Que têm em comum, se é que têm, o “que” e o “se”?
Uma resposta gramatical direta: são as duas conjunções integrantes[1] da língua portuguesa. É verdade.
Ainda na gramática pode-se dizer: ambas admitem diversas classificações taxeonômicas e podem exercer muitas funções na oração[2]. Também correto. O “que” pode ser[3] pronome relativo, pronome interrogativo, conjunção aditiva, conjunção integrante, conjunção causal, substantivo, partícula expletiva…; o “se” pode ser[4] pronome com função reflexiva ou passiva, pode ter valor impessoalizante ou expletivo, pode ser conjunção integrante ou condicional…
Além dessas coincidências gramaticais, porém, as duas palavrinhas têm algo em comum no âmbito do estilo: elas aparecem onde seria melhor faltarem, e multiplicam-se, e espalham-se… e prejudicam a beleza do texto.
I
Este artigo visa a falar especialmente do uso abusivo do “se”, mas não nos podemos abster de delinear antes o fenômeno estilístico da proliferação do “que”, já apelidado de “queísmo”[5].
Há mais de um século Antoine Albalat chamou a atenção, na sétima aula de seu livro A Arte de Escrever – em vinte lições, para o emprego do “que” na língua francesa; diz ele:
Uma das grandes causas de dureza no estilo é o emprego freqüente dos ques, e aqui esbarramos num hábito inveterado nos bons autores do século XVII. O seu estilo está repleto de ques, o que não impediu que fossem excelentes escritores os que puseram a firmeza e o vigor acima da harmonia.
Pascal multiplicava os ques, La-Bruyère serve-se deles a cada passo.
[…]
O abuso dos ques acabou por desaparecer da nossa literatura. Flaubert proscrevia-os, como ao maior escolho da harmonia. É preferível não os multiplicar e servir-nos deles sobriamente; mas não há que hesitar, quando a clareza e a originalidade se impõem.
Não obstante, podem suprimir-se, em muitos casos, como nas frases seguintes:
| Este costume que achavam ridículo… | Por: Este costume julgam ridículo… |
| O mancebo que avistara na véspera… | Por: O mancebo avistado na véspera… |
| Esta passagem que é citada em tal livro… | Por: esta passagem citada em tal livro… |
O que relativo e o que regime podem substituir-se quase sempre. (p.127 e p.131)[6]
Já no português, é Manuel Rodrigues Lapa, com sua Estilística da Língua Portuguesa, que merecerá longa citação:
É preciso cuidado com o emprego do que. Uma frase que tenha muitas destas palavras, quer se trate de pronomes relativos, quer de conjunções, é de insuportável aspereza e tem um ar contrafeito, que o bom estilo repele. O escritor cuidadoso da harmonia da frase sabe evitar essa impertinente repetição do que por várias maneiras. Suponhamos este enunciado:
“Esteja certo de que trata com um amigo que tem vontade de lhe ser útil.”
Uma revisão escrupulosa, com pente-fino, como dizia Eça de Queirós, substituiria aquela oração relativa pelo adjetivo correspondente:
“[…] com um amigo desejoso de lhe ser útil.”
Assim, ficaríamos livres de um que.
Outro processo é o de substituir que por quem, o qual, a qual. Este último pronome, além de evitar a monotonia, tem a vantagem de poder desfazer equívocos […]. (p.125)[7]
E assim vai, apresentando-nos ainda outros modos de fugir ao “que” — a pontuação bem manejada, o pronome demonstrativo e até a simples conjunção “e”.
Também o “que” expletivo, às vezes útil para realce ou ritmo, pode redundar em excesso; é o que diz o grande Napoleão Mendes de Almeida:
“Quase” é advérbio que significa por um triz (Quase caí), a pequena distância, com pouca diferença (Quase bom), aproximadamente (Tem quase setenta anos).
“Quase que” é o mesmo “quase”, com idêntico significado: “Quase que caí” — “… cujos mastros quase que se elevavam à altura dos edifícios” [Herculano – O Monge de Cister].
