NMA – Prefácio da “Gramática Metódica” de Napoleão Mendes de Almeida

NMA

Napoleão Mendes de Almeida (1911–1998)

PREFÁCIO

Antes de mais nada, importa dizer que ensinar Gramática não é ensinar História Geral. Entre o fato histórico e o fato lingüístico muita diferença há de objeto, de método de exposição e, principalmente, de maneira de aprender. O fato histórico é por si completo; o fato lingüístico necessita explicação, necessita justificação, necessita exemplos, necessita argüição. O fato histórico impõe-se; a regra gramatical expõe-se. O fato histórico é ouvido, ao passo que no terreno da Gramática os fatos são argüidos, são exemplificados. O fato histórico carece de objeções, quando o gramatical se acompanha de corolários, de notas, de exceções. O fato histórico passa, o gramatical explica-se.

            Unidade de estudo: A seriação de textos de ensino admite-se em certas disciplinas, mas somos inteiramente contrário a ela no estudo da gramática portuguesa. Gramática não é Geografia, que se estuda sob aspetos diversos, econômico, político, geral, físico, regional, humano. A gramática, ou seja, o texto, o livro de ensino gramatical deve ser estudado integralmente. Resultado da fragmentação do ensino da Gramática em opúsculos ou em partes que tudo encerram menos método é não encontrarmos aluno do segundo ciclo que saiba flexionar um substantivo composto, que saiba positivamente em que consiste um superlativo, um pronome relativo, um verbo defectivo, uma conjunção subordinativa, um período, que saiba distinguir e definir o objeto direto, indicar a diferença entre os pronomes o e lhe, interpretar um mo na frase, conjugar um verbo com segurança, é não encontrarmos estudante que saiba consultar gramática de língua nenhuma, nem da sua própria.

            Estudar Gramática não é fazer “paciência de baralho”, em que as cartas vêm fora de ordem, e ensiná-la não é propor “quebra-cabeça”, em que se dão, misturadas, peças de um jogo que ao fim do curso o aluno vá recompor sozinho, de acordo com um desenho, com um modelo que ele mesmo não entende.

            Do próprio movimento das livrarias se consegue comprovação da leviandade do ensino da língua: trinta mil exemplares vendem de uma gramática “elementar” e, do mesmo autor, dez mil da gramática de “curso superior”. Sinal de que isso? — Um terço, tão somente um terço de nossos escolares estuda com rigor nosso idioma — supondo-se que a compra de um livro equivalha ao seu estudo.

            A Gramática ou se estuda ou não se estuda. O “age quod agis” tem no caso aplicação completa; o estudo da Gramática ou se faz ou não se faz. Se o aluno está estudando o “substantivo”, deverá estudar tudo, mas tudo quanto diz respeito a essa classe de palavras, no que se refere à fonética, à morfologia e, quanto possível, à própria sintaxe.

            O texto de gramática portuguesa deve ser único e completo, de tal forma que, entregue no primeiro ano ao aluno, este o leve não só até o fim do estudo da disciplina mas até o fim da vida. Isto de “curso elementar” e “curso superior” em gramática de nosso idioma é aberração de ensino da língua. É uma extravagância didática, é um contra-senso cultural admitir a existência de um português primário, de outro português secundário, de um português comercial, de outro português normal, de um português para este e de outro português para aquele outro tipo de estudante. De nenhuma forma é necessário aplicar essa vergonhosa exploração comercial no ensino da língua portuguesa para um aluno que é um, o brasileiro, para uma finalidade que é uma, aprender nosso idioma. Em se tratando da língua nossa, não há distinção entre essencial e secundário, entre elementar e superior. Cabe ao professor, de acordo com as necessidades e possibilidades do aluno, saber o que ensinar, como ensinar e quando ensinar, mas tudo é preciso ensinar.

            Incrível, mas verdade: De uma feita, na véspera de ler seu discurso num “almoço intelectual”, movido não sei por que liberdade liga-nos o telefone um indivíduo que, dizendo-se admirador nosso e não sei mais o quê, sai-se com umas perguntinhas, dentre as quais esta: “O verbo ‘reaver’ como devo conjugar no subjuntivo presente?” — No dia seguinte estava no jornal o discurso do “almoço intelectual” e aí encontramos, uma a uma, as passagens do telefonema de véspera; só então identificamos o anônimo admirador: valente membro de várias academias e de outras tantas instituições intelectuais, orador, polemista, conferencista de centros espíritas e católicos, uma “sumidade” enfim, uma das maiores “honras” de “nossa literatura”.

