P’ – Seja preciso no que escreve

— I — A décima “regra para a vida”

“Seja preciso no que escreve” será mais do que uma dica de redação, será uma coleção de pequenos estudos, citações seguidas de análises, sempre voltadas à escolha das palavras do escritor.

O título é uma paráfrase da 10ª das “12 Regras para a Vida” de Jordan Peterson: “Seja preciso no que diz”. Seguem dois trechos: 

“Se falarmos com cuidado e precisão, somos capazes de compreender as coisas, colocá-las em seu devido lugar, estabelecer um novo objetivo e superá-las — normalmente de forma comunal, se negociarmos, se chegarmos a um consenso.” (p. 289)

“A precisão especifica. Quando algo terrível acontece, é a precisão que distingue aquela única coisa terrível que realmente aconteceu de todas as outras, igualmente terríveis, que poderiam ter acontecido — mas não aconteceram” (pp. 290-291).

Peterson defende também a importância de aprendermos a escrever melhor e mais eficientemente. Seu “Essay Writing Guide” sugere alguns processos de trabalho para a escrita acadêmica e contém alguns parágrafos sobre a importância de saber escrever. Cito:

“Those who can think and communicate are simply more powerful than those who cannot, and powerful in the good way, the way that means “able to do a wide range of things competently and efficiently.” Furthermore, the further up the ladder of competence you climb, with your well-formulated thoughts, the more important thinking and communicating become. At the very top of the most complex hierarchies (law, medicine, academia, business, theology, politics) nothing is more necessary and valuable. If you can think and communicate, you can also defend yourself, and your friends and family, when that becomes necessary, and it will become necessary at various points in your life.”

Alguns vídeos seus no YouTube também expõem de forma breve didática a importância da escrita (como este aqui).

Para Peterson, a comunicação, sobretudo escrita, oferece grande vantagem a quem consegue dominá-la. Quanto melhor o manejo da expressão escrita, melhor o pensamento; quem escreve e pensa bem, ganha mais condições de atingir seus objetivos e de proporcionar uma vida melhor para si e para os seus. Compreender e expressar adequadamente o mundo proporcionam, ainda, a chance de reduzir a angústia diante de situações difíceis e anormais.

— II — Três níveis de precisão

É preciso ser preciso no definir “o seja preciso” de nosso título, porque há ao menos três níveis de precisão que concorrem para a produção de um bom texto.

1) Primeiro, ser “preciso” é simplesmente ser correto — escrever dentro das regras gramaticais aplicáveis ao meio em que o texto será recebido, não cometer erros capazes de fazer com que suas idéias sejam rejeitadas in limine, em consequência desta escusabilíssima simplificação: “uma pessoa que comete tais solecismos não pode ter pensamentos que valham meu tempo!”. Isso se aplica à redação de um artigo científico, mas também à apresentação de um currículo profissional, na hora de pleitear vaga em uma empresa.

2) Segundo, ser “preciso” é ser suficientemente conceitual e técnico — usar palavras corretas no sentido apropriado, evitar o uso de expressões gerais onde cabem vocábulos específicos, deixar sempre claro o assunto do texto e suas partes, permitir que o leitor veja a trilha que está sendo seguida. Se o primeiro sentido de “preciso” é alcançado pela consulta a uma gramática, o segundo vem pelo dicionário e pelo estudo do assunto tratado.

3) Terceiro, ser “preciso” é ser eficaz em suas escolhas — organizar as palavras de modo que produzam no leitor os efeitos desejados, já pela argumentação, já por vias emocionais e imaginativas. A “precisão” nesse sentido tem que ver com pragmática discursiva, com Retórica e Poética, sempre juntas mas aplicadas em diferentes proporções, conforme o gênero literário do texto e o tipo de público. Aqui não bastam gramática e dicionário, é preciso mergulhar nas obras de bons ficcionistas, bons ensaístas e bons oradores — sobraçando dicionário e gramática, é claro, mas para estabelecer entre estes e aquelas uma espécie de simbiose, de enriquecimento mútuo. (V. o post “Sobre literatura, gramática e escrita”.)

— III — Esta série de estudos

Jordan Peterson não parece, como escritor, ter pleno domínio do “terceiro nível” apresentado acima, embora suas palavras revistam-se de boa precisão conceitual, e sua oratória e capacidade persuasiva estejam atestadas pelo grande afluxo de espectadores a suas palestras ao redor do mundo.  

Neste ponto, nossos estudos apartam-se da 10ª Regra para a Vida, que ajudou a dar-lhes nome. O foco desta série será a atuação do “terceiro nível” na escrita; estudaremos as escolhas dos autores e seus efeitos precipuamente estilísticos, muito mais que a correção gramatical e a exatidão terminológica.

Nosso objetivo é demonstrar que a “precisão” na escrita desce até o nível da palavra, e não apenas da palavra com o mais exato significado, mas da mais adequada. Adequada ao conjunto de termos da frase, de um lado, e de outro ao efeito que se almeja produzir no leitor, à resposta psicológica e à imagem buscadas, aos sentidos profundos do texto.

Textos da série “Seja preciso no que escreve”

I. Os cristais de Cervantes

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