A obra “Machado de Assis: estudo crítico e biográfico” foi publicada pela primeira vez em 1936. Hoje é impressa pela Livraria do Senado Federal, cujo trabalho editorial costuma ser satisfatório. Também pode ser encontrada em sebos ou em bibliotecas virtuais que disponibilizam o texto integral.
O livro compõe-se de pouco mais de 20 capítulos. Parte do nascimento e da família de Machado, passa por sua trajetória de escritor — alguns capítulos concentram-se em dados biográficos, outros em análises dos livros que publicou —, até chegar a seu falecimento. Encerra com uma discussão sobre a importância do autor na literatura brasileira e uma série de referências bibliográficas, algumas das quais ainda conservam seu interesse.
Alguns pontos que destaco desta leitura:
Talvez nem todos tenham noção de quão importante foi a figura de Carolina, esposa do escritor. Não só para lhe dar a estabilidade, o “acolhimento” existencial necessário para a produção de suas obras, senão também para o próprio aprimoramento de Machado como escritor, porquanto ela estava diariamente lendo e comentando os manuscritos do marido. Isso está muito bem registrado neste livro, e é um aspecto da biografia machadiana que merece atenção.
Pode-se dizer que Lúcia Miguel Pereira apresenta a vida de Machado em quatro grandes fases.
▣ Primeiro, o moleque, que revela desde cedo o amor aos estudos e uma incansável vontade de obter a cultura de que era privado por sua condição social (aí incluído o aspecto da cor de pele).
▣ Segundo, o “Machadinho”, jovem escritor que consegue entrar em algumas revistas literárias e nelas passa a publicar textos sem grande brilho, cujo aprimoramento estilístico é porém constante.
▣ Terceiro, o “Seu” Machado, funcionário público dedicado e zeloso, escritor que já domina o estilo e a gramática e agora se aprofundará em questões filosóficas e psicológicas, com todo aquele jogo irônico que marca seus escritos de maturidade.
▣ Por fim, a quarta figura, o Machado que encontra uma sorte de “duplo” na personagem do Conselheiro Aires, e consegue, ao fim e ao cabo, reconciliar-se com a vida.
Machado de Assis era um autodidata eficaz, um estrênuo trabalhador das letras, e um homem agradável no trato pessoal. Sua vida familiar não tinha nada do travo amargo, quase cínico, que marca seus livros.
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Joaquim Maria Machado de Assis foi o maior escritor da literatura brasileira. Mais: pode-se dizer que foi ele quem a nutriu na infância, quem a fez virar gente grande, e quem até hoje a mantém em pé. Como se não bastasse, fez tudo isso apesar das inúmeras condições de vida desfavoráveis, contra as quais lutou sem jamais recair nos confortos pueris da autopiedade.
Conhecer a biografia e a obra deste grande autor é uma lição que todo o brasileiro merece receber.

