Não é preciso ter muita experiência com processadores de texto para ter visto ao menos um caso em que o corretor ortográfico do computador considerou errada uma palavra correta. Com mais tempo de trabalho, logo descobrimos que a falha oposta também ocorre: o computador às vezes não acusa construções escandalosamente equivocadas.
Isso, porém, é hoje. O computador não nos poupará, num futuro próximo, do trabalho de corrigir nossa própria escrita? Não assumirá de vez a posição de bom redator, deixando-nos apenas o trabalho de ter boas idéias?
Escrever o futuro é mester de profetas; podemos no máximo, com especular, sugerir um caminho mais seguro. É o que vamos tentar.
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Qual é a falha mais frequente do “Google Tradutor” ao sintetizar voz para pronúncia de uma frase?
“A entonação”, responde alguém, no meio dum bocejo.
E por quê? Primeiro, porque a entonação é uma das partes menos teorizáveis de nosso aprendizado da língua. Podemos dizer a uma criança: “ao escrever uma pergunta, coloque no final este sinalzinho chamado ponto de interrogação”; mas como lhe ensinamos a pronunciar uma pergunta? — “Comece mais baixo”, “levante a voz na penúltima sílaba”? Ninguém dá tais instruções; porém, grande mistério!, ela aprende muito rápido a perguntar.
Depois, porque a entonação e o ritmo da frase envolvem variedade muito grande de alternativas possíveis; há diferenças entre regiões, entre indivíduos e até entre circunstâncias — emoção, estado físico, intenção.
Sem entender a vocalização pretendida, o computador é incapaz de decidir entre duas ou mais formas igualmente corretas de pontuar o texto. Lembremos que a pontuação não é nem só sinalização de acidentes sintáticos (termos paralelos, deslocados etc.), nem só indicação rítmica e respiratória (tom e pausa); é um sistema híbrido, de marcações já lógicas, já cadenciais.
Se aspectos da intenção autoral e da cena discursiva concreta influem na entonação e no ritmo, e se estes interferem diretamente na pontuação, então forçoso é que o computador também não entenda bem de vírgula, de dois-pontos, de exclamação, de reticências. E se é fraco na pontuação, também acaba revelando que não sabe perfeitamente qual termo rege qual, qual palavra exerce qual função, afinal os sinais de pontuação fazem parte da sintaxe de um período.
E pensemos um pouco: sem ser capaz de fazer uma boa análise sintática, pode o computador entender o sentido de cada palavra? Ora, o sentido é dado em parte pelo dicionário, mas só se completa com a colocação na frase. Muitas preposições há cujo significado intrínseco é tão tão incerto que só empregadas em frases reais elas adquirem um sentido próprio.
Nas palavras homógrafas, também é só o emprego que resolve a dúvida. “Manga” é substantivo que designa a fruta ou que o braço da camisa? É o verbo mangar na terceira pessoa do presente do indicativo, ou na segunda do imperativo afirmativo? Talvez seja adjetivo acidental para indicar cor… Pouco ou nada sabe o computador sobre isso, que já é exigir compreenda as palavras, a intenção do escritor e o contexto todo em que surgiu a palavra.
Então muito bem; o computador não entende de entonação e ritmo, não domina a pontuação, é imperfeito na análise sintática e não se garante quanto ao sentido e à classificação morfológica da palavra. Isso não coloca em suspeita a própria correção ortográfica que realiza? Afinal, casos há em que, para saber se a grafia de uma palavra está certa ou errada, é preciso entender seu significado…
Um exemplo simples: “O menino comeu a maça com molho branco”. Um erro ortográfico de pura desatenção. Um primeiro corretor ortográfico deixou passar, porque “maça” (clava, pedaço de pau) é substantivo e, como tal, pode perfeitamente ser objeto direto do verbo “comer”. A máquina não come, e não lhe importa que maças não sejam comestíveis.
O segundo programa parece mais espertinho e sugere a troca de “maça” por “maçã” — mal sabendo que maçãs não se comem com molho branco! Mas pelo menos ele sabe que “maça” não é alimento…? Vamos com calma; basta construir “bateu-lhe com a ponta da maça nas costas” para ver que não se tratava de inteligência artificial, senão de vocabulário estreito. O corretor novamente sugere trocar “maça” por “maçã”; não percebe que a frase está correta, porque desconhece a palavra maça tanto quanto a fruta maçã, não sabe que esta é redonda, não tem ponta com que se possa bater na cabeça de ninguém.
“O menino comeu a maça com molho branco”. A correção é maçã, ou é massa? Um ser humano resolve em dois segundos o mistério, porque conhece o significado das palavras, conhece a realidade e conhece razoavelmente a intenção do escritor. Uma criança que tivesse sua redação corrigida tão-somente com auxílio da máquina aprenderia errado, e seria privada de expandir seu vocabulário.
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Se o computador não capta bem entonação, pontuação, sintaxe, semântica, ortografia, como diremos que basta? No horizonte próximo — aquele em que não há margem à ficção científica, profética ou não — parece que não vai bastar.
O corretor ortográfico é um instrumento formidável e muito bem projetado; não descarto uma única sugestão do “Word” ou do “Google Docs” sem ouvir o que o programa tem a dizer. Mas todas as opiniões que o corretor dá são isso: opiniões. E mais: são opiniões de máquina, quer dizer, falam aquilo de que a máquina, com uma precisão tremenda e uma limitação tremenda, sabe falar.
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