14. Notas sobre a memória

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Do que você se lembra?

Instigante a pergunta, afinal ela própria nos convida a lembrar. “É lembrando que se lembra”, diria um fazedor de máximas, ecoando o “É fazendo que se aprende”. E não seria mentira…

– I – QUERER LEMBRAR

Aprender implica lembrar as coisas aprendidas. Mas não lembramos simplesmente porque queremos lembrar, ou quando queremos lembrar. É forçoso algum esforço porque não esqueçamos aquilo que não desejamos esquecer.

A memória tem seus truques. Às vezes dá conta sozinha de um assunto, sem esforço algum de nossa parte. Outras, ela é puramente corporal: pega-se no violão depois de anos, e logo os dedos estão formando os acordes: C, E, G… Também não é raro que ela seja involuntária, como na música grudenta ou no problema desagradável que volta à mente sem ser convidado. E às vezes a memória nos trai, não sem algum vexame.

É por isso que uma disciplina da memória se faz presente em todo o tipo de atividade intelectual, assim como há uma disciplina do corpo em todo o tipo de atividade física.

– II – Parêntese profissional

Logo que se fala em disciplina, o fantasma da preguiça bate à porta. 

Por que bate? Se é fantasma, podia atravessá-la… 

Ora! Ele bate porque quer ser esconjurado. Esconjuremo-lo pois. Digamos logo que há motivos muito práticos para lembrar.

Estudar de verdade, estudar principalmente português e matemática, é o melhor truque para ficar inteligente e conseguir um emprego que dê dignidade à nossa família. E para aprender é preciso lembrar-se das coisas aprendidas. 

Mesmo quando o estudo não está em causa a memória tem papel relevante na eficiência profissional. Se o seu chefe lhe pergunta algo à queima-roupa, será muito melhor que você saiba a resposta — e quase sempre saber é sinônimo lembrar. Quando se diz que estamos na “era da informação”, que “a informação é mais valiosa que o petróleo”, e todas essas frases moderníssimas, num ponto é preciso concordar: quem tem boas informações costuma ser mais eficiente. E quase sempre ter informações é sinônimo de lembrar informações

Se você não lembra, deve ao menos lembrar onde procurar, e rápido. Caso contrário, você já não sabe — você acha

Por isso, não subestime os ganhos que lhe podem trazer certos aperfeiçoamentos da memória. E a boa notícia é que a memória pode sim ser exercitada, aperfeiçoada, expandida.

– III – Repetir com método

Voltemos à analogia entre a disciplina da memória e a disciplina do exercício físico.

Em ambos os casos a evolução decorre de um bom sistema de repetições devidamente espaçadas. Não me ponho a treinar somente quando o corpo quer, e não vou me pôr a lembrar somente quando a memória quiser. Ao contrário; eu decido pelo corpo (e muita vez contra o corpo) o momento do treino. Decido pela mente (e contra sua tendência natural a esquecer) o momento da rememoração.

É como se as lembranças fossem um tipo de produto radioativo, daqueles que têm uma meia-vida determinada. Para cada lembrança, um prazo próprio de deterioração natural, um ciclo que implica sua redução à metade, até ao desaparecimento. Abandonadas à própria sorte, elas se vão. Talvez algumas nunca decaiam até o zero, mas se vão… 

A disciplina da memória é uma intervenção estabilizadora, uma série de procedimentos físico-químicos para desacelerar essa “meia-vida”.

O tratamento da matéria-memória se dá pelas sucessivas e programadas rememorações, de preferência variando o contexto em que é evocada a informação que se quer decorar. Não se estuda um idioma sempre pelas mesmas frases e temas, mas mudando o quanto for possível mudar. Não se decoram as falas de uma peça teatral repassando-a sempre de cabo a rabo, mas tomando às vezes cenas e passagens de forma isolada, aleatória, insistente.

– IV – Tempos

É natural que no início do “tratamento” a repetição deva ser mais assídua. A matéria ainda é instável, jovem, acelerada, efêmera. Precipita-se no erro ou no vazio. A aleatoriedade consciente e disciplinada não lhe ofereceu a têmpera — então a aleatoriedade caótica e inconsciente lhe empurrará o destempero.

É preciso mais lembrar quando mais se esquece e mais se equivoca. Depois que a coisa está “no coração” — é este o étimo da palavra “decorar” — é necessário lembrar ainda, mas a espaço, arejadamente, com a alegria duma amizade velha.

– V – Palácio da memória

Existe uma sabedoria humana da memória, que se fixou em técnicas diversas. O “palácio mental” ou “palácio da memória” é uma das mais conhecidas, e se apóia na nossa capacidade imaginativa: para cada informação a ser retida, imagina-se um objeto, num enorme palácio imaginário cheio de cômodos, móveis, gavetas, tranqueiras… quase uma loja de belchior, como aquela descrita por Machado:

Panelas sem tampa, tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de palha e de pêlo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dous cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso e o mais que não vi ou não me ficou de memória, enchia a loja nas imediações da porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Lá para dentro, havia outras cousas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos grandes, cômodas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na escuridão. (Machado de Assis, no conto “Idéias de canário”)

Talvez com a exceção de que nada se perca no escuro, pois o “Palácio” deve ser de uma claridade total. Como o brechó é para o brecholeiro e o sebo para o sebista, o palácio mental deve estar sob domínio soberano e permanente do seu proprietário: ele sempre sabe onde está cada coisa, e se entende na bagunça como se fosse a maior das organizações. 

Quem irá desmenti-lo?

– VI – Ciência

Falando do “palácio” fui um pouco além do que sei sobre essa técnica, e posso ter dito alguma besteira. 

Também é imperioso registrar que existe uma ciência da memória, de que eu só arranho o esmalte da superfície. 

Ela não cabe nas presentes notas, que se limitam a ser uma meditação no senso-comum; mas não pode ser desprezada, afinal produziu e produz dispositivos úteis. 

Um deles, bem conhecido, são os métodos de estudo baseados em curvas de esquecimento. Vou colocar aqui uma imagem que, além de valer mais do que as mil palavras deste meu artigo, ajudará a ilustrá-lo.

– VII – Anki e Banco de Frases

Um pouco à revelia do fundamento e rigor científico (porque mudei como bem entendia os parâmetros numéricos), mas sem descurar dos preceitos que expus neste texto, tenho usado o aplicativo Anki para revisar 2334 registros que digitei em meu “Banco de Frases”. 

O Anki é um programinha para gerenciar cartões de estudo (flashcards). Em linhas gerais, a idéia é que o estudante, vendo o que está na frente do cartão, lembre-se do que está no verso (e vice-versa). O aplicativo se encarrega de reapresentar os cartões dentro de certos prazos, estes calculados com base nas curvas de esquecimento desenhadas pela ciência — num intervalo de minutos, dias, meses etc.

Quanto ao Banco de Frases — planilha onde armazeno certos achados literários, gramaticais e estilísticos —, é um companheiro de cinco anos, que já mencionei neste texto sobre a “coleção de figurinhas”, e um dia precisarei explicar melhor. Um dia… 

Não tomarei nota na agenda. Se eu esquecer, alguém me lembre.

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