R – 13. Deve haver um movimento moral: Um Esboço da Sanidade, de G. K. Chesterton

“Eu postulo que deve haver um movimento moral”

[“I do most positively postulate that there must be a moral movement”]

G.K. CHESTERTON

OBSERVAÇÃO: Aproveito a mesma avaliação para comentar duas edições: em português, lançada pela editora Ecclesiae, e em inglês, para Kindle (≈R$ 2 — edições “Delphi”, que também vendem as obras completas de Chesterton por ≈R$6). Comecei lendo o livro em inglês junto com minha esposa, nas noites de sábado. Lá pela metade, decidimos revezar entre as duas edições.

🐄 DA EDIÇÃO EM INGLÊS 🌱

https://www.amazon.com.br/Outline-Sanity-English-G-K-Chesterton-ebook/dp/B0046LV36Y/ref=sr_1_1_twi_kin_2?ie=UTF8&qid=1517305690&sr=8-1&keywords=outline+of+sanity🔗 

O texto aqui está em bom estado, mas a formatação é um tanto descuidada. Às vezes há quebras de linha desnecessárias, e isso prejudica a percepção dos parágrafos. Os títulos de capítulo também estão com formatação ruim, e no meu Kindle era impossível navegar pelo livro a não ser correndo as páginas uma por uma — não havia como pular de um capítulo para outro. Pela pouca diferença de preços, recomendo ao comprador a seguinte edição das OBRAS COMPLETAS, que, pelo menos em “The Outline of Sanity”, está sem os defeitos mencionados:

https://www.amazon.com.br/Delphi-Complete-Chesterton-Illustrated-English-ebook/dp/B0087WMW0E/ref=sr_1_1?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1517306267&sr=1-1&keywords=complete+chesterton+delphi🔗. 

🐄 DA EDIÇÃO EM PORTUGUÊS 🌱

https://www.amazon.com.br/Esbo%C3%A7o-Sanidade-Pequeno-Manual-Distributismo/dp/858491028X/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1510965870&sr=8-1&keywords=esbo%C3%A7o+de+sanidade🔗 

A tradução de Raul Martins, impressa pela Ecclesiae, não deixa de ser satisfatória. O texto é claro e, para o leitor atento, fácil de acompanhar; julgo que em alguns passos o tradutor aparece demais, dando embaixadinhas vocabulares que talvez fossem dispensáveis, considerando o assunto e a postura de Chesterton no livro. Há uns poucos erros de gramática/revisão nas partes que li, e parece ocorrerem exatamente nos trechos em que o tradutor se empolgou demais. A edição ganha muito por ter uma capa elegante, ser toda impressa em papel amarelado e com bons espaços de margem para anotações.

🐄 DO LIVRO EM SI 🌱

Chesterton reúne nesta obra alguns artigos publicados em jornais e revistas, acrescentando-lhes uma introdução e uma conclusão. São textos produzidos no calor de debates sobre política, economia e organização da sociedade, nos quais nosso autor assume corajosamente a missão de defender um sistema que não seja nem o “X”, nem o gêmeo mau do “X”. Nem capitalismo, nem socialismo — ou nem socialismo, nem capitalismo — que, de qualquer modo, já davam claros sinais de se andarem misturando.

Depois desse capítulo introdutório, o livro aborda os seguintes temas: 

➣ O “Big Business“, cujos problemas o autor expõe propondo uma solução que passa pela mudança no comportamento do consumidor; a proposta é fomentar o surgimento de pequenos comércios e deixar de consumir a mercadoria de má qualidade fornecida pelas grandes redes (“Shopping Centers”, lojas de departamento etc.).

➣ Questões agrárias, onde aparece o nome da “terceira via” de Chesterton — o DISTRIBUTISMO. Há uma defesa da distribuição, mas sempre com a distinção fundamental de que se trata de distribuição de propriedade privada e NÃO de renda. O que o modelo propõe é a divisão da terra em pequenos lotes que serão propriedade inalienável de pequenos produtores que visem à subsistência e ao comércio local. Experimentos de cultivo em terras comunais também seriam aceitos; Chesterton rejeita terminantemente que a terra de cultivo coletivo seja transformada no único modelo de propriedade, porque não é um autor socialista, mas não crê que as terras comuns sejam um modelo fadado ao fracasso. Em alguns lugares, podem dar certo.

