📜 (1) O livro é de bolso, com 118 páginas. Contém duzentos dos sonetos de Camões, antecedidos de um prefácio de dez páginas que conta um pouco sobre a vida do poeta. Há também um índice em ordem alfabética — ordem em que estão organizados os poemas. Cada página apresenta dois sonetos, e assim o livro fica visualmente bem organizado. NÃO há notas de rodapé ou de fim, nem têm título as poesias.
📜 (2) Conhecidos sonetos como “Transforma-se o amador na cousa amada…” e “Amor é fogo que arde sem se ver…” marcam presença; por outro lado, o famoso “Sete anos de pastor Jacó servia…” não aparece, o que põe alguma incerteza quanto ao critério de seleção.
📜 (3) Apesar de conter poemas magníficos, a leitura nem sempre é empolgante. Há, afinal, duzentos sonetos camonianos: duzentas vezes os quatorze versos heróicos agrupados em dois quartetos e dois tercetos, com rimas organizadas naqueles poucos esquemas que a fórmula permite. Venero o soneto como forma, louvo a convenção e reconheço sua superioridade; devemos, contudo, estar cientes de que, embora entre os duzentos haja alguns que são verdadeiros tesouros do português, outros tantos que muito nos tocam, alguns ainda em que reconhecemos o brilhante manejo da técnica — embora, enfim, haja muitos bons sonetos, uma série de outros há que, formalmente exatos, são variações sobre temas mais bem cantados em outras páginas de Camões. Apenas por uns poucos posso dizer que passei sem dar muita atenção, falha minha mais que do poeta.
📜 (4) Os temas de que trata o nosso vate não são tão variados. O amor está praticamente no centro de tudo — amor ideal, amor perdido, amor rejeitado, amor separado, amor trocado, amor abstrato, amor extremo… Há muita tristeza, muito comentário sobre o destino, sobre o “desconcerto do mundo”; pululam bons oxímoros e outros paradoxos; também ouvimos Camões cantar a beleza de senhoras, seus olhos, seus cabelos…; fala já de ilusões, já de tormentos, já da perda de sua Dinamene — fato biográfico relevante que marca vários sonetos —; vez ou outra exalta ícones da história de Portugal. Mas essa aparente restrição temática combina-se com a diversificação de cenários e personagens (às vezes à noite, às vezes no mar; aqui um diálogo entre pastorinhos, ali entre figuras da mitologia greco-romana), criando um conjunto de peças aparentadas, mas não gêmeas nem monótonas.
📜 (5) Um ponto negativo da edição da L&PM são os erros que acrescenta, prejudicando a compreensão dos sonetos. Exemplos:
— 28.1 – verso 6: o correto é “os troncos vai”.
— 57.2 – verso 6: o correto é “o vento que as sustinha”.
— 64.2 – verso 11: o correto é “converte em choro o doce canto”.
— 110.2 – verso 5: o correto é “os sentidos então livres estavam”.
(Nota: quando escrevo 64.2 quero dizer: página 64, segundo soneto).
📜 (6) De um modo geral, a coletânea parece ter como maior objetivo fazer número — 200 sonetos —, sem interesse na organização por temas, nem em despertar o gosto pelos sonetos, ajudar a interpretá-los ou ressaltar-lhes pontos relevantes. Fica o alerta ao possível leitor: aqui temos tão somente uma compilação, um apanhado cuja leitura direta, de cabo a rabo, pode ser um pouco cansativa; como não há outra forma de ler senão a aleatória (pois os sonetos já vêm dispostos alfabética, portanto aleatoriamente), sugiro apenas que leia aos poucos, um ou dois por dia.
📜 (7) CONCLUSÃO: Estamos falando sobre sonetos de Camões, um enorme poeta, e mesmo com os defeitos apontados há como aproveitar muitos dos poemas, marcando-os para reler no futuro, inclusive assinalando quais queremos memorizar. Assim, eu daria ao conjunto a nota 7,5 — arredondando, quatro estrelas.
📜 (8) ANEXO: COMENTÁRIO A UM SONETO
Para finalizar, copio um soneto que encontrei no livrinho, o qual me pareceu conter arguta compreensão de certa postura de amante que muitos já assumimos.
Na metade do Céu subido ardia
O claro, almo Pastor, quando deixavam
O verde pasto as cabras, e buscavam
A frescura suave da água fria.
Com a folha das árvores sombria,
Do raio ardente as aves se amparavam:
O módulo cantar, de que cessavam,
Só nas roucas cigarras se sentia.
Quando Liso pastor, num campo verde
Natércia, crua Ninfa, só buscava
Com mil suspiros tristes que derrama.
—Por que te vás de quem por ti se perde,
Para quem pouco te ama? (suspirava)
E o Eco lhe responde: — Pouco te ama.
Depois da construção de um cenário verde e bucólico, em duas quadras descritivas, a terceira estrofe nos lança à interioridade do adorável pastor, que não está tranquilo, ensolarado e fresco como o campo onde se encontra, mas triste e suspiroso; até do ponto de vista sonoro os versos se ensombram e fecham a partir daí.
Nosso melancólico pastor pergunta aos ventos num gemido: “por que tu te perdes, Natércia, por outro homem, que não te ama?” Como quem diz: “não seria lógico que corresses para mim, que te amo?”.
É o eco quem responde — eco que deve vir da própria consciência, e não do ambiente aberto e embalado pelo ziziar das cigarras. “Pouco te ama”, é a verdade aterradora, definitiva, fatal; essa voz sem corpo, voz irônica, porque subverteu as palavras do pobre pastorinho, revela o que na boca da ninfa se diria assim: “Vou-me porque não é teu amor ou o dele que me atrai ou faz perder-me. Tenho minhas próprias inclinações, meu próprio desejo. Há um amor que nasce em mim, Natércia — Natércia que pouco te ama, ama ao outro, não importa se ele a ama de volta ou não”.
O amor de um não compra o amor do outro; amar mais que todos, exagerar o amor e suas aparências, não mudará a indiferença da pessoa amada. Camões no-lo ensina, de modo sutil, neste bom soneto.

