto a aspectos práticos. O tema das fichas de trabalho e das anotações usadas por quem acompanha ou ministra aulas e conferências, por exemplo, avança sobre particulares inexplorados por Sertillanges. Do mesmo modo, há em Guitton uma variedade de regras sobre escrita e estilo, incluindo a separação em etapas do processo de composição de um manuscrito, assunto tratado de modo mais abstrato (embora também mais belo) por Sertillanges. Outro tópico que o padre tomista não aborda em extensão, e para o qual Guitton reserva todo um capítulo, é o trabalho em estados que comportam obstáculos ao intelecto, como o confinamento, a doença e a fadiga.
Há ainda em “O Trabalho Intelectual” diversas (e longas) citações a outros autores; são trechos que Guitton parece ter recolhido ao longo de seus estudos para compor um grande arquivo de dicas para o trabalhador intelectual, organizando-os como podia e buscando explicá-los e desenvolvê-los neste pequeno volume.
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O manual de Guitton traz dicas sobre uma porção de aspectos da vida de estudos. Às vezes o autor chega a dar conselhos opostos, como quem diz: “experimente um e outro, pois a uns convém um método, a outros convém justamente o contrário”. No fim das contas, a leitura oferece uma ampla coleção de pequenas idéias, para você testar e aprimorar seu trabalho. A organização dessa “coleção” é imperfeita, e não deixa clara a existência de uma unidade no livro.
Eis alguns dos exercícios propostos:
- — manter um diário para escrever com cuidado os acontecimentos, idéias e frases relevantes do dia;
- — privilegiar, na formação do estilo, o método da impregnação;
- — começar a construir textos argumentativos pela linha final, pela conclusão;
- — buscar, ao ler um filósofo, a “experiência humana individual” implícita em seu texto;
- — ao escrever ou revisar, em vez de reformar a frase, riscando e substituindo palavras, redigi-la inteira de novo na linha seguinte;
- — escrever como quem escreve uma carta familiar, como quem fala;
- — tentar conversar com correção de linguagem;
- — organizar o trabalho em torno de fichas de papel resistente, de tamanho idêntico e que caibam no bolso, registrando em cada uma delas uma só idéia, de modo que a ficha seja muito pessoal, seja “sua”;
- — confeccionar fichas “polivalentes” e empregá-las como os “tipos móveis” de Gutenberg, mobilizando-as para trabalhos específicos e depois desmobilizando-as de volta para suas caixas, organizadas cronologicamente ou por assunto.
Em suma, o livro contém mais regras práticas e “casos concretos” do que “A Vida Intelectual”, trazendo sugestões de trabalho dadas por outros autores e também relatos de como alguns intelectuais trabalhavam. Por outro lado, há alguns temas sobre os quais Sertillanges fala de forma mais detida e pormenorizada que Guitton, como a organização do tempo — “duas horas devem bastar” —, a relação entre a ciência comparada e o plano de formação, os quatro tipos de leitura, o papel da família e dos amigos do homem de estudos…. No conjunto da obra, o livro de Guitton não tem a unidade, a densidade e a limpidez de seu mestre, mas é um bom livro.
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Quanto à edição, reparei que apresenta menos gralhas do que os outros livros da Vide Editorial (CEDET) que eu li, o que pode ser um sinal de aprimoramento no processo de revisão da editora. O grande problema desta impressão é a letra pequena, especialmente porque o texto é cheio de citações longas, feitas com recuo e uma fonte ainda menor que a normal.
CONCLUSÃO: O livro é bom; os defeitos não são graves, mas a meu ver suficientes para que perca uma estrela.
SUMÁRIO DO LIVRO (primeiro nível):
- Capítulo I – Observando como os outros trabalham
- Capítulo II – A preparação dos trabalhos
- Capítulo III – O esforço profundo
- Capítulo IV – O monstro e seu repouso
- Capítulo V – A ordenação das nossas idéias
- Capítulo VI – A leitura como enriquecimento de si
- Capítulo VII – Germes e resíduos
- Capítulo VIII – Fichas, notas e aulas
- Capítulo IX – Redação e estilo
- Capítulo X – O trabalho no estado de fadiga e de sofrimento
- Capítulo XI – Fragmentos de uma carta a um jovem de nosso tempo
P.S.: Se você se interessou por A Vida Intelectual, do Padre Antonin Sertillanges, dê uma lida na avaliação do livro que postei neste blog e também no site da Amazon.com.br. Você também pode avaliar esta resenha do livro de Guitton, clicando aqui ou no cartaz ao final do post.
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