Camilo Castelo Branco
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por Antônio Houaiss [1]
A importância de Camilo Castelo Branco, a importância da obra de Camilo Castelo Branco na literatura de expressão portuguesa vem sendo cotada com altas e baixas — desde seu tempo de vida. Essa flutuação provavelmente continuará por muito tempo, até que possamos todos, leitores e críticos, senti-lo e aferi-lo e comungá-lo “historicamente”: “historicamente” quer aí dizer que seu mérito não ficará assegurado apenas quando se tenha em vista o tempo, as circunstâncias e o meio em que produziu; quer antes dizer que seu valor se firmará e crescerá por certo na medida em que nós outros, leitores e críticos, nos compenetrarmos de nós mesmos como seres progressivamente conscientes, em cada momento de nossa estrutura vivencial e existencial, de nossa própria historicidade. E ante essa perspectiva não é improvável que Camilo se agigantará de novo, consolidando-se em nós o conceito de sua genialidade, como usuário da língua e da criação romanesca, ou novelesca, como se quiser — sem omitir, pelo menos, o grande polemista que foi, neste caso segundo as técnicas de atrabile e de retaliação personalíssimas que, essas sim, foram bem marcas do tempo em que viveu.
Para essa reavaliação, direi mais, pois importa mais, para essa redegustação de Camilo Castelo Branco será útil dissociá-lo de certos cotejos, ou pelo menos de certos modos de cotejá-lo. Não há, provavelmente, nada mais diferente de Camilo que Eça ou Machado de Assis. Querer, por conseguinte, saber qual dos três é maior, é propor um cotejo entre grandezas de natureza diferente — natureza em que algumas características diferenciais emergem de pronto: a tensa contenção reflexiva de Machado de Assis, a industriosa e aliciante construção de Eça e a destemperada e impetuosa produção de Camilo. Vê-los, sob tais aspectos, a cada um, maior do que os outros dois e daí depreender que esse um é maior do que os outros dois é vício metódico de falsa generalização.
Não sei como se excluiria, dos três, o lastro de moralismo que lhes pervade a obra. Entretanto, não sei como equiparar-lhes o moralismo. Pois parece mais ou menos conspícuo que, ao contrário dos outros de Camilo foi quase sempre, se não em função de situações sociais ‘ad hoc’ que lhe cumpria redimir ou reabilitar, um moralismo em causa própria, um moralismo ‘pro domo sua’. É que dificilmente se, encontrará uma biografia mais desgraçada e mais comprazida na própria desgraça que a de Camilo — no sentido de que parece que nenhum escritor se debruçou tanto sobre o cotidiano de suas próprias, desgraças vividas para delas derivar quase experimentalmente, sua própria obra, quanto Camilo. Entre nós, no Brasil, alguém poderia dele associar-se, a tal respeito — e esse seria Lima Barreto. Mas logo ressalta a diferença: é que, em última análise, a perspectiva de Camilo, justificatória e vindicativa, não se alçou além da problemática individualista, como se, em cada caso, visse os modos de ser do Homem intemporal, a-histórico, essencial, ainda que anedoticamente caracterizado e particularizado por uma aventura biográfica única, enquanto o nosso mulato — o segundo referido — não teve ilusões a tal respeito, atribuindo não pouco, senão que quase tudo, das mazelas e infelicidades dos seus heróis à própria estrutura social. Camilo, em última análise, ainda que por vezes (pois incidentemente nele há de tudo) pilheriasse de suas próprias íntimas convicções e ilusões, creu na redenção dos maus através da prédica dos bons — de que ele seria, afinal de contas, um porta-voz. Não associar, de outro lado, a tal respeito, o descomprometido ponto de vista cerebral e de Sírius de Machado, e a forte aproximação de uma visão crítica da sociedade de Eça de Queirós.