            Vem-nos à mente aquela passagem de Anatole France: A diferença entre o ignorante e o sábio está em andar este tateando, mui medrosa e cautelosamente, as paredes de um quarto escuro, e em andar aquele despreocupadamente, feliz e sem medo, pelo meio da escuridão. Talvez visando a essa felicidade é que não cuidam do sério aprendizado de nosso idioma, para que, despreocupados das regras de gramática, livres das tradições dos bons escritores, possam dizer e escrever, a torto e a direito, o que pensam.

            A análise não constitui estudo independente: A análise é fruto do estudo da gramática e não fator de conhecimentos gramaticais. A análise é meio de averiguação da correção de um texto, e como tal sinônimo de discernimento, de verificação, de comprovação de aplicação do que seguramente se conhece. Corrigirá um texto não quem “estudou análise” — empregando-se aqui a expressão na acepção costumeira, materializada — mas quem souber gramática. Quem sabe gramática sabe analisar, quem só estuda análise jamais saberá a contento gramática.

            É por não saber analisar que um indivíduo coloca mal um oblíquo, flexiona mal um verbo, pratica um barbarismo? Nada disso: é tão somente por desconhecer as leis do idioma.

            Da análise por diagrama que dizer? — Mecanização improfícua e nefasta do raciocínio. Seríamos o primeiro a defender e a propalar a análise por diagrama se trouxesse conhecimentos ao aluno, se evitasse barbarismos crassos de concordância, de regência, de colocação.

            Quando se diz que alguém não sabe analisar os termos essenciais da oração, deve-se entender que ele não sabe nada, absolutamente nada, de gramática, e não entender que não fez um estudo especial, particular, de uma parte inexistente da gramática.

            Quem sabe gramática sabe analisar, e é o livro de leitura que vai prestar-se para isso comprovar, não deixando de lado o professor nenhuma passagem do autor que tenha relação com o já ensinado ou que sugira a mínima questão já aprendida num compêndio completo e uno.

            Num compêndio completo e uno e não… É mais fácil encontrar sólidos conhecimentos de gramática num estrangeiro de nível universitário do que num brasileiro de igual nível; aquele sabe que a gramática é o caminho mais curto e eficiente, este foi ensinado por editoras e pelos seus agentes; aquele tem formação completa, este em prestações de livros seriados e postilas rendilhadas que mal acompanham o estudante até o fim do ano letivo.

            O que é necessário é evitar o exagero, o supérfluo, o inútil. A análise sintática palavra por palavra das que concorrem numa oração ou num período só deve ser feita ou exigida quando realmente necessária a um objetivo didático geral; estar a ensinar em aulas ou a exigir em concursos ou em provas escolares a função sintática de todos os elementos de uma expressão surrada por todos e encontradiça em qualquer bom escritor constitui exagero e inutilidade. Quando necessária ou para o ensino de casos gerais ou para confirmar uma discutida construção ou para esclarecer um erro e evitar a reincidência, é que a análise se impõe. Procedamos como o médico, que só examina o doente quando em curá-lo cuida.

            Leituras anotadas: Outro despautério pedagógico no ensino da gramática portuguesa está nos livros de leitura anotados. Justifica-se esse sistema em estudos especializados, mas nunca em estudos por si inteiros. Seria muito engraçado aprender inglês lendo notas, comentários, críticas de trechos de autores ingleses, aprender História Natural lendo o “Eu Sei Tudo”, aprender História Geral lendo telegramas de jornais. Como ler não se aprende em gramáticas, tampouco se aprende gramática em livros de leitura. A leitura é suplemento do ensino de gramática, é meio de comprovação e só o professor sabe o que deve ser observado para esta ou aquela classe. Da leitura deve o professor valer-se como meio de recordação das regras ensinadas; “repetita juvant”, e no ensino da Gramática as repetições se impõem.

