Em agosto de 2020 inventei esta série de textos intitulada “Seja preciso no que escreve”. Gostei muito do primeiro capítulo, sobre “Os cristais de Cervantes”, e tenho num pedaço de papel uma lista de outros que poderiam vir a lume — sobre uma morte brutal da Ilíada em diferentes traduções; sobre os símiles de Chesterton na Inocência do Padre Brown; sobre um efeito cinematográfico no terceiro canto dos Lusíadas; sobre as ressalvas estilísticas que Machado de Assis faz, e como elas não são o que parecem; sobre como o Padre Antônio Vieira tem a audácia de criar metáforas fracas de propósito, só para robustecer o argumento de um de seus sermões.
Vamos ver se consigo colocar algum deles no papel. Enquanto não o faço, apresento para a série um trecho do livro Estilística da Língua Portuguesa, de Manuel Rodrigues Lapa.
O texto pode parecer técnico, mas não é assim que deve ser lido.
Convido o leitor a dar uma olhada na seguinte lista das preposições de nosso idioma:
a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, per, perante, por, sem, sob, sobre, trás.
Peço que agora recorde os seguintes aspectos das preposições em nossa língua:
▪ (1) As preposições são palavras de significação elástica, algumas delas quase vazias de sentido intrínseco; ilustra-se bem isso no dicionário Aulete, com os muitos significados e usos da preposição “de”.
▪ (2) As preposições são palavras indispensáveis para a construção de um texto; para constatá-lo, basta tentar eliminá-las de alguma frase do presente artigo.
▪ (3) Há na língua certa margem para escolhermos entre preposições diferentes, escolhermos entre diferentes lugares da frase para colocar o termo preposicionado, ou até escolhermos entre usar uma preposição ou não.
Pois bem. No trecho que vamos ler, Manuel Rodrigues Lapa não está preocupado em incutir-nos regras gramaticais. Estas são importantes, é claro. No entanto, o que mais interessa a Lapa são os efeitos intelectuais e emocionais que o manejo hábil das preposições poderá produzir num ouvinte ou num leitor.
Fica assim mais do que evidente a íntima conexão entre o excerto abaixo e esta série de textos: a escolha precisa das preposições, o uso consciente dessas palavrinhas elásticas e discretas, pode ajudar muito um redator na consecução de seus objetivos retóricos e estilísticos.
Boa leitura!
Aspectos gerais da preposição
Manuel Rodrigues Lapa
A preposição é definida pelos gramáticos como um instrumento de ligação das partes do discurso. É pois um morfema indispensável para uma boa inteligência da frase, um elemento, digamos, de precisão lógica. Por aqui se compreende o elogio entusiástico dum gramático como Carlos Góis, que lhe chama “palavra admirável, verdadeiro cimento da frase, principal instrumento de clareza de um idioma”.
● [1] Digamos desde já que esta definição não é totalmente verdadeira. Em primeiro lugar, a preposição nem sempre liga dois elementos do discurso, pela simples razão de que é colocada muitas vezes à frente. Como sucede com o advérbio, os escritores realistas, nomeadamente Eça de Queirós, têm marcada tendência para autonomizar o morfema, pondo-o em lugar de relevo, à frente do período. Alguns exemplos, apenas:
▪ 1. Do fundo da choça rude… veio um lento gemido.
▪ 2. Com infinita caridade e doçura o abraçou.
▪ 3. Na sua humilíssima humildade não se considerava nem o igual dum verme.
▪ 4. Entre duas pedras acendeu uma fogueira.
▪ 5. Sob a fronde, a buzina do porqueiro ressoava agora.
▪ 6. Através de toda a Itália, sem descanso, pregou o Evangelho eterno.
▪ 7. Para unir servos que penavam sob um amo fero, penetrava nas igrejas.
▪ 8. Pela abundância e perpetuidade da oração, ele arrancava da sua alma as raízes mais miúdas do pecado.
Não diremos que uma frase como a primeira está deslocada por um mero capricho do autor, e que a forma regular lhe equivale perfeitamente: “Um lento gemido veio do fundo da choça rude”. O autor, que inspira este nosso livro, sabia muito bem o que escrevia e o que queria: desejava exprimir em primeiro lugar a circunstância, e só depois o ato e o sujeito. O mesmo que sucede no advérbio, como vimos: o que acode primeiro ao espírito é o modo, as circunstâncias em que o ato se realiza; só em seguida se toma consciência clara do fenômeno. O autor, deslocando a preposição, seguiu à risca os ditames da arte impressionista e conseguiu um belo efeito estético, pese embora aos princípios reguladores da Gramática.
● [2] Também não é verdade que a preposição seja um liame indispensável para a inteligência do discurso. Veja-se este trecho de Trindade Coelho:
▪ Ali se quedava a olhar o Tomé que o chamava, — [] um grande riso de alegria nas feições amorenadas.
O escritor omitiu a preposição com, e o sentido não deixou de se apreender, favorecido por aquela pausa marcada pela vírgula e pelo travessão. O processo, frequente, como vimos já, nos autores impressionistas, vem de longe, como se deixa ver destes dois exemplos de Francisco de Morais e Fr. Luís de Sousa:
▪ O dia do seu enterramento, toda Constantinopla saiu coberta de dó, [] vestiduras negras e tristes.