O uso de “que” depois de certos advérbios e locuções (felizmente, certamente, quase, talvez, sem dúvida) encontra-se em bons escritores: “Quase que já chegaram” — “Quase que é o mesmo” — “Talvez que o último dia…” — “Verdadeiramente que não tenho a nossa língua por grosseira” — “Felizmente que não estava só” — “Em suma que nada justifica a implantação desse neologismo”. O abuso desse que expletivo pode levar-nos a construir como as crianças: “Onde que você esteve?” — “Quando que iremos?” — “Quem que disse? — “Por que que não responde?”.[8]
E o Estado de São Paulo também registra ao menos uma regrinha para elidir o “que” em seu Manual de Redação e Estilo:
Que é, que era, que foi. Suprima a expressão, sempre que possível: A polícia só admitirá manifestações (que forem) pacíficas. / Empresas obtêm lucros muito acima do (que era) previsto. / O homem (que é) esforçado vence na vida. / O ladrão (que foi) preso pela multidão conseguiu escapar.[9]
II
De modo nenhum estas citações representam uma cruzada contra o “que” — o leitor, atento, tê-lo-á percebido. Na hora de riscar fora o “que” é igualmente bom usarmos de comedimento e bom senso. Albalat falou de uma ou mais gerações inteiras de escritores que usaram da palavrinha às mancheias, e em todas as censuras ao “que” sempre aparecerão “excesso”, “abuso” e quejandas palavras. É disso que se trata: de evitar infestações
Para corroborar tal entendimento, devolvo a palavra a Manuel Rodrigues Lapa:
Não vá porém o leitor estudioso cair numa espécie de superstição contra o que, evitando-o a torto e a direito, como aquele homem de quem nos fala Graciliano Ramos: repreendido pelo grande escritor de se exceder no uso da malsoante palavra, caprichou em escrever à mulher uma carta onde não se lia um só ‘que’ (Memórias do Cárcere, I, 1ªed., 77-78). Por vezes, pode ser um elemento expressivo, como nesta frase:
“Aquele homem é engraçadíssimo: não se imagina que coisas que ele diz!”.
A língua antiga abusava do pronome relativo; mas um escritor de gênio como Fernão Lopes também o sabia empregar para dar realce e intensidade à imagem, como nesta descrição do cerco de Lisboa:
“Andavam os moços de três e quatro anos pedindo pão pela cidade por amor de Deus, como lhes ensinavam suas mães; e muitos não tinham outra cousa que lhes dar senão lágrimas que com eles choravam, que era triste cousa de ver”
E como nestes dois versos de Camões, nos quais a sucessão vertiginosa dos “ques” parece marcar a prontidão incondicional da entrega:
“Assi que alma, que vida, que esperança
e que quanto for meu é tudo vosso.”
(pp.126-127) [10]
III
Ora, também o pronome “se” tem mania de aparecer onde não deve, conquanto o diagnóstico de “seísmo” não coincida exatamente com o do “queísmo”. Neste, falamos do “que” gramaticalmente correto, mas repetitivo, áspero e desarmônico. Naquele, trata-se não só do aparecimento de um pronome cabível, mas excessivo, senão também do aparecimento espontâneo de um “se” estranho à frase e à língua, sobre inútil ou até errado.
Uma série de exemplos, colhidos de uma mesma obra, ajudará a expor as consequências negativas desse pronome intruso. Referimo-nos à tradução do romance David Copperfield, de Charles Dickens, assinada por Costa Neves[11].
Antes, porém, é mister esclarecer que não visamos a uma apreciação literária do trabalho realizado pelo tradutor. A missão de verter novecentas páginas de romance não é das mais simples, e o resultado a que Costa Neves chegou parece-nos digno de aplauso: oferece-nos um texto brando, mas sólido — fácil de ler, mas consistente. Os problemas a seguir abordados não chegam perto de representar a tradução toda. São apenas um vício de estilo que poderia ter sido evitado — se não houver sido, aliás, acrescentado pela editora Nova Fronteira, que imprimiu dois volumes bonitos, mas coalhados de problemas de revisão.
