.
— 1 —

“O sofrimento de uma vida sem sentido” contém um conjunto de palestras ministradas por Viktor Frankl em 1957 e em 1975. É o primeiro livro do autor que eu leio, e fiquei muito satisfeito em ter conhecido algumas de suas ideias.
A edição vem com uma espécie de sobrecapa (“dust jacket”), sendo que a capa fixa é toda em azul com letras brancas, combinando com outros volumes de Frankl publicados pela É Realizações (como “Teoria e Terapia das Neuroses” e “O Sofrimento Humano”). O espaço nas margens laterais não é muito grande, e o da superior, maior, não ajuda muito nas marcações de leitura. Isso pode ser compensado com outros espaços em branco (títulos de cada palestra e versos das folhas que dividem o livro em partes).
O texto está muito bom de ler, e me pareceu bem traduzido e revisado, pelo menos no manejo de conceitos que eu conhecia mais — os da psicanálise. Não achei das mais agradáveis a escolha da segunda pessoa do plural na tradução da última palestra: fica um tanto artificial tentar ressuscitar, para um texto de comunicação oral, esta pessoa que até na linguagem escrita já está praticamente morta.
— 2 —
A obra é estruturada assim: tem uma introdução que resume bem as ideias que serão desenvolvidas nos demais capítulos, seguida do corpo mesmo do livro, uma coletânea de palestras intitulada “A reumanização da psicoterapia”; depois disso, há dois anexos — uma palestra sobre literatura e uma seleção bibliográfica sobre “logoterapia e análise existencial” (respectivamente, a técnica e disciplina que o autor desenvolveu).
Aprendi muito com esse livro, que tem uma cadência muito suave, sem ser superficial; dá para progredir rápido, mas se destacam muitos trechos instrutivos. Para quem nunca vira nada parecido com a proposta de Frankl durante a faculdade de psicologia (no máximo posso dizer que me lembra um pouco o pensamento do Gilberto Safra), foi a descoberta de um território novo e mui convidativo.
Como não conseguiria descondensar o texto e depois resumi-lo com fidelidade, trago a seguir algumas notas minhas, esparsas, provisórias, mas que podem ajudar a despertar o interesse por essa mais que recomendável obra.
— 3 —
A seguir, trago algumas notas de leitura, recopiadas do que escrevi às margens do livro, seguindo as dicas de Mortimer J. Adler.
ALGUNS CONCEITOS PRESENTES NO LIVRO:
- Sentido (e falta de sentido);
- Autotranscendência
- Psicologismo dinâmico (crítica);
- Destino (e atitude diante dele);
- Responsabilidade;
- Desmascaramento.
TÍTULO DAS PALESTRAS
[com anotações minhas entre colchetes]
—— PALESTRA 1. Freud, Jung e Adler
[psicodinâmica como mecânica; homeostase; complexos].
—— PALESTRA 2. A logoterapia
[a psicanálise descura do somatogênico e do noogênico; sobre a ansiedade antecipatória].
—— PALESTRA 3. A intenção paradoxal
[diversas aplicações práticas dessa técnica terapêutica].
—— PALESTRA 4. A derreflexão
[e também a proibição, como técnicas contra a hiperreflexão e a hiperintenção; aqui temos uma excelente aná sobre a paralaxe imposta à experiência sexual por um tipo de participação ou visada que podemos chamar “pornográfica”].
—— PALESTRA 5. A vontade de sentido
[diferenças entre a vontade dirigida a um motivo e aquela que visa unicamente à obtenção de um efeito; o paradoxo do desejo demasiadamente intenso].
—— PALESTRA 6. A frustração existencial
[esta aula mostra como é no vazio existencial que melhor prolifera a libido, aquela que para Freud é praticamente onipresente].
—— PALESTRA 7. O sentido do sofrimento
[sobre doenças incuráveis e outros fechamentos do destino; a importância da atitude, da postura e da significação diante do sofrimento].
—— PALESTRA 8. Pastoral médica
[destino, psicoterapia e sacerdócio; os erros do patologismo e do noologismo; crítica à psicossomática].
—— PALESTRA 9. Logoterapia e religião
[a neutralidade para com a religião; o sentido é como um dos transcendentes de Kant, está lá estruturando, mesmo que não percebamos; “monantropismo”, a unidade da humanidade].
—— PALESTRA 10. A crítica do psicologismo dinâmico
[visão de mundo nas psicologias; psicanálise e associação livre; a ânsia psicanalítica pelo desmascaramento; a questão da liberdade da vontade; neurose e religiosidade].
—— ANEXO 1. O que diz a psiquiatria a respeito da literatura moderna?
[não idolatrar a psiquiatria, mas humanizá-la; pôr-se a questão do sentido da vida não é adoecimento, como pensa Freud; patologia e produção do escritor; a escrita não é autoexpressão, a linguagem comporta referência necessária a um objeto; a autotranscendência da existência humana e o funcionamento do olho, que só vê porque não está vendo a si mesmo; a autoexpressão como princípio na escrita põe em cena o absurdo; a literatura pode ajudar, se puder imunizar contra o desespero (exemplo envolvendo “A morte de Ivan Ilitch”, de Tolstói); a responsabilidade, princípio tão importante quanto o da liberdade, inclusive para o escritor].
PROPOSIÇÕES
- a) O problema psicológico não é mais da ordem da sexualidade (Freud) ou do poder (Adler); também não se trata da mera autorrealização. A questão que gera sofrimento é referente ao sentido.
- b) A psicanálise descura do somatogênico (o que tem origem no corpo) e do noogênico (o que tem origem no espírito).
- c) O desejo demasiadamente intenso impossibilita o que tanto deseja.
- d) Só no vazio existencial prolifera a libido sexual.
- e) Mobilizar o anseio a uma existência plena de sentido é um objetivo da logoterapia.
- f) Temos de ir ao encontro do destino com a atitude certa.
- g) A frustração existencial não é patológica em si, mas é bem provável que se torne patogênica e conduza a uma neurose.
- h) O que importa não é que a vida seja prazerosa ou dolorosa, mas que seja carregada de sentido.
- i) Em logoterapia, “logos” significa ao mesmo tempo “espírito” e “sentido”; por espírito, entende-se o conjunto de fenômenos especificamente humanos, que não comportam redução nem dedução aos dos seres sub-humanos.
- j) O desmascaramento deve parar quando encontra o que é autêntico; se o psicólogo vai adiante, desmascara seu próprio motivo inconsciente: desvalorizar o que há de humano no homem.
- k) A linguagem (exceto na esquizofrenia) é e permanece sempre uma referência a um objeto; aponta para além de si mesma. Literatura não é “autoexpressão”.
- l) O ser humano está sempre voltado para algo que não é ele mesmo; pode ser “algo”, um sentido, ou “alguém”, um ser humano que venha a encontrar.
- m) A luta pela potência e pelo orgasmo, a hiperintenção forçada no gozo, conduz não ao prazer, mas a uma hiperreflexão sobre si mesmo: a pessoa começa a observar a si mesma durante o ato, e quando possível também espia o parceiro. É o fim para a espontaneidade, porque na medida em que alguém repara no ato sexual em si, torna-se incapaz de entregar-se plenamente a ele. (Indústria do prazer sexual e pornografia).
*
CLIQUE AQUI PARA LER OUTRAS RESENHAS DO BLOG

