NMA – “Ensino do Vernáculo”, artigo de Napoleão Mendes de Almeida

O artigo a seguir foi extraído do Dicionário de Questões Vernáculas, de Napoleão Mendes de Almeida. As notas, no entanto, são todas de nossa autoria. Algumas contêm simples remissões à Gramática Metódica (GMLP) ou ao referido Dicionário (D. QVs); outras são perguntas, cuja resposta o leitor encontrará nos parágrafos ou verbetes indicados; outras, ainda, comentários de ordem estilística. A ortografia adotada é a original, anterior ao acordo de 1990/2008.

T.E.L.G., outubro de 2020

NMA

Napoleão Mendes de Almeida

1911–1998

Ensino do Vernáculo

Dos reverendíssimos[1] frades franciscanos do seminário de Agudos, SP, em vésperas de importante congresso de todos os professores das matérias lecionadas nas casas de formação da Ordem, tivemos a honra de receber uma consulta sobre assunto que está a exigir[2] cada vez mais atenção de todos os que amam nossa grande pátria; aqui as perguntas e as respostas:

  1. Está o senhor professor satisfeito com o número de aulas exigido por lei para o ensino de português?

— Qualquer brasileiro bem formado sabe que deve ser diário o ensino da gramática da nossa língua, não somente desde os primeiros anos de alfabetização senão[3] até o fim do curso médio, onde muitos professores confundem ensino de idioma com ensino de literatura, ensino de língua com ensino de lingüística; sabe, outrossim[4], que é difícil conseguir eficiência de ensino em turmas de trinta, de quarenta, quando não de cinqüenta alunos.

Jamais nos esqueçamos de que muitos países há com sete horas diárias de curso primário — de duração de sete ou oito anos — e com OITO horas por semana de GRAMÁTICA no secundário, de duração de quatro ou cinco anos. O ensino da gramática exige muita assistência didática e, principalmente, a justificação da correção dos erros dos alunos; isto demanda muito tempo do professor em casa e dos alunos em aula, mas ensino de idioma não existe sem redação, correção dos erros e justificação das correções.

  1. Na opinião do senhor professor, é realmente satisfatória a seriação dos pontos da matéria?

— Durante os anos que[5] lecionamos português em estabelecimentos de ensino nunca nos prendemos[6] a programas; estes, embora oficiais, são sempre pessoais e estão sempre a mudar. O verdadeiro programa é o que supre as necessidades dos alunos, cujo nível cultural e capacidade de aprendizado variam de classe para classe, de turma para turma, de região para região. Sempre julgamos deverem os alunos prestar[7] exames finais da matéria e não exames anuais, nem, muito menos, provas mensais que só logram diminuir ainda mais o tempo de ensino.

Em geral, em toda e qualquer disciplina, a decadência do ensino começou no dia em que os ginásios particulares foram oficializados. Ginásios e colégios deveria haver[8] oficiais e também particulares[9], livres e não oficializados; um estabelecimento de ensino, enquanto particular e livre, é realmente uma casa de ensino, com professores de personalidade e responsabilidade didáticas, de competência comprovada pelo índice de aprovações conseguido pelos alunos perante bancas oficiais e estranhas, como tivemos até a revolução de 1930; uma vez oficializados, transformaram-se muitos deles em barracas de feira, em casas de comércio, com caixeiros em vez de professores.

  1. Deverá o estudo da literatura ser feito quase totalmente à mão dos escritos literários ou contentar-se com ensino mais teórico?

— Como vem sendo feito e exigido, o estudo da literatura, tanto portuguesa quanto brasileira, é meramente histórico, memorativo. De nada interessa ao idioma saber que em tal época existiu tal indivíduo, desta ou daquela cor, com esta ou aquela profissão, que vestia esta ou aquela roupa, que tinha ou não dois olhos, que era ou não político ou de algum aglomerado associativo. Dispersivo e inútil para a formação gramatical, este estudo[10] traz efeito contrário: em vez de[11] apreciar a produção, no seu teor e forma, vai o aluno considerar o indivíduo, o que só interessa à história, ou o assunto de suas obras, que não interessa ao idioma. A história da literatura seria matéria para os anos de faculdade, quando então se estudariam as escolas, os representantes e as obras por eles produzidas.

A verdade é que estudar literatura não é estudar português nem língua nenhuma; pode alguém conhecer a literatura chinesa sem conhecer uma palavra de chinês. Pode alguém conhecer muito bem a literatura portuguesa sem conhecer a gramática portuguesa, o que não raro acontece[12].