Dito isso, passemos logo ao primeiro excerto:
O dia transcorreu em paz. Não apareceram visitas, passeou-se um pouco, jantou-se intimamente e passou-se a tarde a ver livros e gravuras. Miss Murdstone montava guarda, vigilante. (Vol. I, p.377; grifos nossos)
A voz é a do narrador — o romance é em primeira pessoa — mas o tradutor não nos deixa entrevê-lo, estabelecendo um discurso quase apático, repleto de “ses” que, parece-nos, vêm com a intenção de indicar impessoalidade.
Apenas desta vez leiamos o texto na língua original:
We had a quiet day. No company, a walk, a family dinner of four, and an evening of looking over books and pictures; Miss Murdstone with a homily before her, and her eye upon us […].[12]
Além de outras divergências, vemos que na primeira frase o tradutor mudou o sujeito para “dia”, eliminando o pronome “nós”. Na segunda, que não constitui período, optou por introduzir ação verbal. Revendo essas duas escolhas, o texto talvez pudesse ser reescrito assim:
Passamos um dia tranquilo. Nada de visitas, um breve passeio, os quatro jantando familiarmente, uma tarde a ver livros e gravuras […].
Se a idéia, porém, fosse mesmo forçar a transformação da segunda frase em um período propriamente dito, então se poderia muito bem dizer:
[…] Não apareceram visitas; passeamos um pouco, jantamos os quatro intimamente e gastamos a tarde a ver livros e gravuras […]
A escolha pela repetição do “ses” nos parece a pior possível. Primeiro, porque agride os ouvidos até de quem lê em silêncio. Segundo, porque a adequação entre tais construções e o sentido do texto original é duvidosa.
Detenhamo-nos mais neste segundo ponto.
Se “passear” e “jantar” são verbos intransitivos (e no caso sem dúvida o são), que faz aí o pronome “se”? A resposta é relativamente simples: é pronome apassivador atuando para impessoalizar as orações, de molde a torná-las construções passivas impessoais[13].
O terceiro verbo já não admite tal explicação: “tarde”, para isso, teria de ser objeto direto — e é bem sabido que o verbo transitivo direto não se impessoaliza pelo pronome passivo[14]. Deste modo, a construção “passou-se a tarde” só admitirá dois correspondentes: (1º) “a tarde passou[-se] a ver livros…” (reflexibilidade atenuada[15]); ou (2º) “a tarde foi passada a ver livros…” (construção na voz passiva[16]).
Apesar dessas explicações, porém, o que está por trás do triplo “se” é, arrisco dizer, um processo bem mais simples: o redator vale-se do pronomezinho como uma espécie de “versão impessoal” do pronome “nós”, como uma variante mais culta do cotidiano “a gente”, e no fundo como uma tradução portuguesa do francês “on”.
O problema é um só: não existe tal equivalência. O “se” não é o “on”. Anda mal quem diz *aluga-se casas* achando que com isso diz “alguém aluga casas”, como anda mal quem escreve *onde quer que se o veja* imaginando escrever “onde quer que alguém o veja” ou “onde quer que o vejam” ou “onde quer que o vejamos”.[17]
Melhor que tais flertes gauleses; melhor que forçar a impessoalidade onde nada a convida, onde sabemos muito bem quem praticou as ações; melhor, enfim, que a repetição empolada do pronome “se” — parece-nos teria sido recorrer a uma tradução mais literal, ou abraçar logo o “nós” como sujeito. A primeira tarde de David Copperfield com a linda Dora não merece que à vivacidade das impressões venha-se interpor o pesado abstracionismo dos “ses”.
