.
O instinto etimológico
Manuel Rodrigues Lapa
A exploração do sentido originário das palavras faz parte, como dissemos, duma disciplina chamada etimologia. Essa operação é de indiscutível importância para a ciência da linguagem e até para a história das civilizações, porque à origem das palavras podem prender-se factos históricos e sociais de grande interesse. Mas uma coisa é ciência, outra coisa estilo. Quando escrevemos ou falamos, pouco ou nada nos importa o sentido passado dos vocábulos, a sua história; só apreendemos da palavra aquilo que é atual. E demais, esse sentido etimológico, se fosse aproveitado, lançaria uma extraordinária confusão sobre os fenômenos da linguagem.
Alguns exemplos vão elucidar o leitor. Suponhamos que alguém, conhecedor do grego, escrevia: “O povo italiano é um povo hipócrita.” Queria ele dizer com a sua, fundado na etimologia (=ator), que os italianos são naturalmente atores, gostam da exibição espetacular. Como porém a palavra tem hoje um sentido muito diferente, o malfadado helenista arriscava-se a não ser compreendido e a coisa ainda pior: a ser incomodado pelas autoridades consulares ou diplomáticas italianas, por ofensas a um país estrangeiro.
Outro exemplo: Quando apelidamos alguém de marechal, ligamos à palavra uma altíssima significação honorífica: o ponto mais alto da hierarquia militar. O etimologista, enfronhado em seus estudos, vê as coisas de outro modo: sem perder de vista o significado atual, sobe à origem e observa com um sorriso que a palavra, em seus começos, queria apenas dizer isto, bem modesto por certo: encarregado da cavalariça!
Finalmente, consideremos a palavra coitado, tão portuguesa, tão representativa do nosso brando modo de ser. Quando a proferimos, aludimos a alguém que é pobre, ou infeliz, a quem a vida não corre bem. Pois a palavra, na sua origem, no tempo dos trovadores, aplicava-se especialmente ao namorado que curtia dores por sua dama. Vão lá pensar hoje nisso, quando se avista um mendigo andrajoso, a quem se diz, dando esmola: Coitado, tome lá!
Vemos pois que as palavras têm um curioso romance histórico. É instrutivo conhecê-lo, sem dúvida; mas nunca devemos esquecer a obrigação em que estamos de empregar a palavra no seu sentido atual. O motivo por que os filólogos, os gramáticos, os homens muito eruditos escrevem mal é geralmente este: não têm presente e fresco o sentimento da língua de hoje. As palavras evocam-lhes representações passadas, conformes à sua etimologia. De modo que, quando escrevem, é um passeio constante pelos domínios da antiguidade. A sua maneira de escrever traz por isso mesmo um cheiro a bafio. É um estilo pretensioso e avelhentado, muito em voga nas academias.
Contudo, para uma coisa é útil o conhecimento da etimologia e da história das palavras: para a leitura inteligente dos autores antigos. Quando Fr. Luís de Sousa escreve: “Da imbecilidade de sua natureza não desconfiava, porque conhecia suas forças” — notamos que imbecilidade está ali no sentido etimológico, latino: “fraqueza”. Seria errôneo atribuir à expressão o significado atual: “parvoíce”. Quando um outro grande clássico, D. Francisco Manuel de Melo, escreve a respeito das suas Cartas familiares: “por todas cintila o queixume, apesar da modéstia, que procura embaraçá-lo e desmenti-lo” — teremos de atribuir a modéstia o significado antigo de “medida”, “temperança no sofrimento”, “resignação”.
Os bons dicionários deveriam trazer todas estas significações, mas por vezes falham. E as edições dos Clássicos deveriam ser cuidadosamente anotadas e apontar estas variações semânticas. Se assim fosse, o leitor poderia efetivamente compreender os nossos autores antigos, apreciá-los e aproveitá-los no que têm de aproveitável, sem perigo de assimilar um estilo que já não é de nossos dias
Extraído de: Manuel Rodrigues Lapa, Estilística da Língua Portuguesa (capítulo 1, título 7, pp.18-19). São Paulo: Martins Fontes. 1988.
COMENTÁRIO: O escritor autodidata, a quem falta o olhar aguçado de um bom mestre que o acompanhe e aconselhe, fica obrigado a alguns trabalhos de pesquisa quando se trata de escolher entre sinônimos.
A pesquisa etimológica é importante e árdua. Para ser boa requer se empreenda, na língua antiga, o mesmo esforço de buscar o sentimento vivo das palavras exigido pela língua em que se escreve. Ou isso, ou o autor recairá em etimologias simplórias, jogos de encaixar e desencaixar afixos, girar e substituir palavras feitas de plástico, com cores padronizadas.
O recurso “sinônimos” dos nossos processadores digitais de textos pode configurar outra armadilha do tipo, e assim também as definições lacônicas de alguns dicionários online. A verdadeira arte está em não empregarmos automaticamente as sugestões, mas averiguarmos qual o uso real das palavras e das frases feitas, seja por nossos contemporâneos, seja pelos escritores consagrados de nosso idioma.
De enorme valia pode ser o uso de bases de dados como o Corpus do Português. É preciso praticar um pouco até pegar o jeito de extrair dessa ferramenta todas as suas funcionalidades, mas o esforço será certamente recompensado. (TELG)

