Nem todos os pleonasmos são viciosos.
♦ [A] PLEONASMO consiste em repetir um termo de uma frase empregando outra expressão de sentido equivalente, como “homem cego e sem vista”, em ajuntar ou empregar superfluamente um termo determinante cuja idéia está compreendida na definição do termo determinado, como: círculo redondo, água molhada, ver com os olhos.
Empregado por descuido e sem necessidade alguma, o pleonasmo é um vício de linguagem, conhecido mais particularmente pelos nomes de tautologia e redundância.
Mas o pleonasmo também se usa como figura de sintaxe, servindo para reforçar a idéia e expressá-la com mais clareza. Assim, posto que “vi com os olhos” seja censurável como linguagem habitual, há entretanto ocasiões em que tem todo cabimento “vi com meus próprios olhos”.
♦ [B] Um novo termo explicativo ou delimitativo do termo pleonástico torna perfeitamente admissíveis dizeres como os seguintes:
◽ Dormir o sono da inocência.
◽ Viver uma vida feliz.
◽ Morrerás morte vil da mão de um forte (G. Dias).
♦ [C] Quando se quer exprimir de modo enfático o complemento de um verbo, e este complemento é um dos pronomes me, te, se, lhe, o, a, os, as, nos, vos, lhes, torna-se necessário recorrer aos pleonasmos a mim, a ti, a si, a ele, a nós, etc., que ainda podem vir acompanhados da palavra ‘mesmo‘ ou ‘próprio‘, tratando-se de ação reflexiva:
◽ Defendeu o antigo e defendeu-se a si mesmo.
◽ Vi os teus companheiros, mas não te vi a ti.
◽ Hei de servi-lo a ele de preferência a outrem.
◽ Ele perseguia as aves e alimárias inocentes: eu perseguia-o a ele (Herculano).
◽ Um homem que se mata a si próprio ou é um louco ou tem coração tão danado que desconhece os remorsos (Herculano).
♦ [D] Colocando-se no princípio da oração um complemento expresso por substantivo ou palavra substantivada, e pronunciando-se este complemento com ênfase seguida de pequena pausa {não necessariamente virgulada}, é costume repeti-lo sob a forma de pronome junto ao verbo da oração:
◽ O sangue levava-o derramado pelo vestido (Vieira).
◽ As feridas levava-as abertas nas mesmas mãos (Vieira).
◽ Estas celestiais delícias ele mereceu gozá-las, nós apenas considerá-las (Lucena).
◽ Um cavaleiro d’estranho aspecto era o que assim corria… Lança não a trazia (Herculano).
♦ [E] Também o sujeito posto no começo da oração, depois do qual se faça pausa, pode vir repetido sob a forma do pronome ‘esse’:
◽ Comer a baleia a Jonas, essa é a sepultura que o mar costuma dar aos homens (Vieira).
◽ A pondenga negra, essa corria pelo aposento (Herculano).
♦ [F] Próprio da língua portuguesa é repetir a negação. No falar hodierno emprega-se esta linguagem pleonástica quando a palavra ‘não’ vem mencionada antes das outras negativas:
◽ Não digas nada a ninguém.
◽ Não tinham cousa nenhuma para comerem (F. M. Pinto).
◽ Não apareceu ninguém.
◽ O vulto não respondeu nada e ergueu-se (Herculano).
◽ Fechara as portas e não deixara entrar ninguém (Herculano).
Podem-se também empregar em lugar da segunda negação as expressões ‘coisa alguma’, ‘pessoa alguma’.
♦ [G] Ao pronome pessoal acrescenta-se às vezes o mesmo substantivo a que ele se refere, sendo causa desta explicação pleonástica a necessidade de dissipar qualquer dúvida da parte do ouvinte:
◽ A substância da qual carta era denunciar-lhe ele almirante como ficava naquele porto (Barros).
◽ Melhor era aceitar ele capitão-mor vassalos leais aos serviços del-rei (Barros).
(Fonte: Manuel Said Ali, Gramática Secundária. Editora UnB, 1964. p.219-220)

