Esta resenha explicará por que chamo o livro de grandalhão e por que digo que foi esmagado. Concluirei atribuindo três estrelas a este “clássico de bolso” da Zahar.
___ 📘 I. GRANDALHÃO ___
É crítica válida dizer que uma obra de ficção “é longa demais”?
Estou certo de que não se pode afirmar isso a respeito da “Ilíada”, nem a respeito das “Ilusões Perdidas”, nem das “Grandes Esperanças”. Mesmo o “Primo Basílio” do Eça, que não é curto, nunca me sugeriu tal julgamento.
Fico mais tranquilo. Não é minha impaciência que prejulga o livro pelo calibre de sua lombada — é minha experiência de leitura que me permite afirmar sobre seu conteúdo: “Os Maias” é longo demais. Tentarei a seguir dar o porquê.
Publicado em 1888 e considerado por alguns a “obra máxima” de Eça de Queirós, o romance conta a história de três varões da família Maia: Afonso da Maia; seu filho Pedro; e o filho deste, Carlos Eduardo.
Pedro e Afonso ficam devidamente caracterizados nas primeiras sessenta páginas. Pela centésima o neto Carlos, protagonista do romance, já cresceu e está pronto para entrar na faculdade.
É aí que começa o erro de Eça: o narrador passa a acompanhar Carlos, mas se mostra, por centenas de páginas, incapaz de tornar sua personalidade viva e presente para o leitor. Temos, entre as páginas 100 e 360, uma sorte de “corpo estranho” na narrativa, um vácuo de significado onde pouco acontece, onde ganha espaço o irrelevante e impera certa ânsia realista de pintar “cenas” da sociedade portuguesa. Isso sem que a personagem de Carlos — ou qualquer outra — forneça um timbre de fundo, um fio da meada, uma unidade que nos permita entender a que servem, afinal, todos os sucessos que Eça desfila diante de nossos olhos.
Psicologia e ação, num sentido mais espesso ou profundo, faltam. É um vácuo de 260 páginas — que poderia ser a extensão de um romance inteiro! —, hiato em que o leitor é levado em banho-maria, quase “embromado”, se não for afronta assim dizê-lo.
Depois desse imenso corpo estranho, finalmente começamos a ver: vemos que Carlos não suporta Dâmaso, que ama certa brasileira, que não se empolga com a Condessa de Gouvarinho… Eça deixa para a segunda metade do romance a revelação de caracteres essenciais à manutenção de nosso interesse, e com isso penso que comete um erro fatal na sua contação de histórias: erro de ritmo e de proporção.
Pior é notar que não erra só dessa vez: repete-se a falha, em menor medida, antes da crise final, antes das cem últimas páginas. Novamente o enredo desbota, novamente as personagens se omitem, novamente a representação irônica da interação entre caricaturas dá o tom da narrativa.
Pode-se enxergar, portanto, um livro composto por três blocos, todos eles com consistência interna, todos inclusive empolgantes, mas largamente apartados por duas massas inúteis de informação. Três novelos, cada qual bem enovelado, ligados uns aos outros por meros fiapos de lã.
Novelos, blocos… e se a boa técnica de romance puder ser comparada a uma brincadeira, eu acrescentarei aqui uma terceira metáfora simplória, para dizer que duas vezes Eça “deixa a peteca cair”, interrompendo o andamento da partida, dispersando o espírito do leitor, tripartindo a história, arrefecendo o jogo.
A “peteca” cai nos momentos em que Eça esquece as personagens para ser caricaturista. Esquece a ação para ser cronista.
Que remédio haveria? Talvez, para manter a peteca do romance no ar, seja preciso que em todas as cenas, essenciais ou acessórias, haja um sentimento de PRESENÇA. A criação da presença parece depender da composição, ao tempo certo, de PESSOAS, personagens vivas, dotadas de inteligência e emoção, capazes de participar ou assistir à ação de modo significativo.
Nada obstante o valor “sociográfico” das cenas, o leitor precisa sentir nelas a potência, ao menos latente, de aqueles acontecimentos repercutirem no futuro das personagens e em seu presente; em sua vida e em sua interioridade. A presença é efeito especialmente de um protagonista humano.
De modo nenhum alegra-me tal imperfeição técnica. Primeiro: porque é brilhante a espinha dorsal do enredo, e o autor concebe lances magistrais ao longo de sua execução — a reviravolta com o retorno de Castro Gomes a Lisboa e a reação do Dâmaso ao desafio de Carlos, por exemplo. Segundo: porque, como como estilista, o Eça de “Os Maias” está em excelente forma; por trás de suas linhas, fica nítido o trabalho dum escritor inventivo e cuidadoso, empenhado em criar efeitos novos, em imprimir força a suas imagens e relevo a suas elocuções. Um escritor cujos processos não são óbvios, mas mostram que existem e que se podem estudar com muito fruto.
Mondados os corpos estranhos, devidamente jungidos os blocos, com mais firmeza retramada a grande rede do romance… — poderíamos assim ter em “Os Maias” um romance magistral, num estilo primoroso. Tal como está não é mau de todo, mas é desengonçado, bolhudo, grandalhão.
___ 📘 II. ESMAGADO___
Esmague agora esse gigante, originalmente publicado em dois volumes, numa edição “de bolso”.
Não deixo de reconhecer o belíssimo acabamento dado pela editora Zahar: capa dura, guardas reproduzindo azulejos portugueses, papel amarelado, encadernação firme… No entanto é preciso admitir que “Os Maias” não nasceu para ser de bolso.
O resultado da compressão foi um livro de 750 páginas, com letra pequena, margens estreitas e recuos de parágrafo quase inexistentes. Mesmo o padrão “bolso” da coleção Clássicos Zahar sendo um pouco maior que o das outras editoras (aqui temos um livro de 17,5 x 12,5 cm), a operação de espremer o grandalhão deu num volume de quase 5cm de grossura — um tijolinho.
___ 📘 III. CONCLUSÃO ___
Do ponto de vista físico, temos um livro bonito, mas ruim de segurar e de ler. Quanto à narrativa em si, o estilo é bom, porém o tamanho — não por si só, mas associado à falta de concatenação — é excessivo. A esse grandalhão, esmagado para entrar no bolso, cabem três estrelas.
*EM TEMPO, DUAS OBSERVAÇÕES:
1) O texto é adaptado ao Acordo Ortográfico de 1990/2008.
2) O sumário da edição não tem utilidade alguma, pois não discrimina os capítulos (vide foto).

