10. Como estudar nas férias

Para quem não vive exclusivamente de seus estudos e escritos, mas obtém seu sustento numa profissão que confina o trabalho intelectual no “terceiro turno” do dia, as férias são ocasião muito esperada para ler e pensar com mais demora e profundidade.

Uns viajam. Outros, como eu, preferem ficar em casa. Para cada plano de férias há um plano de estudos — e é o amplo Plano de Estudos que deve determinar o planejamento das férias.

Mas o quê, afinal, estudar nelas?

— I — 

Minha primeira sugestão é: trabalhe com aquilo que, por extenso, absorvente ou difícil, não poderia ser estudado em dias normais senão com esforço triplicado e grandes sacrifícios.

Pode ser a leitura detida dum grande texto clássico, como a Eneida, Os Lusíadas ou a Metafísica. Pode ser a leitura minuciosa de vários textos mais curtos, mas importantes e densos, como as grandes tragédias de Shakespeare. Pode, inclusive, ser algo que não se esgotará nas férias, mas cuja parcela mais difícil concluir-se-á nelas. Vejamos como é isso.

Uma vez me disseram que a decolagem de um avião consome um volume de combustível que chega a superar o queimado no restante do vôo, quando a nave plana, movendo-se pela inércia, à custa de seu peso e formato. Não sei se é verdade no mundo do aeromobilismo, mas no dos estudos são comuns tarefas longas cujo início concentra a maior parte do esforço, o maior desafio.

  Portanto, você não precisa concluir o estudo de uma Gramática (portuguesa, grega, latina) nas férias. Basta estudar com atenção o começo — aquele primeiro um terço que exige disciplina e fibra ímpares — para o restante entrar nos trilhos habituais do estudo “em terceiro turno”, quando retornar a rotina da firma, repartição ou consultório. As férias darão a propulsão inicial e acostumarão você a um ritmo que poderá ser almejado de novo ao longo de todo o ano.

 — II — 

Segunda sugestão: diversifique e alterne

Escolher o objetivo principal das férias não quer dizer escolher “O Um Estudo” das férias. Diversifique sua carteira, como diriam os especialistas em investimentos.

Diversificação não é divisão igualitária e sem critérios. Cada coisa terá seu devido peso, e o peso maior caberá àquilo que, ao mesmo tempo, (a) requer mais imersão e trabalho, e (b) está mais perto do topo em seu Plano de Estudos — conforme as partes I e II acima. A diversificação não virá para roubar o tempo que caberia ao estudo principal, mas para potencializar esse estudo. 

Não devemos deixar as férias restritas a um único projeto grande e difícil; paradoxalmente, agregar ao objetivo principal uma ou duas metas mais fáceis pode aumentar a probabilidade de consecução do plano todo.

Então alterne.

(1) Alterne para render. A concentração prolongada num só assunto é difícil de atingir, e muita vez ineficaz. A experiência e o treino aumentam a capacidade de estudar a mesma coisa por muitas horas, mas não indefinidamente. E, extrapolado o seu limite de exposição a um livro ou a uma tarefa, você começa a desperdiçar energias. 

Não é raro o estudante descobrir-se cansado de um assunto específico, mas ainda disposto a estudar. Que fará se não tiver à mão nada mais com que trabalhe? Essa é a hora de alternar, ocupar-se de um estudo diferente, que traga ar fresco e proponha um novo começo.

(2) Alterne para motivar-se. É preciso progredir e sentir-se progredindo. Fiar-se unicamente na conclusão de uma tarefa grande e difícil não é a decisão mais inteligente, do ponto de vista motivacional. Disse acima e repito: Paradoxalmente, agregar ao objetivo principal uma ou duas metas menores pode aumentar a probabilidade de consecução do plano todo.

Decidiu ler a Iíada? Adicione-lhe três tarefas marginais e mais fáceis de cumprir — digitar os manuscritos velhos sobre Camilo; ler um volume fininho sobre historiografia brasileira; ouvir o Messiah acompanhando atentamente a letra; trabalhar o capítulo sobre os gregos da História da Literatura Ocidental do Carpeaux; reler a Imitação, numa edição anotada…

A sensação de progresso aumentará, e isso fará com que você progrida.

 — III —

Por fim, não se esqueça de descansar.

Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás todo o teu trabalho, mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus…” (Êxodo 20, 8-9)

É assim que começa um dos dez mandamentos.

Será que os estudos entram na restrição e deveriam ser evitados, junto com todos os outros trabalhos, uma vez por semana? Não serei eu a arriscar resposta para esta questão. Citei o mandamento porque você pode ser daqueles que precisam ser lembrados constantemente da importância do descanso, e eu queria cumprir esse papel antes de acabar o texto.

Você deve trabalhar e progredir em seus objetivos, mas você também deve recompensar seu trabalho duro, e descansar. Inclua algumas atividades prazerosas em seu portfólio, a releitura amena de um livro querido, alguns trabalhos manuais, um passeio ao ar livre ou uma hora de natação.

O descanso precisa ser pensado tão bem quanto o trabalho. A entrega a prazeres exagerados e a divertimentos mundanos é incompatível com aquele homem que se antecipou às férias buscando um projeto de estudos para elas. Não seja um caráter cindido. Descanse o espírito com o amor, a bondade e a beleza, de preferência em suas manifestações mais conhecidas e simples. Repouse como um justo, não com a inércia sôfrega, voluptuosa do preguiçoso.

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