Camilo parece ter sido, assim, um feroz escritor participante. Em Eça, a perspectiva crítica da sociedade portuguesa do fim do século XIX é focalizada segundo um ponto de vista que totaliza uma classe a que o escritor sabia pertencer e do que não derivava nem orgulho nem engulho — antes certa comiseração sarcástica, com ela não se comprometendo, já que fadada a morrer algum dia por certo posterior à morte do próprio observador, Eça mesmo. Em Camilo, como saldo de sua imensa e não raro contraditória perspectiva, parece haver a (para nós, hoje) ingênua suposição de que, mercê de suas demonstrações de tortos e baixezas de certos homens (com a quase exclusão de todas as mulheres que, mesmo quando cavilosas, são quase sempre e sempre captadas como vítimas dos homens, no querer-lhes bem ou mal, por sempre querê-las patriarcalmente, isto é, como usadores de objetos) e mercê de apelos e pregações, diretas ou indiretas no curso mesmo das novelas ou romances, a esses mesmos e certos outros homens, se possa ele alçar corregedor social que ajude ao aprimoramento dos homens e, assim, da sociedade. Se o primeiro já não tinha ilusões quanto à formação histórico-social em que vivia e a que pertencia, ela mesma geradora das mazelas que ele revelava por debaixo e por dentro de aparências supostamente civilizadas, o segundo não só ainda tinha ilusões, mas tinha mais: tinha a esperança de que, redimindo seus heróis-vítimas pelas provas novelescamente aduzidas, se redimiria ele também, já que, na prova da bondade dos outros por ele revelada, havia a prova de sua bondade. Camilo era assim um crente, em última análise, na redenção social e individual, alheia e própria, pela pregação e exemplo morais, e deve tê-lo sido até o momento em que, aos sessenta e cinco anos de idade, desiludido da cura de sua cegueira, com o grande médico em que nutrira sua última esperança ainda à porta de casa, disparou contra si mesmo o tiro de revólver com que cortou uma das mais atribuladas vidas que se possa imaginar. Atribulada e, em função dessas tribulações, das mais fecundas, literariamente, de que se tem notícia em língua portuguesa.
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Vida que, por tão atribulada, foi certo a fonte, a matéria-prima, o exemplário de quase todas as situações — freqüentíssimas, aliás — de sofrimento, angústia, desespero, miséria, malogro, queda, dor, pranto, perda, mágoa, ressentimento, impecúnia, indigência, que perpassam por suas novelas, prevalecendo, quantitativa e qualitativamente, a todas as polares. Raros — e quando não raros, fugazes, rápidos, como que apenas referidos — os momentos de alegria, de felicidade, de placidez, de repouso físico ou espiritual, de grata resignação, momentos esses, assim mesmo, apenas trânsito para os outros, os carregados pelos diversos matizes do sofrimento.
Dessa vida cumpre que pincemos alguns momentos e fatos mais relevantes, contas de um rosário de dor, se aferidos alguns em função da sociedade e do tempo em que viveu, pejado, mais ainda do que continua hoje em dia, de toda gama de preconceitos e discriminações
A 16 de março de 1825 nascia, em Lisboa, como filho ilegítimo. de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco e Jacinta Rosa do Espírito Santo, ele com fumos de prosápia e nobiliarquia (que o próprio Camilo, mais tarde, iria cultuar, como um dos condimentos constantes de seu esforço de “classificação”), ela provavelmente uma, como ainda se diz, “criada” do emprenhador, que nem sequer pôde servir por muito tempo o filho, pois vinha a morrer quando este ainda não completara dois anos de idade, a 6 de fevereiro de 1827. O pai morrer-lhe-ia quando já havia feito dez anos Camilo — a 22 de dezembro de 1835. É Camilo então, com sua irmã Carolina, mais velha que ele quase quatro anos justos, posto aos cuidados de uma tia materna, Rita Emília, que vive em Vila Real de Trás-os-Montes. Não lhe terá sido amena custódia. Com doze anos apenas, pela primeira vez retorna a Lisboa, para saber com familiares outros paternos que destino dar à vida. Aos catorze anos, casada a irmã, acompanha-a a Vilarinho de Samardã, sempre em Trás-os-Montes, onde priva com o padre local, Antônio de Azevedo, que será a um tempo quem lhe ensina latim, o trívio e o quatrívio, e lhe passará a ser, talvez para sempre, um dos raros exemplos de pureza clerical nos personagens sacerdotais ‘à clef’ que atravessam sua obra. Em Samardã uma camponesa, Luísa dos Santos, lhe terá despertado pela primeira vez o sentimento de amor.
