Se nenhuma tradução é perfeita, perfeito também não será nosso domínio da língua estrangeira a ponto de facultar-nos a apreensão de todas as sutilezas do original. Só podíamos nascer num lugar e falar uma língua materna. Vieira e Camões são presentes que recebemos — outras crianças receberam Dante, outras Cervantes, outras Dickens.
Quando pensamos em ler Shakespeare, porém, logo lembramos que seu inglês é um tanto diferente do moderno, e que as aulinhas de Listening e Conversation não nos bastarão para o trabalho de conhecer o Bardo no original.
As dicas a seguir podem ser úteis a quem se queira dedicar a tal empreitada.
— I — Tenha lido outros livros em inglês
Antes de mais nada, você precisa saber ler inglês. Depois do beabá da escola, é hora de ler livros inteiros, “unabridged and unadapted”. Não há necessidade de escolher os difíceis; leia Harry Potter, leia Sherlock Holmes, ou quaisquer outros livros de ficção; o objetivo é pegar ritmo de leitura, familiarizar-se com textos longos em inglês.
— II — Leia diversas traduções portuguesas da obra pretendida
Não precisam ser todas em verso; busque em sebos, livrarias ou na internet as mais diversas traduções da peça que deseja ler. Leia muitas, quantas puder; tome notas sobre trechos e, principalmente, sobre o enredo. Resuma a narrativa, mapeie os atos e cenas, procure perceber o ritmo e a intensidade teatral de algumas passagens, note onde divergem as escolhas dos tradutores. Não hesite em tomar notas, a lápis, no próprio livro.
— III — Não leia o original numa edição simples demais
Quando já tiver assimilado o enredo, conhecido as personagens, visualizado as cenas e os gestos, percebido os pontos de difícil tradução e aqueles de maior relevância, é hora de ler o original, consultando o mínimo possível as traduções.
Para essa leitura, o texto cru (sem nenhum material de apoio) pode ser mais trabalhoso do que o desejável. Em vez disso, procure alguma das seguintes opções:
- uma edição anotada;
- uma edição pareada com o texto em inglês moderno, como na coleção No Fear Shakespeare (ed. Sparknotes);
- uma edição bilíngue.
Consulte pouco o dicionário, a tradução, o texto modernizado ou as notas de rodapé; tente antes quebrar a noz com as próprias mãos. Leia muitos trechos em voz alta, com atenção às dificuldades, e sempre buscando assimilar, junto com a força das palavras, o ritmo dos versos. Quando pesquisar um sinônimo, escreva-o acima da palavra correspondente — deixe pistas para facilitar futuros reencontros.
— IV — Assista à peça ou escute-a em audiolivro
Depois de uma ou duas leituras do original, não só a história ter-se-á fixado em sua mente, mas também uma porção de palavras e alguns trechos específicos — os importantes, os difíceis e os preferidos.
Assista no Youtube à peça inteira ou a algumas passagens — do “To be or not to be…” há uma infinidade — e ouça pelo menos uma vez o audiolivro, acompanhando-o palavra por palavra no impresso que você já leu, releu e anotou.
— V — Memorize um ou dois trechos para recitação
Ouvir a declamação de outros leitores ajudará você a tomar coragem para memorizar alguma parte. Escolha, a vontade e gosto, os trechos que gostaria de saber de cor. Memorize-os, repasse-os em voz alta com frequência, busque ouvi-los na interpretação de diferentes atores, marcando a pronúncia das palavras mais raras e as dificuldades com ritmo e rimas.
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Ao final desse percurso, você terá recolhido muitos tesouros. A peça continuará distante, como distante sempre será o inglês de Shakespeare de nosso português — mas o texto ter-se-á tornado, d’algum modo, seu.
APÊNDICE – GENEALOGIA DAS PEÇAS HISTÓRICAS
Northrop Frye, no livro ‘Sobre Shakepeare’ editado aqui no Brasil pela EDUSP, oferece-nos a genealogia abaixo, que deve ajudar a compreender o quadro dinástico de todas as peças históricas de Shakespeare (exceto a tragédia do Rei João).

