Durante as últimas páginas de Grandes Esperanças — porque o final se alonga um pouco, como para não magoar o leitor com brusca separação — fui fulminado pelo sentimento de que, até então, eu não tinha sequer noção do que fosse um romance. Esse é todo o comentário “crítico” a respeito da obra que me permito fazer hoje, e é por isso que, apesar dos defeitos presentes nas duas edições que adquiri (Penguin-Companhia e Landmark), dou as cinco estrelas, com louvor.
Pois bem, passo a comentar as edições:
1. EDITORA LANDMARK
Comprei primeiro o livro da Landmark. Ele foi um pouco decepcionante já ao sair da caixa, e mais ainda na primeira vez que o abri.
É boa a ideia de fazer o livro com sobrecapa (dust jacket), mas ruim que a fotografia escolhida para ela, oriunda de um filme baseado no livro, repita-se na capa interna; não gostei da imagem, e preferiria que pelo menos a capa dura tivesse um aspecto mais sóbrio e neutro.
O interior, porém, é o real problema: a obra, que se pretende “bilíngue”, é na verdade uma edição “2 em 1”, em que o original é inserido em bloco após a última página do texto traduzido. Num livro bilíngue digno desse nome, devemos encontrar os dois textos, tradução e original, correndo em paralelo: a página da esquerda acompanhando a da direita, de modo que para comparar original e tradução não hemos de mister nem virar a folha. No caso das edições “bilíngues” da editora Landmark, porém, você precisa ler o livro com dois marca-páginas e cada tentativa de comparação exige transportar-se ao bloco final e folheá-lo à procura do trecho correspondente.
Outro grande defeito da edição Landmark é ser um livro desajeitado, grandalhão, com letras pequenas e margens estreitas — a margem interna é a pior parte, porque o livro não abre direito, graças à sua grossura. É um trambolho difícil de folhear, e folhear pode acabar sendo um aspecto importante da leitura, graças à disposição “2 em 1” que já mencionei.
Com todos esses problemas, as críticas que se poderiam fazer à tradução ficam em segundo plano. Não fiz um estudo sistemático das escolhas do tradutor, mas recorri a esta versão sempre que o original ou a edição que acompanhei (Penguin-Companhia) me deixavam em dúvida. Pareceu-me uma tradução bem mais literal, que serviria como um bom “tira-teima”, se não fosse, novamente, a dificuldade de manuseio do livro.
OBS: Imagino acho que a dificuldade seja idêntica ou maior na versão Kindle, porquanto lá precisaremos navegar do texto original à tradução, e vice-versa, o que tomará mais tempo do que ler só o original em inglês e eventualmente buscar palavras no dicionário embutido do e-reader.
2. EDITORA PENGUIN-COMPANHIA
Vendo que a minha primeira compra tinha muitos problemas, decidi comprar a versão da Companhia das Letras/Penguin. Este não é um livro de capa dura (nem mesmo tem orelhas), mas sim uma brochura de 700 páginas. A arte da capa é simples e as margens, conquanto ainda estreitas, são mais largas que na edição Landmark; também a letra é um pouco maior.
O volume é mais agradável para manusear e ler, embora valha a pena recorrer a um suporte de madeira, daqueles comumente usados para Bíblias. E aqui vai uma dica: compre um desses prendedores de cabelo largos tipo “piranha”, esbanguele-o com uma faca, e cole, por dentro de cada uma das mandíbulas desdentadas, uma tira de E.V.A. ou feltro, recortando depois no contorno para acabamento; essa ferramenta ajudará a segurar abertos seus livros, sem danificá-los.
A edição da Penguin-Companhia, que não é bilíngue, foi traduzida por Paulo Henriques Britto; seu texto flui bem, e tem momentos muito gostosos, que parecem transmitir com fidelidade a intenção literária de Dickens. O cotejo, porém, mostrou a perda de uma ou outra nuance; na página 557, por exemplo, o tradutor emprega e repete o vago e inexpressivo termo “importante” no início de um parágrafo, ao passo que Dickens não empregou repetição, mas, nesta ordem, a palavra “momentous” e uma construção com “ought to”. Também encontram-se aqui e acolá uns errinhos de revisão — na página 275 é para ser “cabeça” e não “camisa”, na página 472 está engolido um “que” (“em [que] ele…”), etc.
A numeração dos capítulos diverge da versão da Landmark e também de outra que tenho em casa, só em inglês. Nestas duas os capítulos vão de 1 a 59, ao passo que na versão Penguin a numeração reinicia a cada nova parte (Parte I: 1-19; Parte II: 1-20; Parte III: 1-20). Sugiro apor aos números de capítulo, na versão Penguin, a numeração contínua.
Por fim, há que se destacar o material de apoio oferecido pela Penguin-Companhia. A introdução tem algumas ideias bem legais, apesar de uma ou outra forçada de barra interpretativa. As notas finais são bastante úteis para esclarecer questões históricas e geográficas; os apêndices também têm valor, especialmente por revelarem um pouco da visão de Dickens sobre o romance, ao longo e ao final do processo de composição. Para quem se interessa pelo ofício de escrever, são documentos que merecem uma leitura.
3. CONCLUINDO…
É pena que a editora Landmark tenha conseguido estragar a experiência com o original e com tradução, mediante escolhas tão erradas. Não fosse a ausência de paralelismo entre os textos nas duas línguas, eu até recomendaria: compre ambas, seguindo pela Penguin e usando a Landmark como tira-teima.
Infelizmente, porém, devo sugerir outra coisa: compre só a versão da Penguin em livro físico, aponha a cada número de capítulo a numeração do original, e compre o texto em inglês numa versão eletrônica, recorrendo ao dicionário embutido do Kindle sempre que necessário.
A minha nota para o livro, como antecipei, é a máxima, porque a qualidade da história supera qualquer dos defeitos acima expostos.
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