A 18 de agosto de 1841, com dezesseis anos, cinco meses e dois dias de vida, casa, em Friúme, com Joaquina Pereira, localidade do conselho de Ribeira de Pena aonde fora de visita mais a tia Rita. Entre a localidade de Granja Velha, no mesmo conselho, e novamente Vilarinho de Samardã, para onde teria sido obrigado a voltar por ter desagrado a senhor de terra de Granja Velha, já no primeiro ano de casado, se tanto no início do segundo, cai-se de amores por Margarida Maria Dias, a Maria do Adro, que a tuberculose levaria em breve.
Em 1843 o casal Camilo Castelo Branco está por março em Lisboa, para principiar a partilha da herança paterna. Lisboa, nessa ida, terá tido sabor novo para Camilo, que logo a ela retorna, mas sem mulher, onde se demora, longe dela, por sete meses, enquanto em Samardã a mulher lhe dá, a 25 de agosto de 1843, a filha. Nesse ano ainda matricula-se, sucessivamente, no Porto, para estudar medicina e engenharia, estudos que prossegue por 1844, indo só em férias a Vilarinho de Samardã.
Em 1845 aparecem as primeiras produções poéticas de Camilo, no Porto. Em 1846, na revolução da Maria da Fonte, faz-se miguelista (os biógrafos admitem que para lisonjear os tios absolutistas e reacionários). Novo amor: Patrícia Emília, com quem foge para o Porto: vai parar na cadeia, por 11 dias, já que o tio afim, João Pinto da Cunha, marido de Rita, os acusa de furto, ficticiamente, para obstar ao desvairo. Solto, não abre mão de Patrícia Emílio.
Em 1847, por fins de setembro, morre-lhe a mulher legítima, Joaquina Pereira. Em 1848, pelos começos de março, é a vez da sua filha com a falecida. Mas em fins de junho nasce-lhe compensatoriamente Bernardina que vingará, de Patrícia Emília. É ano em que publica ainda poemas e colabora em jornais, havendo partido para o Porto. Em 1849 teria vivido do jornalismo e de amigos e então se situaria uma primeira tentativa de suicídio. É no ano seguinte, 1850, com vinte e cinco anos de idade, que terá conhecido a mulher de sua vida — Ana Plácido, solteira ainda, que viria a casar, ainda nesse ano, com Pinheiro Alves, levando Camilo, arrasado pela paixão, a preferir transferir-se para Lisboa, onde escreve sua primeira novela, ‘Anátema’, que sai em folhetins na revista ‘A Semana’. É o ano em que se evade, ou tentaria fazê-lo, do mundo, entrando para o seminário episcopal, no Porto, mas ano em que se liga também a uma freira, madurona, cinqüentona, Isabel Cândida Vaz Mourão. Em 1851 publica-se o ‘Anátema’ e um volume de versos, ‘Inspirações’, dedicado a Ana Plácido, bem como artigos de crítica e polêmica. De 1852 a 1855 mantém intensa atuação jornalística ao mesmo tempo que começam a sair com pequenos intervalos livros seus, em prosa ou em verso, bem como folhetins. É em 1855 que alimenta o plano de vir ao Brasil, como adido da missão diplomática portuguesa no Rio de Janeiro, plano que abandona no ano seguinte, visto que o distanciaria da visão de Ana Plácido e da boêmia em que levava compensatoriamente ou cumulativamente a vida. Tudo isso não o impede de prosseguir em sua produção, poética, dramatúrgica e novelesca, sem falar do jornalismo.
No ano de 1857 aperta o cerco a Ana Plácido, produz mais novelas, mais dramas e mais jornalismo. No ano seguinte, Ana Plácido rende-se — enfim, para só abandonar o marido no ano seguinte. É quando Camilo, Ana Plácido e o filho desta (a quem se ligará Camilo por verdadeira devoção paternal) se transferem para Lisboa. O marido abandonado inferniza com processos a vida da parelha, que retorna ao Porto. Ano estéril, com o seguinte, para Camilo: é que em 1860 Ana Plácido é presa, em junho, enquanto Camilo o é em outubro, como em outubro do ano de 1861 é que são absolvidos, surpreendentemente, vista da lei e do processo vigentes. É verdade que o próprio rei, D. Pedro V, o visitara na cadeia: Camilo já era celebridade nacional, ampliando-se-lhe o círculo de adeptos com os reveses passionais. O ano de cadeia lhe é fecundo, inclusive com a talvez mais célebre popularmente de suas novelas, escrita em quinze dias, ‘Amor de perdição’.
