Embora eu tenha pego a obra só para ler a introdução, fui rapidamente atraído pela desenvoltura do texto, que é dinâmico e cheio de conteúdo.
Trata-se de um livro que toma por objeto a Bíblia hebraica (ou seja, o “Antigo Testamento” do cânone cristão), e se propõe a fazer análises literárias dos textos sagrados. Para isso, o autor assume antes a tarefa de mostrar que é possível abordar a Bíblia com as ferramentas normalmente utilizadas no estudo de textos ficcionais, sem por isso esvaziar a sua dimensão histórica e religiosa. Afinal, “Talvez se trate menos de uma ficção historicizada que de uma história ficcionalizada, uma história em que o teor e o sentido dos acontecimentos se realizam concretamente por meio dos recursos técnicos da prosa de ficção” (p.70).
O autor aborda a técnica literária da Escrituras, isto é, sua dimensão artística; por isso mesmo, compreende as pessoas por trás da redação dos textos sagrados como “escritores”, e não meros “compiladores” (p.232). Alter está ciente do caráter compósito da Bíblia, domina a diferença entre as fontes Javista, Eloísta e Sacerdotal, mas sustenta a tese de que a seleção e organização dos textos dessas diferentes fontes — que vai resultar no cânone — obedece a critérios estilísticos bastante consistentes e estrategicamente orientados à obtenção de efeitos literários.
Nessa linha, é delicioso acompanhar sua competente análise das “cenas-padrão”, desbravando, por exemplo, as diferentes formas de a Bíblia relatar compromissos de casamento realizados após um encontro, em frente a um poço, entre um forasteiro e uma moça que ali está buscando água — inclusive com todas as variações que tal cena-padrão apresenta ao longo dos diversos livros do Antigo Testamento: versões mais descritivas ou mais diretas, ênfase narrativa em um ou outro elemento específico, presença ou não de terceiros, e até mesmo ausência de alguma das partes convencionais, igualmente cheia de significados. Também empolgantes são os capítulos sobre a alternância entre narração e diálogos, sobre a função estilística das repetições, sobre os procedimentos de caracterização de personagens, sobre a agudeza com que o texto atrasa a revelação ao leitor de certas informações… creio que nenhum dos estudos empreendidos por Alter deixa de ofertar análises literárias relevantes.
“A arte da narrativa bíblica” certamente fornece um método não só para ler as muitas outras narrativas bíblicas sobre as quais o livro não se detém — como ele mesmo sugere no início da conclusão —, mas também para se aventurar no estudo de outras grandes obras da literatura ocidental. Tudo isso sem perder de vista a particularidade do texto bíblico, afinal, segundo Alter, “a arte da narrativa da Bíblia significa […] mais que um empreendimento estético, e aprender a ler suas modulações mais finas pode nos aproximar, com mais precisão que os conceitos amplos da história das ideias e das religiões, de uma estrutura imaginativa a cuja sombra ainda vivemos” (p. 196). Na conclusão do livro, o autor postula: “penso que podemos chegar mais perto da gama de sentidos — teológicos, psicológicos, morais e assim por diante — da narrativa bíblica se procurarmos compreender exatamente como essas histórias são contadas” (p.264, grifo meu).
Erudito mas acessível, e surpreendentemente instrutivo, o livro foi um dos grandes achados do ano, a merecer as cinco estrelas que o site me permite conceder-lhe.

