R – 6. Dá várias dicas interessantes, mas é superficial e um pouco excessivo nas regras: Escrever Melhor, de Dad Squarisi e Arlete Salvador

O livro tem cerca de 220 páginas e é de rápida leitura. Na primeira parte, as autoras abordam questões de estilo (princípios da clareza, concisão e objetividade etc.); avançam sobre regras gramaticais na segunda e na terceira partes (mais longas); e concluem retomando o tema da boa redação de textos, propondo a reescrita de vários trechos com base em regras apresentadas nos capítulos anteriores.

No que concerne à gramática, pouco há que retocar do ponto de vista técnico. Há aqui e ali algum exagero, passando-se por vedação coisa que é mais questão de bom gosto que de erro. Além disso, várias regras são acompanhadas de justificativas superficiais: ainda que possuam um fundamento técnico, sério e consistente, este frequentemente não é bem apresentado.

Ao longo de todo o volume, vemos a insistência das autoras em fazer brincadeiras no estilo “professor de cursinho”, dizendo que tal assunto dá um “nó nos miolos”, que tal palavra é “preguiçosa”, que a outra é “metida a besta”, e assim por diante, num acumulado de frases feitas e piadinhas que perde toda a graça por conta do exagero. O efeito “mnemônico” que poderia resultar dos trocadilhos simplesmente se esvai, e o texto fica pontilhado de palavras inúteis. Já quando as autoras vão mais fundo num tema, como é o caso da derivação dos tempos verbais, aí o aprendizado é garantido.

Quando o manual apresenta orientações estilísticas, há perceptível excesso de regramentos. Fica claro que as autoras não conseguem sustentar de modo igualmente robusto todas as normas que despejam sobre nós — mas nem por isso põem freios a seu ímpeto legislador. Tal fato fica mais evidente no último capítulo, quando, com o intuito de “melhorar” alguns parágrafos, vão cortando tudo, palavras, linhas, frases, até que o texto vire completamente outro; há, sem dúvida, um valor didático nesses exercícios, mas o efeito maior é a mutilação do original, com omissão de idéias, mudanças de ênfase, perda, enfim, do sentido inicial.

Por derradeiro, cabe alertar que o livro tem um probleminha de diagramação: em algumas linhas, os caracteres encontram-se por demais condensados, quase inexistindo espaço entre palavras, o que prejudica a legibilidade.

EM RESUMO: É uma boa revisão das dificuldades de nossa gramática, para quem tem algum conhecimento do assunto, mas um iniciante terá sem dúvida uma má impressão a respeito de nossa  língua, em meio a tantas regras. Quanto às dicas de estilo, há as exageradas, mas algumas são bacanas: evitar os pronomes possessivos, usar exemplos para fortalecer a argumentação, tentar ser sintético, prestar atenção às palavras que dizem pouco ou “diluem” o sentido. Não chega a ser um grande manual de escrita, e de modo algum é leitura indispensável.

PÓS-ESCRITO:

No site da Amazon.com.br, o leitor Paulo me apresentou a seguinte questão:

“Oi Thiago, tudo bem? Li a sua avaliação e me pareceu que você conhece o assunto (ao menos melhor que eu). Você saberia indicar outros livros do gênero que considera melhor que esse?

Desde já te agradeço. Um abraço, Paulo”

Eis o que lhe respondi:

Caro Paulo, como vai? Minha sugestão seria você dar uma olhada nos quatro livrinhos do Cláudio Moreno: “Guia Prático do Português Correto”, publicados pela L&PM.

É claro que tais leituras não substituem uma boa gramática normativa. Se você tiver disposição para enfrentar uma, sugiro pelo menos duas: a de Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo, Editora Lexikon), e a do professor Napoleão Mendes de Almeida (Gramática Metódica da Língua Portuguesa, Editora Saraiva). A do Napoleão é mais detalhada, e tem um perfil bem didático e rigoroso. A do Cunha é mais fácil e tem muitos exemplos extraídos da literatura lusófona.

Por fim, recomendo que você adquira um ou dois dicionários de dúvidas, como o “Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa” (Cegalla, editora Lexikon), o “Dicionário de Questões Vernáculas” (Napoleão Mendes de Almeida, editora Caminho Suave), ou — baratinho em sebos — o “Manual de Redação e Estilo d’O Estado de São Paulo”. 

Quanto a dicionários do português, o site do Aulete é bom, mas lembre-se sempre de dar uma olhada na aba “verbete original”.

Caso tenha algum interesse específico, pode tornar a perguntar. E considere seguir meu perfil aqui na Amazon!

Abraços,

Thiago

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6. Chamada - Squarisi

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