NMA – “Topologia Pronominal”, artigo de Napoleão Mendes de Almeida

NMA

Napoleão Mendes de Almeida (1911–1998)

TOPOLOGIA PRONOMINAL

A posição dos nossos pronomes oblíquos foi sempre causa de muito encontrão e tropeço, pois vem o oblíquo de uma mesma construção e de um mesmo autor ora enclítica, ora procliticamente colocado. Dos encontrões Rui Barbosa tinha na sua mesa de trabalho gavetas repletas de fichas, fichas que lhe valeram a imortalidade da Réplica. Dos tropeços qualquer atento deve ter exemplos como este de quem viu erro na redação:

      • ««O grande conquistador quis honrar o gênio dos sábios, não chamando-os apenas aos lugares honoríficos e rendosos do império, senão ao maior e mais trabalhoso ofício do estado»».

Nada que ver tem o “não” com o regime de “chamando”; há aí uma inversão, a qual se evidencia nestoutra colocação: “… chamando-os não apenas aos lugares…, senão ao maior e mais…”.

Estes exemplos de Herculano elucidam o tropeço:

      • ««…mas só aqueles que, pagando tributos, e não desfrutando-os, viverem no meio de vós…»»
      • ««…concedera aqueles terrenos dentro dos seus termos, não desmembrando-os, mas incluindo no grêmio municipal os nobres colonos»».

Observe o leitor, ao reler esses dois exemplos de Herculano, que foi feita uma pausa após o “não”; a negação separa-se do verbo, e eufonicamente o oblíquo se pospõe. A pausa e a posposição do oblíquo tornam claro o sentido:

      • ««Ao magistrado cumpre nos casos correntes julgar por essas leis, e não meter-se a apreciá-los e decidi-los»»;
      • ««A liberdade pode rasgar-se do evangelho; não separar-se dele»»;
      • ««A vontade d’el-rei é pagar ódios, e não satisfazê-los»».

O tropeço está em não ver o leitor, nesses passos, que verbo e regime pronominal formam um todo; o oblíquo está dependurado no verbo como dependurado fica sempre ao verbo no início de uma oração.

“Virei buscá-lo”, “virei te buscar”. Por que essa disparidade de topologia pronominal? Não é válido alegar eufonia. Eufonia é consequência, e não causa de procedimento; o ouvido, quando generalizado o erro, repele o acerto. A coerência de procedimento de colocação dos oblíquos exige o que se impõe para colocar vértebras e espinha no lugar: ginástica, repetição, assiduidade de exercício corretivo. Repetidas dezenas de vezes, as frases “virei buscá-lo”, “virei buscar-te” terão igual efeito eufônico. Se há exercícios de ginástica, por que os não haver de gramática? Educação existe só para “educação física”? Não cabe em “educação linguística”? Em locuções verbais terminadas em infinitivo a posposição do oblíquo não cria o problema do hífen[1].

Quem redige “Ações heróicas como essa se repetem diariamente”, está atirando um “se” sem apoio prosódico nenhum, nem no “essa”, nem no “repetem”; releia a afirmação pospondo o “se” ao verbo e verá que ela se torna eufonicamente agradável, como dois versos de uma redondilha: “Ações heróicas como essas ∥ repetem-se diariamente”. Uma é escrever empurrado pelos ponteiros do relógio, outra é redigir como quem mastiga com a necessária calma para uma boa digestão. Aulas de leitura, de autores clássicos, principalmente no curso secundário, educam o ouvido e trazem naturalidade de boa redação. (A colocação dos pronomes oblíquos é tratada ex professo na Gram. Metódica, §818 e ss.)

FONTE: Napoleão Mendes de Almeida. Dicionário de Questões Vernáculas. “Topologia Pronominal”. São Paulo: Ática. 2001.


[1] “O problema do hífen”: O autor refere-se ao problema de decidir se o oblíquo que caiu entre dois verbos ligar-se-á ao primeiro deles por hífen (enclítico ao v. auxiliar) ou se ficará solto, como que proclítico ao segundo verbo (principal). V. GMLP, §850, nota 5ª.

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