P – 7. O clichê (Manuel Rodrigues Lapa)

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O clichê

Manuel Rodrigues Lapa

O emprego abusivo do clichê caracteriza quase todos os principiantes em trabalhos de estilo. Essas séries vocabulares ficaram-lhes no ouvido, através de más leituras, de caráter romântico, muitas vezes. Por preguiça mental enxertam esses grupos na redação, que adquire um jeito pretensioso e falso, e diminui, é claro, de força expressiva. O estilo é uma permanente criação pessoal.

Não aconselhamos o estudioso a evitar por completo as séries usuais, o que seria aliás difícil; e também é verdade que, em certos contextos, um escritor de marca pode dar-lhes vida nova; mas prevenimo-lo contra o emprego assíduo do clichê, muleta ridícula de preguiçosos, duma trivialidade insuportável. Ver com os seus próprios olhos, sentir com os seus próprios sentidos deverá ser a divisa de todo o aprendiz de redação.

Suponhamos que esse aprendiz queria escrever uma fantasia árabe, descrever uma noite no deserto. O pobre rapaz nunca saiu da sua pátria. A apagada imagem do deserto veio-lhe de algumas leituras de terceira ordem e talvez de alguma fita de cinema. Com este material de segunda mão, desprovido de experiência, sem ninguém que o oriente, escreve talvez uma coisa parecida com isto:

“Noite encantadora! O luar banha com os seus raios argentinos o areal desértico e imenso. Tudo brilha e refulge sob a claridade branda e suave da Lua. As estrelas, como milhões de pirilampos, estão disseminadas pela quietude misteriosa do firmamento. E no silêncio sepulcral do deserto, apenas cortado pela brisa rumorejante e dolente dos oásis, tudo parece contemplar o céu, meditando no enigma do infinito. Algumas poucas árvores frondosas erguem as copas altaneiras, como que orando a Deus pela solidão atroz que as envolve. Naquela noite alguém lhes faz companhia. É uma caravana. As tendas espalham-se pelo oásis, sob a abóbada das ramagens. Tudo parece dormir. Somente a Lua é cada vez mais brilhante e mais bela, fazendo da areia do deserto um manto branco de virgem a perder de vista nos horizontes longínquos”.

Tudo neste trecho soa falso — a falsidade das coisas que não são vistas nem sentidas diretamente por nós. Os clichês são em número infinito, como as areias daquele deserto postiço: noite encantadora — o luar banha — raios argentinos — areal imenso — claridade branda da Lua — silêncio sepulcral — brisa rumorejante — contemplar o céu — meditar no enigma do infinito — árvores frondosas a erguer as copas — solidão atroz que as envolve — manto branco de virgem — horizontes longínquos.

Uma série de locuções estafadas, de imagens corriqueiras, que, por isso mesmo, nos não produzem a menor impressão artística. A gente sorri-se do inexperiente autor, que procurou fazer estilo, seguindo precisamente o caminho contrário: não nos pôde dar os resultados da sua própria experiência, por não tê-la, e reproduziu apenas o que anda na boca ou nos bicos da pena de toda a gente. O efeito foi desastroso.

Extraído de: Manuel Rodrigues Lapa, Estilística da Língua Portuguesa (capítulo 5, título 9, pp.67-68). São Paulo: Martins Fontes. 1988.


COMENTÁRIO: Transportemos o problema do clichê para a descrição de pessoas e personagens, e teremos resultado ainda mais desagradável. A falta de conhecimento da condição humana, da personalidade e das emoções de nossos pares, é tão comum entre intelectuais e escritores quanto a pouca experimentação em desertos e outras paisagens distantes. Quem não conhece as pessoas fala delas com os clichês da moda — aprendidos nas novelas televisivas, nas psicanálises traduzidas, nas sociologias de cartilha. (TELG)

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