IV
Há, além do primeiro trecho que já analisamos, um conjunto de outros em que Costa Neves prodigalizou no “se” sem nenhum fundamento. Cito-os em bloco:
-
- — É tocante ver-se essa linda criaturinha aconchegar-se ao tio; ver como dia a dia, e cada vez mais, ela se apega a ele. (Vol. I, p.423)
- Havia em seu lugar uma velha construção de tijolos vermelhos, que servia de escola; casa tão bonita que até dava gosto ir-se ao colégio. (Vol. II, p.62)
- — O seu amigo — respondeu ela. — Que tem ele que ver com isso? É preciso ser-se muito estúpido! (Vol. II, p.154)
- — […] Oh! Não, ninguém pode avaliar quanto sofri. Nem mesmo mamãe. Imagine o que é ter-se constantemente na alma essa apreensão, essa agonia. (Vol. II, p.220)
- — […] Creio, no entanto, ser algumas vezes difícil obter-se pronto resultado naquela parte das nossas possessões coloniais, onde o destino nos encaminha para a luta contra o solo inculto. (Vol. II, p.332)[18]
Quatro dos cinco excertos são em discurso direto — cada um na voz de uma personagem diferente — e um deles é da pena do próprio narrador em primeira pessoa, David Copperfield. Tal uso do “se” com o infinitivo não pode ser explicado, portanto, como tentativa de estilizar a fala de uma personagem. É da tradução que ele brota, é a esta que serve — ou presta desserviço.
Nestes cinco trechos temos outra diferença para com o anterior: todos os “ses” podem ser sumariamente eliminados, sem prejuízo da compreensão ou do sentido, e com um ganho de harmonia e realismo nos diálogos — afinal, o pronome “se”, quando não é reflexivo, empresta à frase um acento abstrato e intelectualizado que a faz pesar. Vejamos como ficariam, mondadas desse intruso, as citações:
-
- — É tocante ver essa linda criaturinha aconchegar-se ao tio; ver como dia a dia, e cada vez mais, ela se apega a ele.
- Havia em seu lugar uma velha construção de tijolos vermelhos, que servia de escola; casa tão bonita que até dava gosto ir ao colégio.
- — O seu amigo — respondeu ela. — Que tem ele que ver com isso? É preciso ser muito estúpido!
- — […] Oh! Não, ninguém pode avaliar quanto sofri. Nem mesmo mamãe. Imagine o que é ter constantemente na alma essa apreensão, essa agonia.
- — […] Creio, no entanto, ser algumas vezes difícil obter pronto resultado naquela parte das nossas possessões coloniais, onde o destino nos encaminha para a luta contra o solo inculto.
Absolutamente idênticas no sentido, e livres do incômodo parasita! Novamente parece o tradutor ajuntar o “se” com o intuito de explicitar o “sujeito” gramatical, mas de modo impessoal. Como se o “se” cumprisse o papel de dizer “Creio, no entanto, ser algumas vezes difícil alguém obter pronto resultado…” ou “Imagine o que é uma pessoa ter constantemente na alma…”.
Ora, mas onde se encontrará maior impessoalidade que no puro e simples infinitivo… impessoal? Onde melhor sujeito ou complemento para estas orações que numa forma… nominal?
Em dois excertos poder-se-ia, num ato desesperado, vislumbrar no “se” uma função apassivadora: “creio, no entanto, ser difícil de ser obtido pronto resultado…”; “é tocante de ser vista, essa linda criaturinha…”. Mas nem aí o pronome se sustenta, porque as próprias construções com “tocante” e “difícil” conferem ao infinitivo um valor passivo[19].
Passarei a uma longa citação a respeito do emprego pernicioso do “se” com o infinitivo, que espero sirva de exercício de estilo para todos os leitores. E que se lembrem disto: Na dúvida, eliminem o “se” que penduraram no infinitivo; se não fizer falta, não no restituam!
1ª — Facilmente poderá o aluno ver a inutilidade do se em construções como estas:
“Convém notar-se que ele errou” — “É impossível descrever-se a alegria” — “É erro colocar-se acento” — “Não era lícito esperar-se outra coisa” — “Era de ver-se a anarquia” — “Não convém avançar-se muito” — “Não é bom passar-se o dia sem ler” — “É difícil ver-se a floresta”.
Será o temor de errar que leva o escritor a empregar tanto se? Confusão, descuido ou falta de estudo é causa desse erro?
