R – 16. Vale a pena, se intercalado com obras mais completas: Gradus Primus, de Paulo Rónai

O começo deste opúsculo intriga mais que aquele misterioso cadáver desfigurado com a palavra “RACHE” escrita em vermelho na parede: o autor diz no prefácio, com todas as letras, que o livro trata da matéria ensinada (atenção) “no primeiro ano”. O leitor não sabe o que pense. Não importa se “primus” é o primeiro ano do fundamental ou do ginásio, o primeiro do ensino médio, graduação, mestrado ou doutorado. O Latim, hoje, é língua morta no currículo escolar brasileiro, e espanta descobrir que um dia foi parte do “primeiro ano” de alguma instituição educacional do país. O Latim não foi deixado para depois, para a etapa seguinte, para os estudantes mais maduros… ele foi adiado para o dia de São Nunca, e praticamente só pode ser aprendido em cursos extracurriculares (a menos, é claro, que se esteja buscando colar grau em Letras Clássicas).

A importância do Latim, outros podem defendê-la melhor do que eu — remeto aqui ao prefácio da “Gramática Latina” de Napoleão Mendes de Almeida. O que fica realmente difícil de explicar é o completo desaparecimento, nas escolas, dessa língua cujo estudo não me foi recomendado, nem sequer mencionado, por nenhum professor que tive dentro das instituições credenciadas pelo MEC por mim frequentadas, desde o “prezinho” até a obtenção do título de mestre em ciências. 

Talvez seja necessário menos que um Sherlock Holmes para desvendar tal mistério; vamos, porém, ao “GRADUS PRIMUS”.

🔎1) O livro chegou no prazo. Pelo menos em São Paulo a Amazon é excelente nas entregas; já fiz mais de vinte compras e nunca recebi uma embalagem danificada ou fora do prazo. O volume é pequeno (quase um livro de bolso) e tem cento e poucas páginas. Quando cheguei à metade, um dos cadernos internos começou a se soltar, o que me obrigou a passar ali um fio de cola branca e deixar o livro descansando de um dia para o outro; mais para o fim da leitura, o miolo inteiro descolou-se da lombada. Certo houve defeito na montagem ou na escolha do material utilizado¹.

🔎2) São trinta capítulos, todos seguindo esta mesma estrutura: leitura com ilustração; vocabulário; um ou dois breves parágrafos de gramática; e uma lista de exercícios do tipo “decline”, “conjugue”, “traduza”, “verta” ou “explique”. Duas lições (nºs 20 e 30) são mais longas, porque concluem, respectivamente, o aprendizado das declinações e das conjugações; ambas contêm uma série complementar de exercícios, e depois quadros sinópticos do conteúdo aprendido. Ao final do opúsculo, um vocabulário latim- português.

🔎3) As leituras são simples e agradáveis, proporcionando um bom contato com diversos textos em latim; a dificuldade vai aumentando com o passar das aulas, e o livro cobre as cinco declinações, as duas classes de adjetivos e a voz ativa das quatro conjugações, em todos os tempos e modos. As explicações são sucintas, e os exercícios bem variados e instigantes: não há monotonia. Um defeito, porém, é a inexistência de uma chave de correção para as questões. Lá no longínquo “primeiro ano” do prefácio, a insuficiência era resolvida com a boa e velha correção do professor; hoje, porém, fica-nos um vazio. E como o futuro da inteligência brasileira aparentemente depende do autodidatismo, carências como essa se tornam defeitos relevantes

🔎4) A simplicidade do livro — responsável por sua praticidade e por podermos levá-lo de cá para lá, para estudos rápidos — tem como efeito colateral a ausência de maior profundidade nas explicações gramaticais. Não se trata de um livro de gramática, fique claro, trata-se de um pequeno curso que precisa ser completado, quer por um mestre, quer por uma gramática;  e “Gramática Latina” não conheço outra que a do já citado Napoleão Mendes de Almeida, cuja aridez eventual poderá levar o aluno a buscar um pouco de leveza —  e esta o prático livrinho azul poderá oferecer.

🔎5) CONCLUSÃO: o livro vale a pena, principalmente se intercalado com o estudo de obras mais densas, como a “Latina” do Napoleão. A falta de correção aos exercícios é frustrante, mas quem sabe seja suprida com (a) a produção de algum material complementar “online” e (b) o estudo em dupla ou grupo, com troca de exercícios entre os colegas para a correção. O problema de descolamento do miolo rebaixa bem a nota. Três estrelas . ★★★

🔎 NOTAS:

[¹] Mesmo problema de descolamento tive com “Gradus Secundus”; v. resenha abaixo:

🔗https://www.amazon.com.br/gp/customer-reviews/R2BG494C2WA1LB/ref=cm_cr_dp_d_rvw_ttl?ie=UTF8&ASIN=8531601037

*16. Chamada - Gradus Primus

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