  1. Qual a significação que o senhor professor dá aos exercícios escritos?

— A fixação das regras de gramática, a independência e a personalidade de estudo só pelos exercícios escritos são trazidas, com tal que[13] o professor lhes explore todos os erros juntamente com o aluno. Trabalhos escritos sem correção, correções sem explicação de nada adiantam.

  1. Além dos trabalhos escolares, que aconselharia o senhor professor como atividade extra-escolar para o português?

— Tratando-se de alunos externos, o cuidado maior é de abstenção mais do que de ação. Fazer com que o aluno, fora da classe, fuja da futilidade mundana, da Informação (imprensa, rádio, televisão) frívola quando não malévola, deve ser a preocupação do verdadeiro mestre, principalmente do de português. Nem livros, nem revistas, nem folhetos, nem publicação alguma deve o aluno ler — a não ser nas férias — que não digam respeito aos estudos. Ao aluno que estuda e tem bons professores não sobra tempo para trabalhos e preocupações além dos escolares.

  1. Terá o senhor professor alguma experiência toda especial do ensino de português que nos possa comunicar?

— Quem se der ao trabalho de confrontar os diversos programas oficiais, de alçada já municipal, já estadual, já federal[14], notará a disparidade de orientação didática, pedagógica e psicológica de seus organizadores.

Ao lado desse desconcerto didático, encontramos este estarrecedor princípio, exarado em portaria oficial de um diretor estadual de ensino: “O estudo da gramática só deve iniciar-se na terceira série ginasial” (Na reforma, 7ª série do 1º ciclo[15]).

É verdade que é difícil saber o que é elementar, o que é médio, o que é superior, mas dizer que a gramática só em tal série se ensina é defender o analfabetismo, é negar o progresso de nossa gente, é menosprezar nossos alunos e seus pais, é fazer a apologia da educação física e dos trabalhos manuais, quando não do hipismo. O que realmente sabemos é que, mesmo com programa de gramática desde a primeira série, há muito aluno da última série do segundo grau que não sabe o que é objeto direto, que não sabe sequer consultar um dicionário[16]. A linguagem se desenvolve normalmente no ser humano, e não será um doutrinador quem virá estatuir que o estudo da gramática tem o quilômetro zero em determinada série e que antes desse marco o indivíduo deve errar e vagabundear a vontade[17]. Não existe na vida de um indivíduo um dia fixo em que deva passar de assistente a ator, nem outro em que deva passar de ator a crítico; se não temos confiança na capacidade nossa, tenhamo-la[18] na de nossos alunos. O “Não me amole, vá brincar” de muitos pais é intolerável em quem se diz professor.

Avesso, para fins didáticos, à ferrenha divisão da gramática em lexeologia e sintaxe — divisão justificável e necessária em tratados completos — sempre iniciamos cursos orais para principiantes com a fundamental noção de predicação verbal, procurando, lição a lição, preparar o aluno para a seguinte, fugindo sempre de dar-lhe matéria sem que ele saiba o porquê, o alcance do que está a estudar. As lições devem seguir-se[19] num entrosamento que possibilite e, principalmente, provoque a atenção para a lição seguinte. Nossa “Gramática Elementar” faz eco ao que ficou exposto. Como ensinar “crase” a quem não sabe o que é complemento, o que é artigo, o que é proposição e o que é objeto indireto?

O texto deve trazer exercícios além de questionários, e as aulas devem ser dadas através do texto[20]. Professor que dá aula de gramática sem texto não é professor, por mais respeitáveis e reconhecidos sejam os seus conhecimentos lingüísticos. O professor que fizer com que uma classe, aluno por aluno, leia e demonstre ter compreendido parágrafo por parágrafo, exemplo por exemplo de uma lição, terá mais prazer do que trabalho em dar aula; dela sairão seus pupilos já sabendo a lição e já podendo fazer a inteiro contento os exercícios, muitos dos quais poderão ser corrigidos na própria sala de aula. Por outro lado, o aluno diligente poderá através das perguntas do questionário tomar em casa a lição de si próprio[21] ao terminar de estudá-la.