➣ Aspectos da maquinaria, sopesando as vantagens e desvantagens do progresso tecnológico e delineando como as máquinas — especialmente a renúncia a muitas delas, assim como a rejeição completa a sua idolatria — podem ter papel relevante na transição para um mundo em que sejam, afinal, pouco necessárias.

➣ A emigração, capítulo a meu ver mais distante da dinâmica contemporânea, em que o progresso nos transportes e a globalização já se consolidaram, impactando de outro modo a forma de ocupar a terra.

Depois desses excursos, chegamos a um sumário, verdadeiramente digno do nome, que retoma os argumentos do livro de forma muito adequada. Aqui passo a organizar notas esparsas que tomei durante a leitura deste último capítulo, para, quem sabe, instigar o leitor.

  • Precisamos redescobrir o prazer da propriedade, atualmente perdido.
  • Esse prazer se perdeu porque estamos no estágio avançado de Combinação entre duas combinações. As duas combinações são o Socialismo de Estado (que visa a combinar a propriedade privada numa só propriedade, controlada e gerida por um Governo forte que depois, prometem, “dissolver-se-á”) e o ‘Big Business’ (que progride combinando empresas em monopólios e trustes, e que fatalmente visa a uma consolidação do mundo todo como um mundo de consumo, um grande Mercado). As duas modalidades de Combinação não entendem o que seja a Divisão, ao passo que Chesterton aposta na força e no significado, inclusive mítico, da Divisão.
  • Como dizíamos, as duas modalidades de Combinação estão combinando-se, e já são um só espírito; o autor traz seus bons exemplos, e o mundo atual também tem os seus (desde o “caso China” até as trocas de favores entre políticos socialistas e os mega bilionários).
  • Escapar do futuro prometido pela Combinação, que é certamente um mundo padronizado, controlado, desindividualizado e repleto de mercadorias chinfrins, é (1) algo que pode ser feito por PESSOAS; e (2) algo que teria de ser feito passo a passo, com PACIÊNCIA e concessões parciais.

Chesterton propõe uma visão eminentemente filosófica do Distributismo; não se detém em cálculos, nem detalha como fazer passar tal ou qual lei, ainda que não despreze estas dimensões. Ao mesmo tempo, oferece diversas propostas práticas, como o boicote às grandes lojas, o fomento governamental ao desmembramento dos latifúndios, o tratamento criminal a ser dado aos monopólios… Tudo isso em prol do resgate da verdadeira Propriedade Privada — que está para a palavra “lar” assim como o estado atual da propriedade estaria… para a palavra “flat”.

Por fim, não se pode esquecer que a proposta de transformação rumo ao Distributismo, pelo menos neste livro, não é uma teoria político-econômica completa, mas acima de tudo um MOVIMENTO MORAL. É sob esta lente que “Um Esboço da Sanidade” precisa ser lido, e, a meu ver, um grande ganho para o leitor de hoje será perguntar-se, ao longo da leitura: Que vida quero viver? E, nessa vida, como vão ser as coisas que eu e minha família teremos? Qual será o tamanho e a forma de nossos objetos e bens? E da nossa propriedade? Estaremos próximos da natureza? De onde virá nossa comida? O que será que poderemos fazer com as próprias mãos? Onde e como será possível viver livre e criativamente, sem ter de comprar tanta porcaria?

Há, ao que parece, uma psicologia do pequeno proprietário e do pequeno consumidor, a ser capturada em diversas passagens deste livro e enriquecida com outros estudos chestertonianos. 

🐄 CONCLUSÃO 🌱

A leitura é recomendável, tanto em inglês quanto em português, embora as duas edições que estou avaliando apresentem os pequenos defeitos que já mencionei. Também acho que o penúltimo capítulo, sobre a emigração, é um pouco fraco, ainda que dele se extraiam idéias interessantes sobre a relação entre religião e propriedade. Opto por dar quatro estrelas, posto que aconselhe vivamente à leitura.

13A. Chamada - Esboço Sanidade

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