É ao sair da prisão que Camilo principia, entretanto, a desenvolver sua mais intensa atividade literária, saindo-lhe os títulos em série. Já agora a literatura é o seu meio de vida, não apenas para si, senão que para uma auréola familiar que começa a crescer. Já em junho de 1863 lhe nasce o primeiro filho de Ana Plácido, Jorge, que, de excepcional, vai evoluir para mentecapto caracterizado. Nesse ano transfere-se, depois de uma estada doente em casa de saúde de Lisboa, para São Miguel de Seide. Aí, em setembro, nasce-lhes o segundo filho, Nuno, que irá a levar vida doidivana e estróina, ensejando, de futuro, a Camilo, um rapto de uma rica herdeira que pelo rapaz se enleara, a fim de consolidar-lhe um digno pecúlio de golpe-de-baú. Novelas sucedem-1he em 1864, inclusive ‘Amor de salvação’, ‘A filha do Doutor Negro’, ‘No Bom Jesus do Monte’.
Por 1865 reside com a família no Porto, em cujo último mês casa filha Bernardina. Saem-lhe ‘O esqueleto’, uma comédia e uma coletânea de artigos religiosos. Só por março de 1886 é que retorna para São Miguel de Seide. Saem-lhe dentre outros livros ‘A queda dum anjo’, ‘A enjeitada’, ‘O santo da montanha’. Em 1867, não obstante agravar-se-lhe a doença, saem-lhe novos livros, inclusive ‘O senhor do paço de Ninães’. Em 1868 publica vários livros, mas no ano de 1869 só lhe saem ‘Os brilhantes do brasileiro’. É por então que a loucura do filho, Jorge, se torna inequívoca. Em 1870 escreve três trabalhos — ‘O condenado’, ‘Voltareis, ó Cristo?’ e ‘Livro de Consolação’ — motivados pelo drama de seu grande amigo Vieira de Castro, que assassinara a mulher, por adultério; além deles saem-lhe outros, dentre os quais ‘A mulher fatal’. O ano seguinte lhe traz o exílio de Vieira de Castro para a África, enquanto o filho de Ana Plácido, seu filho de afeto, emigra para a Angola para fazer a América, perdão, África. Em 1872 também pouco publica, relativamente, mas recebe a nova da morte de Vieira de Castro, compensada pelo retorno, malogrado, de Manuel Plácido da África. E também o ano em que, por fevereiro, se entretém, em Lisboa, com o nosso Pedro II, que com Camilo se corresponderá mais de uma vez.
Continua, pelos anos seguintes, o alternar sua vida entre o Porto e São Miguel de Seide — já é nessa altura “o solitário de São Miguel de Seide” — e a publicar livros, dentre os quais ‘O regicida’ e ‘Noites de insônia’. Mas em 1875 traslada-se para Coimbra, com o intuito de aí ter os filhos a estudar. A saúde começa a deteriorar-se-lhe, de um modo geral, e em particular a cegueira já se faz ameaçadora. Em 1877 está em São Miguel de Seide, é internado em casa de saúde de Braga, morre-lhe Manuel Plácido e conclui a publicação das ‘Novelas do Minho’. O ano seguinte lhe é estéril, mas em 1879 e 1880 continua a publicar matéria original. Os dois anos seguintes são-lhe mais que de hábito sentimentalmente atribulados, pelos filhos: a loucura de Jorge torna-se mais aguda, Nuno leva-o a planejar o rapto da com quem se casa e Camilo expulsa-os de casa; publica, ainda assim, algo, inclusive ‘A brasileira de Prazins’. No ano de 1883 consegue publicar mais dois livros, mas é obrigado, para saldar dívidas, a vender sua biblioteca, com cerca de cinco mil livros. No ano de 1884 morrem-lhe sucessivamente a nora e a neta que tivera com Nuno.
