NMA – Plural distributivo ⋄ Plural doentio — artigos de Napoleão Mendes de Almeida

NMA

Napoleão Mendes de Almeida (1911–1998)

.

Plural distributivo

Os que conhecem latim sabem que nesse idioma o nome da coisa possuída vai comumente para o plural quando vários são os possuidores; dá-se isso principalmente quando o nome é parte do corpo ou propriedade da alma. Enquanto em português se diz “temos [plural] o coração [singular] para o alto”, em latim diz-se “temos [plural] os corações [plural] para o alto”: “sursum corda [pl.] habemus [pl.]”, como se diz “consules capita conferunt”; “capita lingnorum”; “caput columnae”; “capita fontium”.

A tradução correta de “ornamus corpora [pl.] ornemus etiam animos [pl.]” é “ornamos o corpo [sing.], ornemos também o espírito [sing.]”. Se Virgílio diz, referindo-se aos miserandos troianos: “… miseris improvida pectora turbat”, o tradutor deve para o português verter: “… agita-lhes o espírito desprevenido”.

Esse plural, que podemos chamar DISTRIBUTIVO, começa a aparecer em notícias de jornais nossos, como esta: “As autoridades não desmentiram tal versão, limitando-se a dizer que as investigações para determinar as identidades* dos mortos prosseguem”. Tal construção merece a mesma repulsa que estoutra: “Eles estavam com os narizes* sujos”. Assim não se diz em português, senão “estavam com o nariz sujo”, “todos estavam de boca aberta”, “pessoas de notável personalidade”, “… para determinar a identidade dos mortos”. 

Claro está não se fundamentar no latim tal fuga da nossa construção; mais uma vez o inglês é que se faz sentir, e só nos resta desejar nos faça um dia o inglês também sentir que a sua construção “Eu o vi” deve ser a nossa, o que só se dará quando eliminar erros for entre nós mais fácil do que introduzi-los, ou por outra, quando deturpar a língua for mais difícil do que preservá-la.

Plural doentio

Dentro da cachola do jornalista sem leitura opera-se o raciocínio de que por serem diversas as mães prolíferas não há falar em “salário” mas em “salários”. É o que está no jornal: “Serão aumentados os salários* das mães de mais de quatro filhos”. A concordância de “salários” com “mães” merece reparo. Por dois serem os senadores, virá amanhã alguém redigir: “Nos corações* destes senadores pulsam os sentimentos* pátrios”? Por referir-se a mais de um país, passará a redigir: “Os povos* desses países”?

Para arrematar o descalabro, está faltando acrescentar o possessivo: “Os palhaços apresentam-se sempre com seus narizes* pintados”; “Os nadadores tinham os seus corpos* inteiramente mergulhados”; “Apresentaram-se com as suas cabeças* raspadas”; “Quando o médico chegou os dois estavam com os seus corações* parados”.

É de notícia de jornal esta tolice: “Um tribunal sudanês ordenou a remoção dos dentes das bocas* de dois homens acusados de quebrar os dentes de uma terceira pessoa numa briga”. Por que “das bocas”? No caso, nem “das bocas”, nem “da boca”, pois, que saibamos, não há noutro lugar do corpo humano dentes.

Esse plural de certos jornalistas faz supor que eles escrevem: “Eles estão com dor de estômagos*”, “Todos estão com as barrigas* vazias”.

(V. tb.: D.QVs, “Concordância às avessas” e “plural da coisa possuída?”)

OBS: assinalamos com asterisco (*) os exemplos de linguagem incorreta.

LEIA TAMBÉM:

Bastante” ou “Bastantes”: qual é o certo?

O Word me disse que é errado escrever “e também”… mas e Camões?

Subir para cima, descer para baixo… quem tem medo do pleonasmo?

O Trabalho Intelectual – livro de Jean Guitton

Deixe um comentário