Não nos esqueçamos, porém, de que o professor é guia do aluno; aí está o seu trabalho supletivo do texto; como guia, a ação diverge de aluno para aluno, de classe para classe, de série para série, de período para período, de região para região.[22]

  1. Como ensinar o aluno a ser jornalista, escritor ou pesquisador mais tarde?

— Para nós, jornalista é o repórter, o apreciador de fatos do momento, o relator — como a palavra está a indicar — do dia-a-dia; deve ele, antes de mais nada, conhecer o fato que pretende comunicar ao leitor; quando o assunto for técnico, especializado e geral (político, social, artístico, religioso, agrícola, turístico…), escrever, simplesmente, para jornal, não é ser jornalista, mas sim colaborador, que pode redigir e publicar os trabalhos onde lhe aprouver[23].

Escritor é o que tem forma e conteúdo; aquela terá quem conhecer o idioma; este, quem tiver erudição e, principalmente, cultura. Se somente a forma, temos o frívolo; se somente o conteúdo, temos o técnico; se as duas coisas, temos o escritor; se nenhuma delas, teremos o… modernista.[24]

O desânimo com o que se passa hoje nos cursos secundários (os vestibulares e os concursos aí estão a provar a contínua decadência do ensino) não constitui novidade a nenhum brasileiro, nem aos próprios professores; do descalabro é único culpado o oficialismo, ou melhor, a oficialização dos estabelecimentos particulares. Essa é que foi[25] a semente da erva daninha que vimos crescer; o comercialismo e a conseqüente degradação do ensino teve nessa oficialização suas únicas raízes; o professor, reduzido a papel de balconista, vê-se obrigado a vender a mercadoria de acordo com a vontade do patrão… e o freguês sai sempre satisfeito.

Dedicado exclusivamente ao ensino particular, não participante de nenhum[26] movimento nem oficial, nem político, muito admirávamos[27] a cegueira de nossos homens públicos no tocante à instrução; grande é o alento que agora sentimos com ver que homens dedicados ao ensino ativo, ao magistério consciente, resolveram abanar a cinza que vinha abafando a inteligência de nossos alunos, sufocando-a desde os primeiros anos de estudo com matérias impertinentes à instrução e impedindo-lhes o verdadeiro caminho da cultura. É possível que vejamos realizado no Brasil o que em todos os países civilizados é tradição de séculos — o ensino diário do idioma pátrio em todo o curso médio, mas estudo do idioma e não leitura, ou melhor, imposição de idéias de autores suspeitos e desconhecedores de nossa gramática.

É realmente vergonhoso o exercício deletério da profissão, o explicar a cátedra para extirpar do aluno um possível amor à disciplina que leciona, o tirar[28] do estudante todo e qualquer incentivo que o distinga dos colegas relapsos, dos patrícios ociosos, dos concidadãos inúteis[29] para a cultura.

É o que está acontecendo. Professores de português, cada vez em maior número, estão aparecendo que não lecionam português: confundem história com gramática, misturam linguagem com língua, empastelam língüística com idioma. Não somente isso; se não declaram formalmente aos seus alunos “gramática é bobagem”, dizem-no com o seu procedimento. Se não, vejamos o que no prefácio de um livro diz um professor de “português”, conhecido em todo o Brasil, pois ele é um dos traficantes de regras de acentuação e engendrador de nomes técnicos de gramática:

…considerações ainda presas ao formalismo gramatical, hoje em franco declínio. A colocação dos pronomes pessoais oblíquos perdeu aquele rigorismo que a ligava à sintaxe lusitana, pois o problema é de fonética e não de sintaxe. O brasileiro coloca o pronome de acordo com a cadência da língua por ele falada e esta cadência não é igual à dos lusitanos. Os escritores de vanguarda há muito tempo colocaram a questão nos devidos termos.

Continua o iconoclasta, que chegou a candidatar-se a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras: “Ter por haver[30] tem a consagração de um dos nossos maiores poetas, … — “Tinha uma pedra no meios do caminho” (As reticências estão no lugar do nome de um dos escritores julgados “de vanguarda”, por explicável coincidência um dos mais encontrados em modernos livros de leitura que se intitulam “livros de português”, “português através dos textos”, “português dirigido”).

Vai mais além o destruidor de nossa gramática: “A preposição ‘em’ com verbos de movimento[31] concorda com o dinamismo da nossa época. O avião a jato acabou com as distâncias. Quem chega já se julga no lugar. Troca a circunstâncias de lugar para onde pela de lugar onde”.

Trinta anos antes dos jatos já assim pensava o empreitado prefaciador, mas isso ele não diz à autora do livro, a quem dá a seguir esta amorfa orientação sintática: “A concordância com o sujeito coletivo é uma silepse de caráter individual”.

