R – 11. Uma hecatombe de Ilusões — numa edição primorosa: Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac

“As Ilusões Perdidas” (1835-1843) é a obra mais longa de Balzac, e se trata, na visão de Paulo Rónai e de outros críticos que este cita na Introdução, “o mais balzaquiano de todos os seus romances”.

  I  

Como é a primeira obra do autor com que tenho contato, e por se tratar de romancista de escol, limitarei minha resenha a um ou outro pontos particulares da minha experiência de leitura.

Em primeiro lugar, cabe avisar que o volume tem quase oitocentas páginas, sendo dividido em três “partes”. A primeira e a terceira passam-se na província; a segunda, que é a mais longa, acontece em Paris. O início pode parecer um pouco demorado, assim como outros trechos descritivos, mas nunca penoso — Balzac, embora detalhista em suas pinturas literárias, não se mostra aqui um daqueles autores que se sentem obrigados a listar todos os objetos que estão na casa, como se fizesse o inventário pormenorizado dos bens de um defunto, ou  coagidos a cumprir um “checklist” descritivo do rosto e das roupas de cada personagem, como algum escrevente de delegacia encarregado de boletins de ocorrência e retratos-falados. 

O leitor, se for capaz de vencer esses momentos de demora, feitos nesse tipo de escrita com o qual não estamos mais acostumados, presto encontrará uma maneira dinâmica de aproveitar o estilo realista do autor, embarcando na narrativa e empolgando-se com o estudo de cenários e costumes, sem dúvida também dramático e psicológico, que Balzac oferece aqui.

Uma dificuldade comum em obras longas é a aparição constante de personagens que não sabemos direito se serão ou não relevantes, se seus nomes e traços fundamentais fazem jus a memorização ou nota. O que posso adiantar é que praticamente todos os protagonistas são apresentados na primeira parte do livro, embora personagens importantes para cada uma das outras sejam devidamente introduzidas a seu tempo. As famílias dos dois amigos, David e Luciano, dupla central do romance, merecem atenção. Às vezes Balzac apresenta em sequência várias personagens de um grupo (como é o caso do “Cenáculo”), e nesses casos cabe sublinhar cada nome e deixar anotado em que páginas essa “série” ocorre, para poder rememorar o caráter dos personagens quando venham a reaparecer, posteriormente. De modo geral, o romancista é habilidoso em deixar pistas e retomar detalhes que ajudem a fixar na lembrança as personagens importantes.

Quanto ao enredo, a “narrativa arquetípica” mais ampla do romance é a parábola do filho pródigo; nela, porém, aninham-se diversos esquemas narrativos menores, bem como sutilezas e inversões que conseguem dar uma roupagem completamente diferente à velha história do jovem dissipador que se entrega a uma vida de prazeres e depois volta, esfrangalhado, ao seio da família, onde encontram perdão todas as suas faltas.

A essa estrutura também se sobrepõe um tema, uma questão constante: a relação entre o êxito e o esforço, especialmente na carreira literária. Isso fica muito bem explicado na “Introdução”, a qual deve, alertemos, ser lida só depois do romance (se bem que espiar o primeiro parágrafo não fará mal nenhum). 

  Balzac mostra como um talento provinciano se deixa seduzir pela capital, mas encontra inúmeras dificuldades para alcançar a tão sonhada glória; diante dos desafios da vida de escritor, a paciência e o trabalho são um caminho lento, penoso, muito distinto dos ardis e atalhos que, embora proporcionem ascensões meteóricas, exigem uma força que é característica de pouquíssimos homens de letras, e que, faltando à maioria, é causa de terríveis quedas. Como diz nosso prefaciador, as Ilusões Perdidas trazem consigo verdadeira “hecatombe de ilusões” — a cada capítulo, os sonhos do poeta vão encontrando não apenas obstáculos, mas verdades dolorosas e decepcionantes sobre o funcionamento da sociedade e do mundo literário.

Ao longo do romance, acompanhamos a viva construção de diversos “ambientes”: a tipografia e a indústria do papel, os salões aristocráticos, os efervescentes circuitos do teatro e da ópera… De todos esses palcos em que entra em cena a desilusão, o principal parece ser o mundo do jornalismo. Em nenhum o romancista economiza em mordacidade, mas neste último o retrato é especialmente duro: as personagens são dobles, os meios empregados são escusos, os artigos publicados são insinceros e o jogo de poder é complexo demais para que se possa garantir a sobrevivência de um provinciano ingênuo como o poeta Luciano Chardon, protagonista das “Ilusões”.

Com toda essa variedade temática “o interesse do leitor não se cansa, e essas infiltrações da complexa realidade cotidiana num gênero até então puramente psicológico trazem conquistas definitivas e possibilidades infinitas de enriquecimento, tornando o romance, daí em diante, a síntese de todos os gêneros e a expressão peculiar do século XX”. (P. Rónai, “Introdução”, p. 17)

 II 

A presente edição, devemos consignar, é trabalho primoroso. Sétimo volume de um plano monumental de Balzac, intitulado “A Comédia Humana” (com algumas personagens que transitam entre os romances, dando à obra uma estrutura de rede), esta condigna edição da Globo Livros / Biblioteca Azul tem excelente acabamento e apresenta um texto muito bem trabalhado. O livro tem capa dura, com cor puxando para o ouro; o papel é amarelado, embora algumas folhas sejam inteiramente pretas, com texto em branco; na parte interna da capa e da quarta-capa (isto é, nas “guardas”) há a reprodução de uma pintura de Honoré Daumier. A fonte tem tamanho razoável e também há razoável espaço nas margens para anotações. 

  A tradução da prosa foi feita por Ernesto Pelanda, ao passo que os poemas e canções ao longo do romance foram trazidos ao português pelo poeta Mário Quintana. Quanto à revisão textual, não me lembro de ter encontrado deslizes gramaticais, embora haja uma meia dúzia de errinhos de formatação. Apenas como exemplo, na “Parte III” ocorre, duas vezes, de o texto do narrador vir “colado” à fala de uma personagem, faltando trocar de linha e fazer o recuo que marca o início de um novo parágrafo (páginas 716 e 780); já na página 744, vemos um trecho de discurso direto que não foi devidamente assinalado com travessão, confundindo-se com a voz do narrador. De maneira geral, porém, o livro muito bem editado.

 III 

CONCLUSÃO: As falhas aqui elencadas não são suficientes para tirar pontos da avaliação. Confiro cinco estrelas e recomendo a leitura, de preferência num período de férias, para você poder ler muitas páginas por dia.

11. Chamada - Ilusões Perdidas

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