Quando comecei a estudar a sério, por vontade própria e segundo interesses pessoais (mais ou menos no terceiro semestre de faculdade), achava que o mais importante para anotar durante uma leitura era aquilo que o autor havia dito no texto.
Comumente tais anotações tinham a seguinte forma: uma palavra-chave ou uma frase que sintetizassem o TEMA de um trecho, seguida do número da página. Por exemplo: “Neurose e transferência (p.67)”.
Como sintetizar nunca é tão simples, outro tipo de anotação muito frequente era a CÓPIA de trechos inteiros. Deste modo, o autor falaria com suas próprias palavras em meu caderno.
Conforme o tempo passava, porém, fui reparando que essas anotações tinham pouca utilidade, para não dizer utilidade nenhuma. Diziam onde encontrar determinadas idéias, mas não me ajudavam a lembrar que idéias eram essas. Eu ficava assim obrigado à releitura e forçado ao reestudo, único meio de redescobrir o que significavam minhas anotações.
As palavras-chave eram vazias, já não me diziam nada. As citações, longas e cansativas, podiam ter sido grifadas direto no texto, poupando o trabalho inicial de copiá-las e o trabalho posterior de decifrar minha caligrafia.
Joguei muitos cadernos no lixo desde então. Pelo menos quinze brochuras de ¼, com 96 folhas cada, repletas de letras miúdas. Calculem. Até hoje não senti falta de nenhuma dessas notas que eu jamais iria reler.
Em contrapartida, comecei a me esforçar por ESCREVER mais: escrever meus pensamentos sobre os estudos (e outros acontecimentos) em um diário; escrever nos cadernos e fichas tudo o que PENSO sobre trechos interessantes de minhas leituras.
A pergunta foi-se transformando. O caderno já não quer saber “o que o autor disse?”, pois para isso existe o livro. Agora oriento minhas anotações por outras questões: O que eu pensei enquanto lia? O que eu penso do que o autor disse? O que pode ajudar-me a entender e explicar o fenômeno aqui teorizado, o fato aqui narrado?
Tanto na literatura de ficção como em textos teóricos ou técnicos, o segredo está em capturar no caderno aquilo que é mais fugidio dentro de uma situação de leitura. Não anotar o que já está escrito e impresso, mas aquilo que somente “está no pensamento como idéia”, e desaparecerá rapidamente se eu não tomar providências.
🧠 Num texto filosófico, a melhor anotação virá daquele momento em que nos flagramos com os olhos longe do texto, a imaginação toda empenhada em criar sobre o assunto um bom exemplo, uma metáfora perfeita, uma nova forma de dizer. Não raro nos vemos explicando o conceito a um amigo ou a um pequeno grupo de alunos de quem somos professor. Também pode acontecer de fantasiarmos um caloroso debate, defendendo ou refutando o autor. Essa é a hora! Com papel à vontade, anote tudo o que for preciso para fixar o pensamento ou devaneio. Depois, se for necessário, volte algumas páginas no livro para “catar” os fragmentos que engendraram aquele episódio imaginativo que você registrou. Como transcreve Louis Riboulet em seu livro “Conselhos sobre o trabalho intelectual”:
“Tanto se lê um livro sério virando as páginas da esquerda para a direita, como virando-as da direita para a esquerda, quero dizer, voltando ao que se leu […]” (Faguet)
🧠 Na literatura ficcional, recontar a história para um amigo, de forma concisa, é um excelente exercício de anotação. Imagine-se resumindo o enredo, e registre esse resumo. A unidade da história é um sentimento muito forte durante e logo após a leitura, mas muito fraco quando já se passaram algumas boas semanas. Anote enquanto é tempo. Sempre que possível, registre também o que pensou acerca de certos trechos: suspeitas e impressões, sentimentos e teorias. Não se esqueça de contextualizar: se analisa uma cena, anote que estão presentes Fulano e Beltrano, que Cicrano está vindo de falar com sua amada, que o Rei parece tenso por ter descoberto um segredo na cena anterior (tal e tal palavra indicam essa tensão…).
🧠 Se você lê e anota com o objetivo de desenvolver sua escrita e estilo, é indispensável apontar os motivos que o levaram a sublinhar esta ou aquela frase. Ao contrário do que acreditávamos na adolescência, “Frases Boas” flutuando no espaço raramente existem. É preciso neste caso dizer: é boa por isso e mais isso. Boa porque vem num parágrafo assim, porque as vírgulas estão dispostas de tal maneira… Os melhores achados de estilística serão sempre aqueles em que seja possível perceber a convergência (ou divergência proposital) entre a forma e o conteúdo — entre a materialidade da expressão verbal e o contexto significativo em que a expressão surgiu. Uma frase precipitada numa cena precipitada; uma aliteração explosiva numa descrição explosiva; um espelhamento de estruturas verbais em um raciocínio ou cenário de espelhos. Um casal de borboletas, asas batendo — e as palavras imitando, duas a duas.
Parece ser o que Machado de Assis buscou neste trecho:
“[…] três minutos depois, as borboletas da esperança volteavam diante dele, não duas, nem quatro, mas um turbilhão que cegava o ar.” (Machado de Assis, Quincas Borba)
As aliterações, os numerais escolhidos, e a própria imagem das borboletas, com seu par de asas bipartidas… tudo nos introduz a uma espécie de progressão geométrica (2, 4, 8, 16… turbilhão). Não devemos sublinhar apenas a frase dizendo: é boa! Devemos gastar tinta azul e massa cinzenta para explicar, o quanto antes, por que é boa.
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Evite o falso-trabalho. Pergunte-se o que quer com cada leitura, e vá atrás disso como um pesquisador sério e interessado, não como um turista apenas disposto a tirar “selfies” ao lado dos monumentos. Não reduza suas anotações a “selfies” ao lado do texto e do autor.
Anote o que pensou com o que leu. Gaste palavras, detalhe, precise, desenvolva, tente entender e busque expressar-se com clareza e generosidade. É um presente que você estará dando a seu “eu futuro”.
Se puder, passe a limpo as notas uns quinze dias depois de terminar o livro ou texto, com os acréscimos e correções necessárias. Se o fizer no computador, não se esqueça de aproveitar as dicas deste texto e deste outro.
É claro que há muita utilidade em transcrever certos trechos e criar palavras-chave. Mas esse não é o carro-chefe de um estudo sério.
Se seguir as recomendações aqui exaradas, aposto que você terá anotações mais úteis, e uma perceptível melhora em suas habilidades expressivas.
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