Mal dos tempos? Cansaço? Nada disso; mera leviandade, que sempre encontrou e encontrará apoio entre os relapsos, entre os comodistas, entre os folgazões do magistério do idioma pátrio. E o professor de português que chegou até aqui não é nem folgazão, nem comodista, nem relapso[32], pois tais professores não lêem quem quer que julgue ser a língua a mais viva expressão da nacionalidade, quem quer que esteja convencido de que saber escrever a própria língua faz parte dos deveres cívicos.

Tão descrentes estávamos de nossos ministros de educação — um houve que suprimiu uma das quatro minguadas aulas semanais de português de uma série para substituí-la por outra de desenho — e de nossos deputados e senadores, que sempre nos pareceu utopia vir um aluno de curso médio a ter aulas diárias de gramática portuguesa. Tentaremos, porém[33], com certo esforço, ter esperanças. Se existe uma Providência no mundo, esta deve fazer sentir-se também no Brasil.

Encontra-se no cabeçalho de folheto que é dado a todo o visitante do American Museum of Natural History de Nova Iorque: “Em dias de aula nas escolas públicas da cidade, o Museu e o Planetário não admitem pessoa com menos de 18 anos antes de duas da tarde a não ser acompanhada de um adulto”. (On days when City Public Schools are in session, the Museum and the Planetarium do not admit person under 18 before 2 p.m. unless with an adult.) Sem dúvida, lugar de menor de 18 anos nos EE. UU. é na escola.

Preparação: L.M.G.R. e T.E.L.G.

Notas: T.E.L.G.

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[1] Reverendíssimos: GMLP, §315.

[2] Está a exigir: GMLP, §517.

[3] Não somente… senão:

(A) Pode-se substituir esse “senão” por “mas também”? GMLP, §572, nota de rodapé 4, “b”. D. QVs, “senão, se não”; “senão que”.

(B) Das construções de NMA, neste e em outros artigos, depreende-se que é facultativo o emprego da vírgula antes deste tipo de “senão”.

[4] Outrossim: É conjunção ou advérbio? Note que não carrega idéia concessiva ou adversativa. GMLP, §575, nota de rodapé 6. D. QVs, “outrossim”.

[5] Durante os anos que: D. QVs, “no tempo que”.

[6] Lecionamos… nos prendemos: GMLP, §769, 1, nota “b” (v. tb. §342). D. QVs, “plural majestático”.

[7] Julgamos deverem os alunos prestar: Como se justifica a flexão do infinitivo “deverem” e a não flexão do infinitivo “prestar”? GMLP, §918, 1; §924. D. QVs, “infinitivo pessoal”, “B”, 1; “I”. (OBS: baixe GRÁTIS nosso Resumo Completo sobre este assunto tão empolgante quanto espinhoso.)

[8] Deveria haver: Por que aqui não se pode dizer “deveriam haver”? GMLP, §487 (v. tb. §484, 2).

[9] E também particulares: Alguns leitores atentos terão percebido que o processador de textos Microsoft Word sugere quase sempre eliminar uma das duas palavras, pois para o programa a expressão seria redundante. Quem fizer o teste verá que neste trecho do professor Napoleão, cortar uma ou outra resultaria em prejuízos à força argumentativa, ao ritmo e ao estilo. Este exemplo abona a construção, e nos dá a oportunidade de indagar:

(A) As palavras “e” e “também” são equivalentes? Pertencem à mesma classe? — V. GMLP, §527 e §571, 1.

(B) É possível dizer o mesmo da construção “e nem”? — V. GMLP, § 571, 2, “a”. D. QVs, “e nem”.

[10] Este estudo: Se o demonstrativo refere-se a idéia antecedente, pode o estudante explicar por que se não empregou o pronome anafórico “esse”? V. GMLP, §341, nota 3. D. QVs, “este, esse, aquele”.

[11] Em vez de: GMLP, §84, nota 2. D. QVs, “ao invés de”. Neste período o próprio “ou” utilizado mais adiante mostra que é mesmo o caso de “em vez”, não de “ao invés”.

[12] O que não raro acontece: Por qual expressão poder-se-ia substituir este “o que”? A relação entre este período e o anterior é de dependência? V. GMLP, §562. D. QVs, “o que”.

[13] Com tal que: Sabe classificar essa locução conjuntiva? V. GMLP, §585.