Digamos logo: Em todos os exemplos acima citados, os infinitivos são sujeitos ou complementos: “Que é que convém?” — “Notar” — O sujeito de convém é, pois, notar. Agora pergunto: “Notar o quê?” — “… que ele errou”. Que função está então exercendo o se da construção do redator ou do escritor descuidado? Nenhuma. Digamos, pois, simplesmente e com acerto: “Convém notar que ele errou” — sem esse intruso se.
[…]
Vejamos agora este exemplo: “Deve-se repartir a herança”. O se está aí certo? Sim, porque exerce função apassivadora: “Que se deve repartir?” ou: “Que deve ser repartido?” — “A herança”: “A herança deve ser repartida” = “Deve-se repartir a herança.
2ª — Com o intuito de repisar o assunto da nota anterior, aqui transcrevemos a resposta a um aluno:
Não devemos empregar o pronome se quando não lhe conhecemos a função; é capítulo da gramática que merece estudo demorado. Construa: “É proveitoso ler esse livro” (e não: “É proveitoso ler-se esse livro”).
Redatores apressados e escritores descuidosos continuam a demonstrar desconhecimento das funções dessa palavra, redigindo a miúdo frases como esta: “É muito engraçado ouvir-se falar em política”.
Ora! Que pretende com isso dizer o redator? O se está sobejando, sem nenhuma função portuguesa; nem apassiva nem impessoaliza o sujeito. O sujeito é ouvir falar em política, sem o intrometido se.
Quem assim redige, com igual extravagância deve dizer: Tomar-se o remédio nem sempre é bom — Saber-se discorrer sobre filosofia é edificante — Poder-se falar sobre o caso é necessário.
[…]
3ª — Outro caso de inteira inutilidade do se está no empregá-lo com certos infinitivos antecedidos de “de”, “para”, “por”, “a”, principalmente quando completam a significação de adjetivos; é erro dizer “osso duro de roer-se”; o se aí está sobejando, pois a expressão é já passiva pelo que estudamos no final do §391, onde se encontra a explicação destas expressões [corretas]:
Osso duro de roer, estrada difícil de passar, há muitas coisas para vender, esse exemplo não é para imitar, obra começada a imprimir, há outros problemas por resolver.[20]
V
O Tenente Coronel Alberto Augusto Martins, compositor da letra da Canção do Exército[21], acertadamente escreveu:
Como é sublime
Saber amar,
Com a alma adorar
A terra onde se nasce!
O “se” só figura no verbo conjugado, junto do qual tem função. Nada de dizer: *Como é sublime saber-se amar…* ou *Com a alma se adorar…*.
VI
O combate à multiplicação daninha do “se” não deve ser empresa figadal, mas do cérebro aliado aos sentidos. Períodos em que o “se” conjunção atrai o “se” pronome são gramaticalmente corretos — embora a conveniência sonora de empregá-los mereça avaliação da frase inteira, mediante leitura em voz alta. Nenhum problema há portanto nestes trechos (que grifamos):
O que eu lhe digo é que, se se espalhar a notícia de que a senhora recolhe os enjeitados, verá que lhe chovem em casa como a praga do Egito. (Camilo)[22]
Se se puseram editais para o governo do novo reino, e ele se houvesse de dar por oposição, quantos pretendentes, e quão estirados haviam de aparecer em Masfá diante de Samuel, fundando cada um a sua pretensão em grandes merecimentos. (Vieira)[23]
Sei disto por ele, a quem perguntei se se não aparelhava já; respondeu que não, que há tempo. (Machado de Assis)[24]
VII
Após uma olhadela nos usos e excessos do “que”, demoramos nossa atenção no pronome “se”.
Vimos que, embora em algumas construções impessoalizadas o “se” possa transmitir idéia próxima, não é este pronome um equivalente automático e mais culto para o “a gente”, para o “nós”, para o “alguém”, para o “on” francês ou para o “one” impessoal inglês. Em alguns casos, as construções até se equivalem — em muitos outros, não.
Vimos também que o “se” pode comportar-se como verdadeira palavra invasora, como um parasita. Que em certas frases, além de inútil ou até mesmo errado, ele soa mal e dá ao texto um quê de pernóstico e abstrato, etéreo e empolado, asséptico e virtual.
