R – 19. Embora completa, poucos são os textos de valor nesta coletânea: Impressões de Leitura, de Lima Barreto

Estamos diante de uma coletânea de textos curtos (o maior tem dezesseis páginas, a maioria não passa das quatro), e bastante completa. É claro que umas boas notas de rodapé, dando a referência bibliográfica completa (e a sinopse, imaginem!) dos livros comentados por Lima Barreto, teriam sido contribuição notável da organizadora — muito mais relevante do que a apresentação e o prefácio, penso. Mas já foi valoroso o esforço de reunir todas as “apreciações literárias” e organizá-las cronologicamente, com o sumário subdividido por ano de publicação, dando continuidade ao já amplo trabalho de Francisco de Assis Barbosa — que, com a primeira edição da ‘Obra Completa’ de Lima Barreto, nos anos de 1950, inaugurou a coleção das “Impressões de Leitura”.

Fique o Cliente Amazon avisado, no entanto, de que quatro quintos ou mais do volume são críticas de livros e autores menores, hoje praticamente esquecidos, escritores contemporâneos de Lima que não conseguiram passar no “Teste da História”. Tais impressões de leitura aproveitam pouco a quem está apenas querendo ler crítica literária, não coligir dados sobre a vida do escritor ou sobre autores menores do início do século XX.

Apesar dos numerosos trechos que se levarão, por isso, à conta de ‘obiter dicta’, o livro deixa ver com razoável segurança a concepção de “boa literatura” que move o autor do “Policarpo Quaresma”. Imprescindível para tanto é a conferência escrita em 1921 (e jamais proferida) intitulada “O destino da literatura”, pois ali temos o maior esforço feito por Lima Barreto para dispor ordenadamente seus ideais estéticos.

A conferência tem duas funções essenciais: mostrar o que Lima entende por boa literatura, e registrar a importância que nela vê para o destino da humanidade. De tal texto se podem extrair os parâmetros de julgamento de todas as demais manifestações críticas do autor. “O destino da literatura” talvez seja o único capítulo realmente valioso das “Impressões de Leitura”, e merece ser lido, nesta ou em qualquer outra edição. Alguns princípios críticos adicionais — muitas vezes próximos aos da conferência de 1921, mas com outra dicção — podem ser coletados nos demais artigos do livro; na parte final da avaliação, tento organizar os de maior relevância, citando-os ou parafraseando-os.

Quanto à qualidade desta edição impressa da Companhia das Letras, já falei que é fruto de importante esforço para reunir todos os escritos do autor que se encaixam no conceito de “apreciação literária”. Acrescente-se que o material não é ruim, com papel Pólen (amarelado), letras em tamanho razoável e encadernação firme. Não me lembra ter encontrado erros de revisão. O espaço para marcação nas margens é razoável, sendo que sob o título de cada texto (são vários) há mais um pedaço em branco, para outras notas. A capa é flexível e sem orelhas; parece nas bordas um pouco vulnerável ao suor das mãos, e por isso preferi passar um papel ‘contact’ transparente no meu livro.

🐜 CONCLUSÃO: Por serem os textos um tanto irregulares e sem método — tais como o próprio autor descrevia sua rotina de trabalho —, esta não é uma leitura que eu recomende na íntegra, a não ser que haja um interesse específico, de pesquisa, sobre Lima Barreto ou sobre os livros que ele comenta. Ao leitor comum bastará ler a Conferência de 1921 e partir para a próxima tarefa. Como dizia o Padre Sertillanges: é preciso saber escolher OS livros, mas também saber escolher NOS livros. Três estrelas!

ANEXO À RESENHA: ALGUMAS CITAÇÕES E PARÁFRASES.

— I — Conselhos a um jovem escritor: «Escreve* muito, a todo o momento, narre as suas emoções, os seus pensamentos, descubra a alma dos outros, tente ver as cousas, o ar, as árvores e o mar, de modo pessoal, procure o invisível no visível, aproxime tudo em um só pensamento; […]»
(p. 69. *A irregularidade de pessoa é do original)

— II — Na boa poesia, a disciplina da forma não constringe nunca o pensamento. (p.101)

— III — Crítica de Lima Barreto a Coelho Neto (que era um antimodelo para ele). Depois da Conferência de 1921, talvez sejam estes parágrafos o segundo “ponto alto” do livro:

