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4.3.1. Introdução
Um dos métodos mais consagrados para registrar as idéias extraídas de suas leituras é o uso de fichas.

As fichas são retângulos de papel pautado, com maior gramatura e tamanhos padronizados, vendidos ao cento nas principais lojas de material de escritório.
Antonin Sertillanges, Jean Guitton, Umberto Eco… não são poucos os autores que recomendam e dão dicas acerca do trabalho com fichas. Lembra-me ainda este instrutivo vídeo em que o crítico literário e ensaísta Rodrigo Gurgel explica como ele preenche e armazena as suas fichas de leitura.
4.3.2. Confecção
A principal regra para esse sistema “clássico” de fichamento é que cada ficha deve corresponder a uma idéia. Igualmente importante é que tal idéia seja imediatamente identificada pelo usuário da ficha — o que geralmente se obtém indicando no topo o tema da ficha, o autor, a obra e a página a consultar. O corpo da ficha fica reservado para citar trechos e, principalmente, registrar pensamentos e análises.
Concluída a leitura e prontas as fichas, o mais recomendado é armazená-las em caixas de plástico ou de madeira feitas especificamente para aquele tamanho de ficha. Alguns estudiosos organizam suas fichas por autor, outros por tema. Guitton sugere que, se somos pouco organizados ou se nenhum método nos acudir, devemo-nos socorrer da organização cronológica (v. O Trabalho Intelectual, cap. VIII, §III — “Como classificar”).
4.3.3. Vantagens de anotar em fichas
A seguir, algumas das vantagens do uso de fichas.
— 1 — As fichas são um produto material e elegante de nosso trabalho. Se temos um conjunto de fichas confeccionadas com cuidado e bem organizadas, transitamos por elas com a alegria de quem visita as ruas bem-conhecidas de sua cidade natal. Detalhes sutis, aliados à memória visual, permitirão localizar rapidamente o que queremos e experimentar de novo a mesma idéia presente no momento da confecção da ficha. É um ânimo a mais para o trabalho.
— 2 — As fichas são como “tipos móveis”. A idéia é de Jean Guitton, que nos lembra da verdadeira invenção de Gutenberg: na imprensa, cada letra ocupa um lugar num trilho, formando linhas e mais linhas, até completar a lauda a ser impressa; esgotada a função do caractere naquela página — impressa a tiragem, distribuído o jornal —, não há mais razão para manter os tipos na mesma posição: podem ser desencaixados e aproveitados em outras impressões e outros livros.
Guitton chama tais processos de “mobilização” e “desmobilização” dos tipos, e os transpõe para as fichas, utilizando a seguinte equivalência:
1 TIPO = 1 FICHA = 1 IDÉIA.
Com seu fichamento, o intelectual que pretende compor artigo ou capítulo sobre determinado assunto pode “mobilizar” as fichas que tratam do tema em questão, retirando-as de suas diversas caixas e organizando-as sobre a mesa conforme o projeto em execução. Concluído este, as fichas “desmobilizam-se”: cada uma retornará à sua caixa, dentro da ordem original do acervo, aguardando o dia em que volte a ser despertada, para uma nova missão.
— 3 — As fichas podem ser usadas para mais de uma atividade, fornecendo ao homem de estudos um sistema único de registros.
Se você marca livros pelo método de Mortimer Adler (que vemos em outro artigo neste blog), economizará muitas fichas e saberá exatamente onde encontrar suas anotações. Mas e as notas de aula? E aquelas idéias que surgem no meio do dia, e que normalmente vão parar numa folha de rascunho ou no “bloco de notas” do celular? Mesmo que todas as suas anotações de leitura sejam feitas no próprio livro, ainda assim você precisará de outro meio para registrar tudo o que não está em livros.
Já com as fichas, há a possibilidade de unificar o sistema de anotações: na mesma caixa em que está o fichamento de um livro de Freud, o estudante poderá arquivar as notas tomadas em um congresso de Psicologia, as reflexões sobre um filme de inspiração psicanalítica e os trechos lidos em um site sobre o autor.
— 4 — As fichas não se escondem. Assim como folhear um livro impresso, pressionando a borda com os dedos para deixar as páginas virar rapidamente, é muito mais eficiente do que “folhear” um PDF, também pode ser mais fácil buscar uma ficha numa caixa do que procurar um arquivo num computador — pelo menos quando não sabemos exatamente o que estamos procurando.
Se você escreveu “Cervates” em vez de “Cervantes” no nome do arquivo, o mecanismo de busca do computador, que foi instruído a procurar “Cervantes”, passará cem vezes por “Cervates” sem entender que ali há mero erro de digitação.
A busca por uma ficha pode ser muito mais demorada do que a busca por um arquivo; mas a busca por uma ficha incerta pode ser incrivelmente mais rápida que a busca por um arquivo incerto. Quando estamos atrás de um registro material, nossas memórias visual, tátil, verbal e espacial atuam de um modo integrado, inacessível aos algoritmos.
4.3.4. Problemas das fichas. Conclusão.
Creio que o principal deles é o empenho inicial: precisamos comprar as fichas, comprar uma caixa, e produzir uma série de fichas até percebermos se a coisa está funcionando ou não. Isso requer um pouco de dedicação a mais do que a exigida para testar o método de tomar notas no próprio livro. Para experimentar as fichas, você terá de mudar seus hábitos de trabalho e investir por algum tempo numa organização e num sistema que podem, afinal, não dar certo para você.
Ademais, as fichas não permitem pesquisa textual informatizada, exatamente como o não permitem as notas que tomamos no livro. Para tanto, apenas algum método digital de anotação pode bastar. Tentarei falar sobre isso no próximo artigo.
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Se você não está satisfeito com as notas que toma, se ainda está preenchendo ociosos cadernos ou tem muito trabalho para localizar e reunir suas anotações, sugiro que experimente o método de fichamento aqui proposto.
Bons estudos e até o próximo artigo.
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