🧠 1. O LIVRO
་ Ao livro “12 Regras para a Vida: Um Antídoto para o Caos” parece aplicar-se o que o próprio autor, na sua Regra 1, chama de “Lei de Price”: toda a produção criativa se submete a uma distribuição desigual em popularidade ou retorno financeiro, de tal modo que 5% ou menos da população concentra 50% ou mais dos bons resultados. É assim que apenas quatro dos compositores clássicos (Bach, Beethoven, Mozart, Tchaikovsky) respondem juntos pela maior parte das músicas tocadas pelas orquestras; também é assim que, no interior da obra de cada um desses compositores, apenas uma pequena parcela das músicas é tocada com grande frequência, enquanto a maior parte resta praticamente esquecida ou restrita aos especialistas.
O livro de Jordan Peterson apresenta, ao mesmo tempo, (a) umas poucas idéias e apólogos de grande valor, que merecem ser vistos e aprendidos por todos, e (b) uma grande quantidade de volteios e repetições, e algumas “gorduras” que poderiam ter sido cortadas, pois chegam a atrapalhar o propósito do livro. Eis aí: cinquenta por cento do valor, concentrado em cinco por cento das páginas; após um trabalho de refundição sério, feito por um escritor cuidadoso, estimo que o livro perderia um terço de seu volume.
O grande mérito do autor me parece ser o elevar-se acima da departamentalização da Psicologia e das Ciências Humanas em geral, e permitir que psicanálise, psicologia evolutiva, psicologia analítica, história das religiões, neurociências, sociologia empírica, psicologia comportamental, literatura de ficção, psicologia social e mitologia dialoguem, com o objetivo de proporcionar ao ser humano uma imagem de si que lhe permita “o desenvolvimento do caráter frente ao sofrimento” (p. xxvii), a assunção de responsabilidades e o amor ao Ser (por mais falho que este seja e incompleto). É notório que Peterson tenha conseguido devolver o tom de voz humanizado às vertentes mais empíricas e científicas da Psicologia, cujos representantes ainda têm, em certas instituições universitárias do Brasil, alguma dificuldade em admitir as consequências simbólicas e a inserção da disciplina num esquema que não seja meramente o do “método científico”, senão o da vida de pessoas reais, de existências humanas, históricas, abertas à transcendência e ansiosas por sentido.
Alguns trechos de “12 Regras…” lembram vídeos de Jordan Peterson no ‘YouTube’, não sei bem se anteriores ou posteriores à publicação do livro; duas ou três páginas da Regra 6 parecem ser mesmo pura transcrição de um vídeo. Nenhum problema em relação a isso, a não ser por acabar revelando que a oratória de Peterson é melhor que sua escrita. Talvez seja por isso que o autor gravou inúmeros trechos do livro com sua própria voz, carregando-os para ‘download’ em seu sítio eletrônico: a entonação parece ter um papel importante na transmissão de suas idéias.
Daí também o texto de Peterson ser marcado por um estilo largamente oral que, associado a parágrafos longos demais, pouco estruturados e às vezes repetitivos, prejudica a qualidade literária da obra. Algumas páginas são sofríveis; nada obstante, há vários trechos em que Peterson acerta a mão e escreve de modo claro, leve e fluente. As narrativas, pessoais ou clínicas, normalmente se dão desta forma, o que é espetacular; creio que essas histórias são, junto com quatro ou cinco “insights” mais profundos, o que o livro tem de mais precioso. Idéias basilares das 12 regras também foram escritas nesse estilo mais arejado, conservando assim o poder das lições.
🧠 2. A EDIÇÃO
Tratemos, por fim, da edição propriamente dita. A capa é bem-feita (letras douradas, mas antes minimalista que apelativa), seguindo o padrão do original canadense; o papel é levemente amarelado; as margens do texto, se um pouco maiores, facilitariam anotações, mas isso talvez forçasse a um aumento no número de páginas — são já quatrocentas, com formato grande (17x24cm) e letra que não pode ser encolhida.
No início da cada Regra há uma ilustração que ocupa a página inteira; o efeito é legal, combina com o estilo do autor e com atmosfera do livro. As referências bibliográficas são feitas por meio de notas de fim (220 notas no total), ao passo que as demais notas ficaram para o rodapé; foi uma boa escolha, mas lembre-se de usar dois marcadores de página.
Numa primeira leitura, reportei 41 erros de texto ao editor, entre gralhas e problemas de revisão gramatical; também algumas sutilezas do original parecem não ter sido percebidas pelo tradutor, que seguiu à risca e com excessiva literalidade o estilo e ritmo de Peterson.
🧠 3. CONCLUSÃO
Por sua originalidade, o autor mereceria a nota máxima, porém os excessos e outros defeitos literários apontados obrigam-me a tirar uma estrela. A edição brasileira apresenta falhas dentro do aceitável. De zero a dez, daria uma nota oito. QUATRO ESTRELAS, portanto.
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