▪ Deixou despachado um galeão, com ordem que partisse, [] entrada de outubro.
No primeiro passo, pode entender-se a elipse da preposição com, ou de, que já estava anteriormente. No segundo, subentende-se a preposição a ou em (à, na). Este último processo é ainda hoje usado nas expressões de tempo. É de Fialho de Almeida esta construção:
▪ Paco Ximénez era o animal de luxo das mulheres, essa estação (=nessa estação).
● [3] Enfim, resta dizer que a preposição nem sempre desempenha funções rigorosamente lógicas; na linguagem corrente e na dos escritores insinuam-se continuamente valores afetivos, como passamos a ver de alguns exemplos:
▪ 1. O livro está sobre a mesa.
▪ 2. A janela deitava sobre o jardim.
▪ 3. Sobre ser parvo, é ainda mauzinho.
No primeiro exemplo, tudo é claro na representação: o sobre exprime uma relação de lugar que não dá margem a dúvidas e que é apenas do domínio da inteligência. No segundo exemplo, já a preposição é largamente invadida pela fantasia. Mais lógico seria talvez dizer: “deitava para o jardim”, e é assim que se diz também correntemente; mas o emprego da preposição sobre dá uma incomparável sugestão poética: como que estamos vendo, de cima, da janela, o encanto florido do jardim. No terceiro exemplo, enfim, a preposição adquiriu um caráter moral; toda a relação de lugar se desvaneceu e, em lugar dela, temos agora uma forte impressão de intensidade, que, menos literariamente, o vulgo costuma exprimir por além de. Aqui temos como a fantasia e o sentimento suscitaram nas preposições matizes novos de significação, embora lhes fizessem perder um pouco daquela clareza lógica tão preconizada pelos gramáticos.
Outros exemplos se poderiam apresentar desta escala de valores sentimentais que oferecem as preposições. Consideremos apenas a preposição por nos casos seguintes:
▪ 1. À volta, teve de passar por Coimbra.
▪ 2. É por tolices desses que acontecem desastres.
▪ 3. Peço-te, faze isso por mim!
No primeiro exemplo, a preposição porexprime simplesmente uma relação de lugar por onde, que chega até nós por via meramente intelectual. No segundo exemplo, passamos do físico para o moral; a preposição agora traduz uma idéia de causa, mas sentimos que essa idéia está contaminada, perturbada por um sentimento de pesar. No terceiro exemplo, enfim, a preposição adquire já um tom inteiramente afetivo. É como se disséssemos “por amor de mim”. A causa e o fim entrelaçaram-se num complexo sentimental, e resultou dessa amálgama um poderoso efeito expressivo.
Se passarmos da linguagem falada para a escrita, também encontramos freqüentemente aderências afetivas na preposição. Veja-se por exemplo este terceto camoniano, dum soneto já aqui citado:
▪ Vivo em lembranças, mouro de esquecido
de quem sempre devera ser lembrado,
se lhe lembrara estado tão contente.
O grande poeta sobrecarregou as duas preposições de valores sentimentais e intensivos, que poderíamos, mais ou menos traduzir deste jeito: “Vivo inteiramente absorvido pelo bom amor de outrora; mas, ao mesmo tempo, sinto-me morrer, por me ver tão esquecido daquela…”.
Casos há em que a preposição anda disfarçada, em virtude da evolução lingüística. Um desses casos — e dos mais curiosos — está nesta frase de Monteiro Lobato:
▪ Mas, pela não termos hoje, é absurdo negarmo-nos direito à fisionomia — (Idéias de Jeca Tatu, 7ª ed., 39).
Isto traduzido em termos de linguagem corrente, significa: “Mas, pelo fato de a não termos hoje…”. O escritor não fez mais do que ressuscitar a construção clássica, onde a forma de por aparece bem visível: “Mas, pola não termos hoje…”. E com isso produziu uma síntese expressiva, que seria talvez ainda mais eloqüente, se também conservasse a forma arcaizante pola, que existe ainda hoje em galego.
Vejamos agora, uma por uma, algumas das preposições fundamentais que maior interesse apresentam para a Estilística. […]
Extraído de: Manuel Rodrigues Lapa, Estilística da Língua Portuguesa (capítulo 14, título 1, pp.183-185). São Paulo: Martins Fontes. 1988.
*
NOTA FINAL: Agora que você já sabe que as preposições não são apenas um capítulo chato da aula de gramática, aprofunde seus conhecimentos:
● Continue lendo o capítulo 14 da “Estilística da Língua Portuguesa”, todo dedicado às preposições. Se puder, compre e leia inteiro esse ótimo livro.
● Leia o capítulo 37 da “Gramática Metódica da Língua Portuguesa”, de Napoleão Mendes de Almeida. (Se ainda não conhece a Metódica, leia aqui seu prefácio.)
● Pesquise no dicionário Aulete digital algumas preposições de uso cotidiano, e leia todos os seus significados e usos. Não se esqueça de olhar também a aba “verbete original”, onde há exemplos de autores mais consagrados. (Copie e guarde muitos exemplos: colecione figurinhas.)
● Compre o “Dicionário Prático de Regência Verbal” e o “Dicionário Prático de Regência Nominal”, de Celso Pedro Luft, para pesquisar verbos, substantivos e adjetivos, e descobrir as preposições que mais combinam com eles.
