NMA – “Vergonha!”, artigo de Napoleão Mendes de Almeida

O artigo a seguir foi extraído do Dicionário de Questões Vernáculas, de Napoleão Mendes de Almeida. As notas, no entanto, são todas de nossa autoria. Algumas contêm simples remissões à Gramática Metódica (GMLP) ou ao referido Dicionário (D. QVs); outras são perguntas, cuja resposta o leitor encontrará nos parágrafos ou verbetes indicados; outras, ainda, comentários de ordem estilística. A ortografia adotada é a original, anterior ao acordo de 1990/2008.

T.E.L.G., dezembro de 2020

NMA
Napoleão Mendes de Almeida 1911–1998

Vergonha!

            Um aluno de nossa universidade diz ter visto a seguinte legenda no pedestal de um busto oferecido a personalidade de São Paulo: “Os professores diplomados e alunos da Universidade de São Paulo à Fulano[1] de Tal”.

            Onde a luz[2] que deve partir de centros de cultura? Terão os professores de português de colocar na sacola a violinha em que[3] dedilham as regras da gramática e deixar[4] ao acaso não somente a sintaxe mas a própria morfologia portuguesa?

            É com pesar que vemos com certa freqüência nos postigos de repartições públicas avisos corrigidos pelos próprios populares; num é uma vírgula que falta, noutro[5] é uma vírgula que sobeja, neste é um substantivo composto erradamente flexionado, naquele é um solecismo de eriçar pêlos e cabelos.

            Se em tabuletas, avisos, circulares, comunicados oficiais e até em decretos nosso idioma se apresenta esfarrapado, como exigir do povo seu estudo? Não constituímos uma colônia onde os dominadores desconhecem a língua dos nativos; qual então a razão desses disparates? E não se diga que são erros de imprensa; erros de palmatória é que são.


[1] À Fulano: Explique por que está errada a crase. GMLP, §§116-118. D.QVs, “crase”.

[2] Onde a luz…?: Que figura de sintaxe é empregada aqui? GMLP, §782, “B”.

[3] Violinha em que: Este “que” é conjunção integrante ou pronome relativo? Que função exerce em relação ao verbo “dedilhar”: sujeito, objeto direto ou objeto indireto? Por que a preposição “em”? GMLP, §377.

[4] Terão os professores de português de colocar… e deixar: Justifique a não flexão dos infinitivos. As normas que regulam a pessoalização do infinitivo encontram-se detalhadas neste e-book de nossa autoria, e também na GMLP, §§915-930.

[5] Noutro: Desdobre esta palavra nas duas que a compõem, e diga a classe de cada uma. GMLP, §548 e §356.

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