Não digo que funcionará com todos — nem o desdigo —, mas para mim é útil em diversos âmbitos: tratarei neste texto da criação de pequenos sistemas de alternância para as tarefas intelectuais que realizamos.
Imagine um vestibulando que só tivesse duas matérias para estudar: História e Física.
A escolha mais estúpida que ele poderia fazer seria a seguinte: “dos seis meses que tenho até a prova, os três primeiros reservarei para estudar somente História, e os outros três para só estudar Física”. Todos nós sabemos por que isso é uma péssima idéia. Chegado o dia da prova, o estudante terá esquecido o conteúdo de História, visto há tanto tempo; e ao perceber quão ruim foi seu cronograma de estudo, acabará ficando nervoso e errando os cálculos de Física também. Reprovado.
Mas não é só questão de memória; a estratégia é tola porque três meses estudando História, e só História, seriam maçada tamanha que o pobre vestibulando acabaria decidindo largar os estudos e tornar-se “artista de rua” (sic) nos vagões de metrô — berrando desafinado por cima de dois acordes e atrapalhando, de quebra, a leitura dos outros passageiros, como só um grande defensor da cultura consegue fazer.
E não é privilégio da História! Qualquer matéria estudada por horas a fio, durante dias, semanas e meses seguidos, torna-se um aborrecimento. Rotina como essa é caminho sem volta para todo o tipo de autossabotagem: ler sem prestar atenção, pular aquilo que supõe já sabido, pegar o celular compulsivamente, responder às mesmas questões de múltipla-escolha de sempre (acertando todas e distorcendo por completo a impressão sobre o próprio rendimento) etc.
O enfoque das alternâncias visa à criação de variedade.
Se você tem três horas de estudo no dia, alterne: 1h20min de História, 20min de descanso, 1h20 de Física. Alterne mais, alterne a ordem: Física depois de História na segunda-feira, História depois de Física na terça-feira. Mais ainda, alterne as atividades: se em História estou lendo, em Física resolverei questões; se em Física estou lendo, em História vou revisar meu caderno, grifando-o, recopiando trechos, nomes, datas. Os sábados podem ser para “suavizar” uma das matérias: neste verei um documentário histórico, no seguinte passearei pelo Youtube assistindo a experimentos físicos. Crie calendários, crie tabelas, crie listas. Não sabe qual de dois livros didáticos seguir? Comece passando quinze dias com cada um. E se após esse período não for capaz de descartar nenhum deles? Então mantenha o revezamento.
O sistema de alternância, por óbvio, deve ser dosado de modo a dar conta do conteúdo dentro dos seis meses que antecedem a prova, e com uma tendência necessária a aumentar gradualmente a parcela do tempo dedicada a resolver questionários e a reler resumos. Afinal, quanto mais aprendi, mas importante é rememorar tudo, e mais demora rememorar tudo.
Isso que fizemos com Física e História pode ser feito com o conjunto de disciplinas cobradas num vestibular, e com qualquer projeto de estudos, envolva ele ou não uma data-limite ou uma prova.
Quando comecei a ler a Gramática Metódica da Língua Portuguesa, de Napoleão Mendes de Almeida, e descobri que ela não possui chave para correção dos exercícios, propus a um amigo: responda os ímpares, eu respondo os pares, e depois corrigiremos um ao outro. Funcionou. Na prática, ambos pensam na resposta de cada uma das questões, mas alternando a posição: ora como quem responde, ora como quem corrige.
Aliás, ainda na Metódica busco ler cada capítulo e dar um tempo antes de resolver o questionário respectivo, para duplicar o contato com aquele assunto, deixar as dúvidas surgirem, testar a memória, conferir espessura temporal ao aprendido. Na prática, surge nova alternância: leitura do capítulo 3→ questionário do capítulo 2→ leitura do capítulo 4→ questionário do capítulo 3→ leitura do capítulo 5…
Mais. Revezo a Metódica com outros livros sobre gramática, estilística e análise textual. Também alterno todo esse bloco de Português com um bloco de Latim (dez semanas para aquele, cinco para este, 10, 5, 10, 5). Esse eixo Português-Latim corre paralelamente ao de Literatura, também dividido entre a Universal e a de Língua Portuguesa, com os devidos pesos e alternâncias.
Tal arranjo polifônico e combinatório ajuda a afastar a preguiça e manter a disciplina. É claro que há aqueles encontros com livros e idéias absorventes, magnéticos, que de maneira inelutável impõem uma reestruturação aos planos, uma deformação às alternâncias, a fim de acomodar longas horas de contato continuado com um mesmo assunto. Aqui, flexibilidade e auto-atenção são fundamentais para não sacrificar, com o zelar demasiado pela conservação dos planos, uma oportunidade de imersão para a qual nosso ser todo se inclina. O método da alternância evita o risco do aborrecimento, mas o encontro com um objeto empolgante elimina por completo esse mesmo risco.
Também quanto aos processos de trabalho vale o que recomenda o Padre Sertillanges para o estudo de São Tomás de Aquino: “Esforçai-vos por quebrar a noz; magoareis as mãos, mas acabareis de a partir” (p.97). E não há regra capaz de quebrar, sozinha, as nozes do espírito.
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