«Sem visão da nossa vida, sem simpatia por ela, sem vigor de estudos, sem um critério filosófico ou social seguro, o Senhor Neto transformou toda a arte de escrever em pura ‘chinoiserie’ de estilo e fraseado.» (p. 120)

«Coelho Neto fossilizou-se na bodega do que ele chama estilo, música do período, imagens peregrinas e outras coisas que são o cortejo da arte de escrever, que são os seus meios de comunicação, de sedução, mas não são o fim próprio da literatura.» (p.120)

«O Senhor Neto quer fazer constar ao público brasileiro que literatura é escrever bonito, fazer brindes de sobremesa, para satisfação dos ricaços.» (p.121) 

« A missão da literatura é fazer comunicar umas almas com as outras, é dar-lhes um mais perfeito entendimento entre elas, é ligá-las mais fortemente, reforçando desse modo a solidariedade humana, tornando os homens mais capazes para conquista do planeta e se entenderem melhor, no único intuito de sua felicidade. Onde está isto no obra do Senhor Neto? Onde está isto nos seus cinqüenta e tantos volumes? » (121-122)

«Toda a sua literatura, copiosa, vasta, trabalhadora, paciente, é falha porque ele não soube amar e compreender todos. Desde menino, o Senhor Coelho Neto ficou deslumbrado por Botafogo e as suas relativas elegâncias. Longe de mim dizer que lá não há almas, sofrimentos, dores e angústias; mas aí mesmo ele não as soube ver. O seu Botafogo nada tem de Balzac; é puro Octave Feuillet. » (122) 

— IV — L.B. propõe que se faça uma leitura sociológica-biográfica da figura de Machado de Assis. Segundo ele, melhor que buscar este autor nas influências inglesas que absorveu é buscá-lo em seus primeiros romances (p.175 — para entender isso, é interessante ler “Machado de Assis: Estudo Crítico e Biográfico”, excelente livro de Lúcia Miguel Pereira – 🔗https://www.amazon.com.br/gp/customer-reviews/R3CJ2DM89R3CIO?ref=pf_ov_at_pdctrvw_srp)

— V — Sobre a função da literatura: «Se a função normal da literatura é, dizendo o que os simples fatos não dizem, revelar, para ligar umas almas às outras, nunca ela foi tão útil como é agora no Brasil» (p. 191; a primeira parte da afirmativa parafraseia H. Taine e faz parte do “núcleo duro” das idéias literárias de L.B.).

— VI —  Lima Barreto parece sustentar uma espécie de “fantasia” crítica, imaginando um escritor ideal, um tipo de “bom selvagem” que não deixa de ser bom artista. Vejamos este trecho:«O sr. Uriel fez seus estudos e conhece os seus autores. Não há mal nenhum nisso; mas o que tornaria mais interessante a sua figura, já de si interessante, […] [é que ele] fosse como que a voz, ao mesmo tempo, grandiosa e eloquente de nossa natureza sem nenhum intermediário” (231). 

— VII — Defeito e sugestão a um autor da área da Sociologia, o sr. M. Carlos: Falta ao autor método de exposição, ressentindo-se seu livro de um “atropelo de considerações e desvios do assunto principal” (p.238), o que lhe tira a clareza e a força. Mesmo escrevendo num discurso científico, o autor, se quer agir sobre o meio que o cerca, deve revestir-se de sedução artística, para que seu livro interesse a todos. Não pode esquecer, afinal, que o Brasil é o país “mais dotado de preguiça mental que se conhece” (p.238).

— VIII — Mais uma dica do que é a “boa escrita” para Lima Barreto; vejamos também sua hostilidade com certos clássicos (cuidado!): «O sr. Gastão Cruls é médico, mas, graças a Deus, não escreve no calão pedante de seus colegas. Escreve como toda a gente, naturalmente procurando os efeitos artísticos da arte de escrever, mas escreve sem o ‘Elucidário’ de Viterbo e o Bluteau, nas mãos, e — que concubinato! — sem ter diante dos olhos o redundante padre Vieira e o enfático Herculano.»  (247) 

— IX — «A literatura é de alguma forma um meio de nos revelar uns aos outros; se não é o seu principal destino, é uma das suas funções normais » (p.329).

OBSERVAÇÃO: Deixei de incluir aqui trechos da Conferência de 1921, porque esta merece leitura integral.

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19. Chamada - LB Impressões Leitura

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