            O compêndio: Todas as nossas gramáticas, na ordem em que atualmente vêm expondo as classe de palavras, encerram grave erro de método. Observe-se que todas trazem o pronome antes do verbo, expondo e explicando completamente a primeira classe para depois passar à segunda. Como irá o aluno compreender a função dos pronomes oblíquos se não sabe classificar o verbo quanto à predicação? Como perceberá a diferença entre os pronomes o e lhe, se desconhece a diferença entre verbo transitivo direto e verbo transitivo indireto? Como compreenderá a função do reflexivo se, se ainda não estudou o verbo quanto à voz?

            Outra coisa de que nos queixamos é trazerem nossas gramáticas na sintaxe muita coisa que pode ser explanada na própria morfologia. Para que exigir hoje do aluno a definição e a classificação desta ou daquela classe de palavras, para, somente depois de muitas páginas e, conseguintemente, depois de meses ou anos, ensinar-lhe a função e o emprego?

            Nomenclatura gramatical brasileira: A gramática do nosso idioma, por força de simples portaria (publicada no Diário Oficial de 11 de maio de 1959), sofreu modificações já na terminologia, já na divisão, já na própria conceituação de fenômenos lingüísticos. Tal qual acontecera com a ortografia — que após ter vivido vinte anos ao capricho de portarias e de acordos só por um passe de mágica, dado por interesse comercial, veio a tornar-se oficial — a nomenclatura gramatical entrou em cena em nossa terra, num palco em que se viam os mesmos ratos de ministério de outras reformas anteriores. Se assim não foi, considerem-se por ora estes dois fatos: dois meses antes de publicada no Diário Oficial essa portaria, já se encontravam a venda livros de acordo com ela; de autoria de um dos elementos da comissão elaboradora da reforma, um livro trazia o mesmo título de tradicional gramática, despudoradamente antecedido do adjetivo “moderna”.

            De tal monta foram esses e outros fatos, que chegamos à triste conclusão de que era uma falsidade o que estava na portaria que designava uns tantos professores para estudo e proposição do projeto: “um dos empecilhos maiores, se não o maior, à eficiência do ensino da língua portuguesa tem residido na complexidade e falta de padronização da nomenclatura gramatical em uso nas escolas e na literatura didática”.

            Qual o consciente professor de português que ignora repousar, até hoje, no ridículo número de aulas de gramática, a verdadeira e fundamental causa da deficiência do seu ensino? Nenhum país culto existe em que o vernáculo não seja ensinado diariamente; na Itália e na Alemanha Ocidental há oito horas semanais de idioma pátrio.

            O ter passado o verbo pôr, de acordo com a portaria, a considerar-se mera irregularidade da segunda conjugação facilitou ao aluno decorá-lo? Por ter passado a crase a ser considerada mera parte de “apêndice” de gramática veio a ser mais compreendida e mais facilmente praticada? Será que por ter passado o condicional a chamar-se futuro do pretérito o seu estudo e emprego foram facilitados? Por se terem constituído artigo e numeral classes autônomas ficaram mais bem conhecidos? Por haver passado a gramática a ter apêndice tornou-se mais difundido seu ensino?

            Esses e outros fatos levam-nos a concluir que esta foi a finalidade da portaria 36: Malogrados na adoção de seus livros, uns tantos professores engendraram uma rasteira nos autores que os humilhavam.

            Louvável é, sem dúvida, tenha um idioma uniformidade de terminologia para todas as partes léxicas e para todas as funções sintáticas, mas é em igual proporção desprezível que isso se faça com desrespeito à tradição e ao bom senso, quando não à própria disciplina. Um fato por nós presenciado corrobora essa opinião.

            Num exame oral de latim um rapaz, que demonstrava conhecer muito bem a matéria, viu-se perturbado quando lhe foi pedido o adjetivo verbal de certo verbo que ele já havia mostrado conhecer suficientemente bem; o próprio examinador do exame vestibular estranhou o silêncio e perguntou-lhe se não conhecia o particípio futuro da voz passiva; após novo silêncio, o examinador pediu o gerundivo, e o rapaz recitou prontamente a forma desejada. Perguntamos: Por não ter nome fixo é que o aluno desconhecia essa forma verbal? Absolutamente não; o erro está em não ensinarem todos os nomes possíveis a qualquer fato gramatical, pois a abundância de denominações só proveito traz à compreensão do fato; saber qual é o gerundivo de certo verbo latino e não saber que essa forma verbal se pode chamar particípio futuro da voz passiva ou adjetivo verbal é não conhecer todas as suas funções.

