R – 7. Esta adaptação da ‘Eneida’ não é só para crianças: The Aeneid for Boys and Girls , de Alfred J. Church

O plano de leituras é sempre colossal para quem deseja conhecer o legado de seus antepassados e, com isso, formar-se um cidadão apto a participar seriamente do debate intelectual de seu tempo. Mais problemática que a extensão, porém, é a quantidade de escolhas que temos de fazer todas as semanas, adiando, antecipando e invertendo itens dessa lista conforme a incansável dialética entre planejamento e descoberta, cronologia e interesse, profundidade e variação.

Na iminência de começar ‘Os Lusíadas’, de Luís Vaz de Camões, de repente a importância de conhecer a ‘Eneida’ mostrou-se-me em todo o seu peso. Só que o épico de Virgílio estava guardado para outro momento, associado a uma etapa futura do meu estudo do Latim e encaixado depois do exame das principais tragédias gregas e de uma releitura da ‘Ilíada’. Qual será o maior preço a ser pago? Reorganizar o plano de estudos, fazendo um desvio que pode facilmente me ocupar por dois ou três meses, ou encarar a epopéia lusitana sem o conhecimento de uma obra que, no caso, parece obrigatória?

De tal impasse saí tomando uma terceira via: “nem antecipo a Eneida, nem só a deixo onde estava; fica para o futuro a leitura do original, vêm para antes de Os Lusíadas uns tantos resumos completos e alguma versão adaptada da obra”. Cinco minutos depois, e por um baixo preço, estava em meu aplicativo Kindle esta “Aeneid for Boys and Girls(publicada em 1908), que passo a resenhar

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O e-book compõe-se de vinte e três capítulos, que aparentemente cobrem toda a Eneida, mas sem acompanhar a estrutura do original, que se divide em apenas doze livros. Além disso, a adaptação simplifica o esquema cronológico, transformando em narração direta os episódios iniciais, que no original seriam relatos feitos por Enéias quando já está em Cartago.

‘Eneida’ é a aventura de Enéias, como ‘Odisséia’ é a aventura de Odisseu (Ulisses). Tal história passa-se após a invasão de Tróia pelos gregos (episódio do cavalo de madeira), ocasião em que Enéias é estimulado pelos deuses a fugir em busca de outra terra, onde se há de construir uma “Nova Tróia”. Muitos anos ficam em mar Enéias e seus seguidores, passando por alguns lugares já conhecidos do leitor da Odisséia, como a ilha dos Ciclopes e a perigosa rota que passa entre Cila e Caribde. Em Cartago, a rainha Dido apaixona-se pelo herói e quase consegue retê-lo, mas os deuses compelem a comitiva troiana a seguir em frente — o que rende à amante um fim trágico, comparável ao de Cleópatra com sua áspide, na peça de William Shakespeare. 

      Finalmente na península itálica, Enéias é recebido com esperança pelo rei do Lácio, mas ainda terá de enfrentar em terra a obstinada inimizade da deusa Juno (Hera), que não quer o seu sucesso e aproveita o ciúme do jovem Turno, apaixonado da princesa Lavínia, para gerar uma guerra que matará muitos latinos e troianos. Ao fim, Júpiter (Zeus) decide pôr fim às batalhas, garantindo contudo que o povo latino tenha sua língua e cultura conservadas — e não nos esqueçamos de que a ‘Eneida’ é escrita precisamente na língua do Lácio, estando seus capítulos finais firmemente amarrados à história da fundação de Roma. É, nesse sentido, uma epopéia nacionalista.

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Virgílio imitou Homero. Em seu tempo não era demérito em fazê-lo; ao contrário, o melhor caminho para um dia ombrear-se com os grandes era (e creio que ainda é) imitar os grandes. Grosso modo, pode-se dizer que a primeira metade da ‘Eneida’ imita a narrativa aventurosa da ‘Odisséia’, ao passo que a segunda metade é composta de relatos bélicos, à moda da Ilíada. Ademais, a crítica também identifica uma série de pontos do estilo homérico que são mimetizados no épico virgiliano, e o autor desta adaptação que estamos comentando, Alfred J. Church, conseguiu fazer transparecer alguns desses traços estilísticos.