[14] Já municipal, já estadual, já federal: GMLP, §573, n. r. 3. Sublinhe-se ademais este lance de estilo: a construção alternativa, tripartite, é marcada não só pelo sonoro “já”, como pela terminação de todos os adjetivos em “-al”; a quantidade é novamente explorada adiante, com três adjetivos proparoxítonos (didática etc.). Há entre essas duas partes do período uma analogia quantitativa (tripartição), facilitada por fatores sintáticos, fonéticos e prosódicos.

[15] A “terceira série” ginasial passou a ser “sétima série” do ensino fundamental, e mais recentemente transformou-se no “oitavo ano” do fundamental.

[16] Que não sabe sequer consultar dicionário: Que se pode dizer destoutra construção: “Que sequer sabe consultar dicionário”? V. GMLP, §530, n. r. 12. D. QVs, “sequer”.

[17] A vontade: Não seria obrigatório o sinal indicativo de crase (à) nesta locução? GMLP, §118, nota 2; v. tb. §535.

[18] Tenhamo-la (Exercício): Conjugue esse verbo no presente e no perfeito do indicativo, com o pronome “a” sempre enclítico: tenho-a, tem-la etc. (V. GMLP, §825).

[19] As lições devem seguir-se: GMLP, §850.

[20] Através do texto: D. QVs, “através de”.

[21] Próprio: GMLP, §340, “B”; §341, 1, nota.

[22] Nos três últimos parágrafos é notável a recorrência da repetição como instrumento retórico. “Lição a lição”, “aluno por aluno”, “parágrafo por parágrafo”, “exemplo por exemplo”… tais repetições não são apenas uma forma de ênfase, mas encarnam o sentido mais amplo do texto. Comunicam a idéia de um trabalho lento, disciplinado e constante, como numa caminhada: o passo a passo do aluno, repetindo e avançando, num progresso sólido e contínuo, duro e gratificante.

[23] Aprouver: Sabe conjugar este verbo? Dizer se tem conjugação completa? Se é regular ou irregular? GMLP, §463, 7. D. QVs, “aprazer”.

[24] Parágrafo memorável, digno de análise e assimilação. Além da limpidez e mordacidade com que expressa as combinações possíveis entre forma e conteúdo, o professor emprega, e com isso nos ensina, diversos modos de evitar a repetição de palavras:

(A) os pronomes demonstrativos “aquela” e “este” — GMLP, §341, nota 1;

(B) os zeugmas “este, [terá] quem…”, “se somente [tiver] a forma…” — GMLP, §783;

(C) a construção “as duas coisas”, em vez de repetir “forma e conteúdo”;

(D) o pronome “elas”, em vez de repetir “as duas coisas”.

Quem domina ferramentas como a elipse e a anáfora, escreve com mais força e beleza.

[25] Essa é que foi: GMLP, §784, nota 5 (v. tb. §786, “b” e §794). D. QVs, “é que”.

[26] Não participante de nenhum: Pode-se trocar este “nenhum” por “qualquer”? GMLP, §361, nota 1. D. QVs, “qualquer e nenhum” e “jamais houve nenhum”.

[27] Admirávamos: A divergência de número não causará espanto a quem estudou este caso de concordância figurada, também chamada silepse, conforme remissão anterior neste mesmo artigo: GMLP, §769, 1, nota “b” (v. tb. §342). D. QVs, “plural majestático”.

[28] O tirar: “Tirar” é forma modal ou nominal do verbo? Por que podemos dizer que este está substantivado? É possível pluralizar infinitivos substantivados? Cite exemplos. GMLP, §414; §244, “A”, 7; §915; §231, 5.

[29] Inúteis: De que palavra é “inúteis” plural? E “cantis” é plural de quê? Donde vem essa dupla forma de flexionar numericamente palavras cuja sílaba final, no singular, é idêntica? GMLP, §221, “a” e “b”.

[30] ‘Ter’ por ‘haver’: GMLP, §431.

[31] A preposição ‘em’ com verbos de movimento: GMLP, §546, nota 4, “a”.

[32] Nem folgazão, nem comodista, nem relapso: preste atenção o leitor à disposição dos três adjetivos, nesta e na frase anterior. Neste passo o autor demonstra ter assimilado esta construção de Rui Barbosa, citada em outros artigos do professor Napoleão: “Sendo a língua o veículo das idéias, quando não for bebida na veia mais limpa, mais cristalina, mais estreme, não verterá estreme, cristalino, límpido o pensamento de quem a utiliza” (v. D. QVs, “língua brasileira?”). Lembre-se: Parte central do trabalho do estilo está em colecionar as frases dos grandes autores e tentar imitá-las.

[33] Porém: GMLP, §572, nota 2; §956.

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