R – 15. A idéia é boa o bastante para criar um grande clássico, porém a execução é insatisfatória: O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde

Considerável desafio é tecer críticas a uma obra por muitos considerada “um clássico”, mas não vejo como esquivar-me do problema no caso de “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde.

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O esqueleto da narrativa muitos já conhecem: Dorian Gray é um jovem aristocrata muito bonito, de quem é pintado um retrato cuja propriedade “mágica”, descobrir-se-á, é envelhecer em lugar de seu modelo, e de certa forma refletir ou simbolizar o estado de sua alma. Mais ou menos na época em que a fidelíssima pintura é finalizada, Dorian torna-se amigo de Lord Henry, homem cínico, avezado a proclamar suas picantes idéias sobre a vida nos salões da sociedade; Henry passa a exercer sobre o jovem grande influência, fomentando-lhe o sensualismo com um espírito de contradição que beira o diabólico. É assim que a data da confecção do retrato de Dorian Gray torna-se um “Y”, um ponto de bifurcação: a vida do belo rapaz segue um caminho de luxo, imoralidade e hedonismo, inspirado por Henry e refletido no retrato, enquanto seu rosto humano permanece inocente e angelical. Essa é a tensão que sustenta a narrativa.

Não há como negar: a idéia é muito boa. Misture com perspicácia a história de Narciso, a lenda da “Fonte da Juventude”, o meio social da Inglaterra vitoriana, uma pitada de feitiço, e a sedução que exercem sobre os jovens as cenas da vida artística e os discursos com sotaque filosófico — o caldo é, sem dúvidas, propício ao surgimento de um romance de peso.

Wilde, contudo, não consegue ser um escritor à altura de seu próprio enredo. Machado de Assis encomendou almoço no mesmo restaurante, só que bem mais modesto, quando escreveu “O Segredo de Augusta” (Contos Fluminenses, 1870) e “Uma Senhora” (Histórias sem Data, 1884), ambos anteriores ao livro de Wilde, que é de 1890; no segundo conto saiu-se bem melhor do que no primeiro, mas em ambos — e note-se que “Contos Fluminenses” é um livro de pouco valor literário¹ — foi capaz de digerir bem a refeição que estava diante de si. Oscar Wilde, se é certo que não teve uma congestão com a pratada, bagunçou porém as guarnições, deixou os legumes de lado, empurrou o que pôde com vinho, para não entalar, e sorrateiramente atirou uma bisteca para o cachorro do anfitrião.

E se minha metáfora gastronômica não agrada, que dizer disto:

«« fechando a porta atrás dela, enquanto, parecendo uma ave do paraíso que ficara fora a noite toda na chuva, ela se esgueirou da sala, deixando um perfume leve de frangipani »»   (pág. 58)? 

E disto:

«« Os passantes olhavam espantados para o jovem taciturno, pesado, que em roupas grosseiras, desajustadas, estava na companhia de uma garota tão graciosa, de aparência refinada. Parecia um jardineiro caminhando com uma rosa»»  (pág. 80)? 

Ou ainda, disto aqui: 

«« Em meio à multidão desajeitada de atores mal-vestidos, Sibyl Vane se movimentava como uma criatura de um mundo mais delicado. Seu corpo flutuava enquanto ela dançava como uma planta flutuante na água. As curvas de seu pescoço eram as curvas de um lírio branco. Suas mãos pareciam feitas de marfim frio. ][ No entanto, ela parecia curiosamente indiferente.»» (pág. 99)?

Aos símiles forçados vem irmanar-se a inutilidade dos adjetivos, resultando em descrições que nada pintam, criam pessoas artificiais que se movem e esbarram pela primeira metade do romance, talvez por dois terços dele, sem destaque a nenhuma voz genuína — sem nenhuma psicologia lúcida. 

Posto que não tenha lido o original (ao qual só fui depois, para conferir), não colocaria a culpa apenas do tradutor. Afinal, ele não teria motivo para sair inventando comparações bregas, quanto mais para pendurar por sua própria conta todos aqueles adjetivos. Por outro lado, é sim descuido seu que a monotonia decuplique-se em trechos como o último citado, onde as proximidades de “flutuava… flutuante”, “curvas… curvas” e “curiosam-ente indifer-ente”, incomodam a ponto de até aliterações e ecos mais sutis (Mãos … Feitas de MarFiM Frio / eM Meio à MulTiDão DesajeiTaDa De aTores Mal-vesTiDos / VAne… -AVA, -AVA, -AVA…) restarem amplificadas a ponto de causar engulhos. 