            Afinal, ensino é arte e, pois, depende muito das qualidades do artista.

            A despeito disso tudo, enquadramos a “Metódica” na nova terminologia, e ela continuou a merecer a aceitação que a havia colocado em primeiro lugar entre as gramáticas portuguesas impressas assim no Brasil como em Portugal.

            Questionários, exercícios, testes e índice analítico: Dissemos no início, no distinguir o fato histórico do lingüístico, que o ensino deste necessita argüição. O professor precisa interrogar, pesquisar no aluno o conhecimento e as deficiências. Nem de outra forma poderia ser; se as normas de gramática se acompanham de corolários, de notas, de observações, de exceções, como inteirar-se o professor do completo estudo e aproveitamento da lição senão arguindo, perguntando, objetando? Daí a necessidade de trazerem as gramáticas questionários e exercícios, auxílio para o professor, incentivo para o aluno. Gramática portuguesa não se ensina fazendo-se discursos, despejando-se egoísmos e despeitos. Todos os alunos devem ter o texto adotado; um lerá uma regra, outro a repetirá com palavras próprias, um terceiro verá o exemplo, aqueloutro o justificará. Não é despejando retórica, não é movimentando cabeça nem membros que o professor deve ensinar gramática. Isto de dizer um professor de português: “Eu ensino, o aluno que estude no livro que quiser” — é a maior confissão de falta de método, de falta de escrúpulo, de falta de seriedade na docência de nosso idioma.

            Chamamos aqui a atenção para os títulos que encabeçam todas as páginas de nossa gramática; a simples leitura de qualquer desses títulos, em qualquer das páginas, indicará, racional e minuciosamente em que ponto da gramática se encontra o estudante. O bom aluno deve saber, quando uma dúvida o assalta, em que parte da gramática procurar-lhe a devida solução, sem perda de tempo no folhear e revirar páginas. A primeira palavra dos títulos que encabeçam as páginas indica uma das grandes partes da gramática; a segunda denota as divisões da primeira; a terceira, as divisões da segunda, e assim por diante.

            Reconhecendo, outrossim, de grande utilidade para um livro didático, elaboramos um índice alfabético e analítico. Não é preciso dizer do trabalho que isso nos deu; tudo fizemos para que nossa gramática viesse a animar, o mais possível, a herança que nossos avós nos legaram, estimular o escrupuloso estudo do idioma de nossa terra e estreitar o elo de nacionalidade que a todos nos cinge.

            Conclusão: A não ser as observações feitas sob o título “O Compêndio”, o que importa não é reformar, mas ensinar, aprender, estudar. Má é a gramática cujas páginas constituem outras tantas prateleiras de vitrina, que expõem mercadorias de toda a procedência, dando ao espectador o trabalho de escolha do melhor artigo. Boa é a gramática que, numa mistura de simplicidade e erudição, expõe com raciocínios simples e termos chãos o que de melhor existe no terreno de nosso idioma; que o apresenta ao aluno como diamante despojado dos cascalhos e impurezas, já lapidado, pronto já para ser usado; que se abstém, quanto possível, de informações históricas, hipóteses e configurações: a tais dados deve recorrer o suficiente para que o aluno perceba a razão de ser do estado atual de nosso idioma.

            O professor deve ser guia seguro, muito senhor da língua; se outra for a orientação de ensino, vamos cair na “língua brasileira”, refúgio nefasto e confissão nojenta de ignorância do idioma pátrio, recurso vergonhoso de homens de cultura falsa e de falso patriotismo. Conhecer a língua portuguesa não é privilégio de gramáticos, senão dever do brasileiro que preza sua nacionalidade. É erro de conseqüências imprevisíveis acreditar que só os escritores profissionais têm a obrigação de saber escrever. Saber escrever a própria língua faz parte dos deveres cívicos. A língua é a mais viva expressão da nacionalidade. Como havemos de querer que respeitem a nossa nacionalidade se somos os primeiros a descuidar daquilo que a exprime e representa, o idioma pátrio?

FONTE: Napoleão Mendes de Almeida. Gramática Metódica da Língua Portuguesa. “Prefácio”. São Paulo: Saraiva. 1989.

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