Mesmo se fizéssemos o gesto repreensível, mas que tanto medra em nossos dias, de desprezar a gramática e dizer “tudo vale”, “não há certo e errado na língua”, ainda assim a sonoridade e a harmonia do estilo acusariam a verruga peluda, o “se” sobejante. Que se lhe passe a faca!
NOTAS
[1] Napoleão Mendes de Almeida, Gramática Metódica da Língua Portuguesa (GMLP), §581.
[2] Napoleão Mendes de Almeida, GMLP, §161, nota 2; §636.
[3] Napoleão Mendes de Almeida, GMLP, §377, nota 2.
[4] Napoleão Mendes de Almeida, Dicionário de Questões Vernáculas (D. QVs), “se”.
[5] Fernando Pestana, A Gramática para Concursos Publicos, “Capítulo 11” (1ª ed., Rio de Janeiro: Elsevier, 2003).
[6] Antoine Albalat, A Arte de Escrever – Em vinte lições, “Lição Sétima” (1ª ed., Trad. Cândido de Figueiredo, Campinas: Vide Editorial, 1899/2015).
[7] Manuel Rodrigues Lapa, Estilística da Língua Portuguesa, “Capítulo 9”, §8 (2ª ed. brasileira, São Paulo: Martins Fontes, 1988.
[8] Napoleão Mendes de Almeida, GMLP, §530, nota de rodapé 7 (sublinhados e negritos nossos).
[9] Eduardo Lopes Martins Filho, Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo (3ª ed. revista e ampliada, São Paulo: Moderna, 1997).
[10] Manuel Rodrigues Lapa, Estilística da Língua Portuguesa, “Capítulo 9”, §8 (2ª ed. brasileira, São Paulo: Martins Fontes, 1988. (sublinhados e negritos nossos)
[11] Charles Dickens, David Copperfield (2 vols, 2ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019).
[12] Charles Dickens, David Copperfield, “Chapter 26” (Project Gutenberg). Disponível em: http://www.gutenberg.org/files/766/766-h/766-h.htm#link2HCH0026 ; acesso em 10/1/2020.
[13] Napoleão Mendes de Almeida, GMLP, §405, “A”.
[14] Napoleão Mendes de Almeida, GMLP, §391, 2; §405, “A”; §406; e §485. Há uma exceção à regra ora exposta, caso em que a impessoalidade poderá ser obtida pela transformação do objeto direto em objeto indireto (GMLP, §405, “B”); não é o caso de “passou-se o dia”.
[15] Napoleão Mendes de Almeida, GMLP, §402.
[16] Napoleão Mendes de Almeida, GMLP, §404.
[17] Napoleão Mendes de Almeida, GMLP, §406. v. tb. Evanildo Bechara, Lições de Português pela Análise Sintática, Lição VI, §15, Obs. 1; Lição VIII, §8, Obs. (18ª ed. revista e ampliada, Rio de Janeiro: Lucerna, 2006).
[18] Charles Dickens, David Copperfield (2 vols, 2ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019) — (grifos nossos).
[19] Napoleão Mendes de Almeida, GMLP, §391, 2, nota “a”.
[20] Napoleão Mendes de Almeida, GMLP, §407, notas.
[21] Livro Hinos e Canções Militares, Edição de 1976. Letra e música disponíveis em: https://pt.wikisource.org/wiki/Can%C3%A7%C3%A3o_do_Ex%C3%A9rcito ; acesso em 12/1/2020.
[22] Camilo Castelo Branco, Maria Moisés. Disponível em: http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/biblioteca-digital-camoes/literatura-1/1045-1045/file.html ; acesso em 13/1/2020
[23] Padre Antônio Vieira, Sermão da Terceira Dominga do Advento. Disponível em: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=49818 ; acesso em 12/1/2020.
[24] Joaquim Maria Machado de Assis, Memorial de Aires. Disponível em: http://www.machadodeassis.net/hiperTx_romances/obras/memorial.htm ; acesso em 13/1/2020.