•      Primeiro exemplo: Homero tem uma capacidade fantástica de descrever cenas de combate, especialmente quando exibe estrago que as armas fazem no corpo: atravessando o peito, perfurando o olho e saindo pela nuca… Antoine Albalat (nos livros “L’Art d’Écrire Enseigné en Vingt Leçons” e “La Formation du Style par l’Assimilation des Auteurs”) considera tais descrições verdadeiros modelos a serem imitados pelo aprendiz de escritor. Virgílio pinta algumas lutas  com os mesmos pincéis e paleta de que se valeu Homero, ressaltando nos ferimentos e mortes o que eles têm de força imagética, de violência física, de movimento.

•      Segundo exemplo: na ‘Ilíada’ e na ‘Odisséia’, é comum vermos umas comparações (ou símiles) mais extensas, bem pitorescas e minuciosas; por exemplo, em vez de dizer que “o barulho era como o de dois rios que se encontram”, Homero dirá

“Como dois rios oriundos de um grande degelo dos montes,
numa bacia, somente, o volume das águas despejam,
para reuni-las, depois, nas entranhas do côncavo abismo,
de onde o barulho vai longe, ao pastor, que num monte se encontra:
tal era a grita e o trabalho dos dois combatentes exércitos”

(Ilíada, canto IV, tradução Carlos Alberto Nunes).

Virgílio, visível por trás da “Aeneid for Boys and Girls”, também recorre a tal modalidade de comparação — espécie de detalhe complexo, sofisticada miniatura digna de compor o grande escudo de Aquiles (ou de Enéias). É outra técnica de descrição interessantíssima.

•      Terceiro exemplo: tanto na Odisséia, com os relatos de Odisseu aos Feácios, como na Eneida, com Enéias contando a Dido suas aventuras, o autor lança mão da técnica da “história dentro da história”, que é uma boa forma de suspender a linearidade do tempo, quebrando a monotonia da narrativa. Como já adiantei, Church não segue o original neste particular, colocando tudo como se ocorresse linearmente.

      Há ainda um quarto ponto, este inexprimível na versão em prosa: Virgílio traz para seu poema em latim o metro empregado em grego por Homero, o chamado hexâmetro dactílico, que é um verso de seis pés, cada um seguindo um esquema básico longa-breve-breve [–uu]. No português, Carlos Alberto Nunes adaptou o verso homérico/virgiliano para traduzir as epopéias de ambos os autores, substituindo as sílabas longas pelas tônicas, e as breves pelas sílabas átonas; com essa técnica, o verso inicial da ‘Ilíada’, por exemplo, fica “Canta-me a cólera, ó deusa!, funesta de Aquiles Pelida…”, assim como a narração da Eneida começa “As armas canto e o varão que, fugindo das plagas de Tróia…”. O efeito do hexâmetro dactílico é um ritmo muito marcado, lembrando a marcha de uma tropa, e que passa uma ideia de elevação e entusiasmo — excelente cadência para poemas épicos e de guerra, em que a honra e a coragem dos mortais somam-se à intervenção dos deuses no campo de batalha.

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O inglês desta adaptação não traz grandes dificuldades, apresentando o enredo do clássico de forma a ser facilmente compreendido — o que não quer dizer que estejamos falando aqui de um livrinho infantil. Os “boys and girls” do título devem ser crianças mais velhas, e um adulto que não conhece a ‘Eneida’ certamente vai tirar proveito do texto adaptado, sobretudo porque o autor conseguiu deixar a narrativa empolgante e com detalhes bastantes para que tenhamos contato com as principais personagens e cenas da narrativa épica.

Aliás, uma observação: Os nomes dos deuses vêm na sua versão romana, de modo que é aconselhável pesquisar os correspondentes helênicos e manter uma lista — ou, ao tomar notas, indicá-los entre parêntesis —, já que a história de Enéias dialoga intimamente com a mitologia grega e os textos homéricos. Exemplo de anotação: “Juno (Hera) conspira a todo tempo contra Enéias, filho de Vênus (Afrodite); ver possível relação com o episódio do ‘Pomo da Discórdia’”.

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CONCLUSÃO: Considerando o bom preço e o mais que expus acima, dou cinco estrelas para a obra, recomendando a compra a quem quer que queira uma versão mais curta e fluida para preparar ou complementar (jamais substituir!) o estudo direto da Eneida.

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7. Chamada - Aeneid

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