R – 10. Surpreendeu-me a qualidade desta obra tão pouco conhecida: O Sangue, de Camilo Castelo Branco

No prefácio a uma edição de “A Queda dum Anjo” (Edições de Ouro, 1970), o Sr. Pedro A. Pinto comenta que Machado de Assis tinha preferência por estas duas obras de Camilo: “O Esqueleto” e “O Sangue”. Como eu julgo Machado um homem de bom gosto literário, acrescentei o dois títulos ao meu programa de leitura da prosa camiliana.

Quanto a “O Esqueleto” (1865), valeu como entretenimento, mas não me parece obra obrigatória. Já “O Sangue” (1868) é um livro de peso, que a meu ver merecia figurar entre os mais recomendadas de Camilo; ainda não completei meu percurso pelo autor, mas estou com a impressão de que este livro ficará entre os de que mais gostei — e provavelmente, numa posterior releitura dos diletos, permanecerá entre eles.

A composição é bastante equilibrada, sem desvios descabidos, sem precipitações confusas. A estratégia do autor de antecipar o “Argumento” de cada capítulo gera uma atmosfera de fina ironia, ao mesmo tempo que ajuda a dar corpo à ação, como que reforçando com armação de aço as estruturas de concreto que sustentam o robusto edifício do romance. O desfecho nada tem de banal, e surpreende a forma como se desenvolve: aos poucos, uma seriedade das mais graves chega ao interior do romance, e aquela toada irônica, meio ridente, que vinha acompanhando a narrativa, transmuta-se, ao final, noutra ironia — na ironia do próprio destino, cristalizada no título polissêmico deste romance: “O Sangue”.

A edição foi bem-feita; há uns errinhos aqui e ali, mas nada que comprometa a compreensão do texto. Conforme comprava e lia as obras de Camilo, encontrei muitas versões digitais de seus romances e novelas, a maioria repleta de falhas, partes faltando, desleixo sem fim. Os e-books da “Vercial” foram os que menos apresentaram defeitos, e são os únicos que posso recomendar.

10. Chamada - Camilo

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