O trecho a seguir foi extraído da Gramática Metódica da Língua Portuguesa, de Napoleão Mendes de Almeida. As notas, no entanto, são todas de nossa autoria. Algumas contêm simples remissões à Gramática Metódica (GMLP) ou ao referido Dicionário (D. QVs); outras são perguntas, cuja resposta o leitor encontrará nos parágrafos ou verbetes indicados; outras, ainda, comentários de ordem estilística. A ortografia adotada é a original, anterior ao acordo de 1990/2008.
T.E.L.G., dezembro de 2020

Estilo, literatura e o belo*
*GMLP, §§980-982 — início do Capítulo LXVI – Apêndice Literário.
— ESTILO: O estudo da gramática não passa de munição para um combate; quanto maior for o nosso conhecimento de gramática, tanto mais munidos nos encontraremos para a luta. Não basta estar apercebido[1] de abundantes e valiosos petrechos, conhecer cabalmente o funcionamento das armas: é preciso servir-se delas. Se a gramática estuda as palavras e a sua combinação para a expressão correta do pensamento, a estilística mira a beleza. Se a gramática tende a fixar-se em moldes uniformes de expressão, a estilística, isto é, o estudo do estilo, não tolhe a liberdade ao gênio nas combinações estéticas da palavra. Se aquela é geral, esta é individual. Estilo é, pois, a maneira peculiar, individual, de expressar cada escritor os seus pensamentos.
— LITERATURA: Em sentido lato, a palavra literatura pode indicar:
a) A enumeração de escritores e de obras de um ou mais países, classificando-os de acordo com a época em que viveram, de acordo com as tendências gerais da sua produção. Constitui esse um estudo histórico e não propriamente lingüístico; não é com estudar literatura portuguesa ou brasileira ou angolense que um indivíduo aprende a língua portuguesa[2]; não é com saber onde, como, com quem viveram os escritores de um país e que obras escreveram que se aprende a gramática do idioma desse país.
b) O conceito, as definições, a divisão, a classificação das composições literárias, a crítica e a análise dos gêneros literários, as figuras, a malícia, a técnica da redação.
c) A bibliografia, ou seja, o conjunto de livros, a coleção de obras sobre um assunto qualquer; tal é o sentido da palavra literatura nas expressões “literatura policial”, “literatura bélica”, “literatura botânica”, “literatura pitórica”, “literatura médica”, “literatura jurídica etc.
Em sentido estrito, literatura é sinônimo de arte literária; se à maneira de expressar um indivíduo os seus pensamentos se dá o nome estilo, à arte de expressar o Belo mediante a palavra final, falada ou escrita, dá-se o nome literatura.
— BELO: Belo é o que, uma vez conhecido, agrada já pelo esplendor de sua grandeza, já pelo de sua ordem. Ora[3], para que algo assim agrade, é necessário:
a) Integridade, visto ser disforme e não belo aquilo a que falta alguma de suas partes ou de suas perfeições.
b) Harmonia, isto é, proporção das partes entre si e delas com o todo, visto não haver agrado no que é desproporcional. Não é belo o rosto cujo nariz, muito embora perfeito em si, é desproporcional com as outras partes do rosto.
c) Claridade, visto não poder parecer-nos belo o objeto desacompanhado de cores harmonicamente distribuídas numa luz suficiente.
Observação: Quando se fala em Belo como expressão artística não se tem em mente o antônimo de feio, senão a clara, harmônica e íntegra objetivação do que se pretende manifestar, pois também o feio, o feíssimo[4] pode ser objeto de manifestação. Na literatura concorrem para o cumprimento desses fatores do Belo as frases curtas, o emprego de palavras apropriadas, a simplicidade, ou seja, a fuga ao preciosismo; o emprego de palavras elevadas, ou melhor, fuga à trivialidade, pois há vocábulos e expressões que, embora tolerados na conversa, destoam num trabalho escrito; por fim, evitar o emprego repetido dos mesmos termos, dos mesmos torneios, procurando, ao invés, fazer uso variado das figuras sintáticas. A leitura exclusiva de bons escritores deve servir-nos de alimento para o nosso trabalho[5] literário.
Afinal, que é escrever bem, que é redigir? Redigir é, em primeiro lugar, conhecer o idioma em que se escreve; em segundo, sentir, conhecer, dominar o assunto sobre que se escreve.
Esses são os dois pilares em que se assenta qualquer obra literária, seja qual for o gênero. Para a consecução do primeiro, a gramática e o vocabulário do idioma escolhido; para a consecução do segundo, a educação, ou seja, a formação, a experiência são elementos necessários. Somente firmada nessas duas colunas é que existe redação.
ANEXO
Fatores de beleza na literatura, conforme o primeiro parágrafo da “observação” acima:
— Frases curtas;
— Emprego de palavras apropriadas;
— Simplicidade (fuga ao preciosismo);
— Emprego de palavras elevadas (fuga à trivialidade);
— Uso variado das figuras sintáticas (evitar repetir termos e torneios).
— Recomendação final: A leitura exclusiva de bons escritores deve servir-nos de alimento para o nosso trabalho literário.
[1] Apercebido: D. QVs, “Percebido, apercebido”; “Despercebido, desapercebido”.
[2] Não é com estudar literatura… que um indivíduo aprende a língua portuguesa: Este argumento aparece também no item 3 do artigo “Ensino do Vernáculo”.
[3] Ora: Esta palavra não deve, em nenhum caso, ser confundida com o substantivo “hora”.
(A) Napoleão Mendes de Almeida classificaria o “ora” desta frase como conjunção explicativa (GMLP, §575, n. r. 4). Se fosse seguida de ponto de exclamação, caberia classificá-lo como interjeição.
(B) A construção “ora … ora…” é alternativa. Veja-se este exemplo tirado de Herculano: “Ora carregando o sobrolho, ora deslisando as rugas da fronte, repreendia ou aprovava com eloquência muda” (em Lendas e Narrativas). GMLP, §573, n. r. 3. D. QVs, “ora… ora..”.
(C) A palavra “ora” tem ainda, em outras construções, valor adverbial. Trazemos excerto de Machado de Assis: “Trago-te flores, restos arrancados / da terra que nos viu passar unidos, e ora mortos nos deixa e separados” (Soneto “A Carolina”). GMLP, §526, n. r. 1.
[4] Feíssimo: Que flexão é esta? Que diz das formas “feiíssimo” e “maciíssimo”? Flexione no mesmo grau estes outros adjetivos: alheio, cheio, frio, pio, fiel, cruel. GMLP, §273, exceções 1 e 4; §274. D. QVs, “feíssimo”.
[5] Para o nosso trabalho: Há diferença de pureza gramatical entre “para o nosso trabalho” e “para nosso trabalho”? GMLP, §244, “B”, 4, nota. D. QVs, “o meu cavalo branco”.
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