A maior prova de falta de ouvido literário, porém, dá-nos o redator quando à sua prodigalidade adjetivista alia a mesmice das quantidades e posições: 

«« […] costumava oferecer CURIOSOS concertos em que ciganos LOUCOS arrancavam melodias SELVAGENS de PEQUENAS cítaras, ou tunisianos SÉRIOS com cachecóis AMARELOS dedilhavam cordas TENSAS de alaúdes MONSTRUOSOS, enquanto negros SORRIDENTES batiam monotonamente em tambores DE COBRE, e acocorados em esteiras ESCARLATES indianos MAGROS de turbante sopravam flautas […] »» (pág. 157) — Grifei em versal adjetivos e locução adjetiva, e creio que não preciso ir além disso.

Alguns podem objetar que em inglês todos esses trechos soam melhor, “deslizam” de forma mais natural. Admito que pode ser o caso, mas infelizmente os problemas não acabaram, e doravante é inequívoco que a conta tem de ser paga por Wilde.

Tratemos de como ele conta sua história.

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Muitas cenas do livro conduzem-se por diálogos cujo imperativo parece ser regurgitar — retomo a metáfora digestiva — máximas da mais afetada pseudofilosofia disponível no mercado. Lord Henry é quem mais verbaliza tais ditos, mas não está sozinho: não poucas criaturas wildeanas se dispõem a falar desse modo bombástico e fingidamente profundo, como se anunciassem conclusões de sofisticados sistemas de pensamento. São talvez os precursores de certos gurus pós-modernos, especialmente na medida em que são personalidades intragáveis… e ilegíveis.

Nada disso me impediu de continuar lendo. A cada página gasta com retórica barata ou com o empolamento descritivo, eu me perguntava se havia no autor ou narrador uma intenção irônica mais sutil — como deixar ver a toxicidade contida naquele modo de relacionar linguagem e verdade, que com toda a certeza é a causa da degradação moral do jovem protagonista. Talvez, pensava eu, tudo isso visasse a desmascarar o fator maligno, a língua de Henry Wotton. Ingenuidade minha: basta ler o prefácio para concluir que o próprio Oscar Wilde era useiro e vezeiro na arte de criar brocardos ocos e apaixonar-se por eles. Se não fora visual a paixão de Narciso, mas auditiva, verbal, o mito seria uma antecipação perfeita da intelectualidade que Wilde representa.

E é por isso que, no desenrolar da história, a culpa pela destruição de Dorian não recai na pessoa de Henry, nem sequer em seus discursos, mas tão somente num livrinho pecaminoso com que presenteou Gray. Henry passa incólume, termina o romance tagarelando, tagarelando sem nenhum contraponto sério — sua última conversa com Dorian não leva a nada, é como todas estéril e artificial —, e também sem nenhum triunfo, apenas dando sequência à sua rotina de amenidades, paradoxos pomposos e frases vazias. Desse modo o autor, Wilde, desvia-se do verdadeiro problema que seu livro poderia enfrentar. E o que é mais espantoso: chega a produzir uma cena final visualmente excelente, a qual acaba funcionando como uma espécie de trunfo para esquivar-se de vez de toda a profundidade e todas as consequências do problema psicológico e moral que inventou mas não tem coragem de fitar.

Após páginas e páginas resistindo estrênuo à tentação da leitura diagonal, finalmente passei da página 170, a partir de onde a história começa a ficar um pouco mais empolgante. A essa altura fica claro que, quando narra cenas de mais movimento, episódios que exigem construções sóbrias e ágeis, Wilde revela-se um escritor bem melhor do que o mesmo Wilde. Talvez seja por isso que a mim seus contos (“O Fantasma de Canterville”, “O Milionário Modelo”, “A Esfinge sem Segredos”) pareceram tão superiores ao romance. O busílis está em que as cenas de palestra pseudo-filosófica voltam a todo o tempo, como se fossem obrigatórias, num revezamento que resfria periodicamente a narrativa. As últimas três páginas revelam uma cenografia excelente, porém esse final não ocorre com a devida preparação; a expectativa do leitor não sabe direito para onde apontar, porque a tensão necessária ao desenlace não chega a ser corretamente construída: perdeu-se no torvelinho da retórica.

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Quanto à edição brasileira (Penguin/Companhia das Letras), já deixei claro que não trabalhei cotejando o original, mas a tradução não me pareceu ter problemas sérios de fidelidade. Há uns deslizes de revisão aqui e ali, e também os trechos em que o texto soa mal, como aquele da página 99 que copiei. O impresso é simples, a letra não é tão pequena e as margens têm espaço razoável; a capa é de material flexível e não possui orelhas. O maior defeito está na obra literária em si, que conta de um jeito insatisfatório uma história com grande potencial. Três estrelas.

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🖼 NOTA: [¹] Resenha do livro “Contos Fluminenses”: https://www.amazon.com.br/review/R1O81RCW6VSZ2Z/ref=cm_cr_srp_d_rdp_perm?ie=UTF8&ASIN=8572327185 

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15. Chamada - Dorian Gray

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