Já por 1884 lê e escreve muito mal, pelo estado dos olhos. Isso agrava-se-lhe por 1885, quando lhe morre a filha Bernardina, que pouco antes lhe dera uma neta. Patrícia Emília, a mãe de Bernardina, morre também nesse ano. É o ano em que recebe o título de visconde de Correia Botelho. No ano seguinte, Jorge é internado em hospício. A idéia de suicídio lhe vem de novo, mas publica, ainda assim, alguns livros, inclusive ‘Vulcões de lama’. Em 1887 não consegue publicar nada, em 1888 publica ‘Nostalgia’, versos; em 1889, em Lisboa, é objeto de consagração do mundo literário português, e D. Pedro II, destronado, visita-o. Em 1890, entre o Porto e São Miguel de Seide, ainda publica os versos ‘Nas Trevas’. A 1.° de junho desse ano é examinado, em São Miguel de Seide, pelo oftalmologista Magalhães Machado, que o teria tratado com extremo cuidado mas de quem não teria podido obter palavras de encorajamento: a cegueira lhe era irreparável. Enquanto a mulher acompanha o especialista à porta de casa, Camilo mete pelo ouvido direito adentro a bala de revólver de que morreria.
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Se a apreciação do “criador” de ficção, em Camilo, tem variado, desde o advento, ainda em sua vida, de Eça de Queirós e do realismo e naturalismo portugueses, o usuário da língua portuguesa tem resistido mais às flutuações, havendo quase unanimidade no realçar-lhe essa qualidade: credita-se-lhe, a um tempo, um dos mais ricos e adequados vocabulários da língua, e uma notável agilidade sintática. A tal respeito, o que já foi dito e exposto é pouco ou nada ante o que se poderá ainda revelar. É que os estudos da linguagem camiliana são ainda por ora esparsos, assistemáticos e fragmentários em sua amostragem. Isso deve ser em grande parte por faltar o elemento de base, um cânon textual da obra — aspiração que principia a tomar corpo em Portugal e que dará a Camilo o que deverá dar a Machado de Assis a Comissão que traz, no Brasil, o nome deste. Mas o grau de dificuldade do trabalho ecdótico para com a camiliana e incomparavelmente maior, pelo aspecto quantitativo, que em Camilo é multiplicado.
A riqueza da linguagem camiliana tem, porém, uma tal vitalidade, no geral, e é tão comunicante, que Camilo pode ser lido ou ouvido por leitores ou ouvintes portugueses semiliteratos com quase completa intelecção. Que se me permita um depoimento autobiográfico, válido para o caso: o primeiro “emprego” remunerado do signatário destas linhas terá seguramente sido o de ler, para suados e cansados assalariados portugueses do então fazia pouco inaugurado Copacabana Palace Hotel, que viviam em “república” no Leme, no Rio de Janeiro, durante um par de horas a cada dia, à noitinha, romances e romances de Camilo Castelo Branco. Seus ouvintes, na maioria — seriam oito a nove — eram analfabetos, ou pouco mais (ou menos); mas sua atenção, roubada ao sono e ao mais que merecido repouso, era infatigável: lembro-me de que se tentou também algo de Eça, de João Grave, de Antero de Figueiredo — que sei eu; mas só Camilo, de forma insuperável, fazia-os comungar com as situações, os heróis, os algozes, tomando partido, esperançando-se, desesperando-se, suspirando, sorrindo (pouco), chorando (não raro). Grande rapsodo de sua gente, sua gente compreendia-o e compreendê-lo-á por muito tempo ou sempre.
(Ironicamente, porém, é essa mesma riqueza que obriga a todos nós brasileiros — pois os portugueses mesmos não caíram, no geral. na esparrela — quando queremos ser ortógrafos, a pôr o chapeuzinho do circunflexo em “aquele” e “aqueles”, por causa do desengraçado verbo “aquelar” que Camilo julgou de bom alvitre usar — minhotismo (talvez) de que não se encontrará exemplo escrito antes dele.)
Mas é mister lembrar que desde seus últimos tempos de vida Camilo já havia sido elevado à condição de árbitro ou pelo menos de modelo vivo do castiço em língua portuguesa. Lê-lo, para assimilar-lhe a lição vivente, passou num dado momento a ser condição necessária para o domínio do bom e rico uso da língua. Criando a sua obra na transição do romantismo — em Portugal como no Brasil tão liberto de normatividade, sobretudo entre nós — para o realismo, sua obra se criava paralelamente quando a normalização de nossa gramaticalização se fazia, sob inspiração de um nítido (para nós outros hoje em dia) complexo de subdesenvolvimento colonialista, segundo padrões rígidos e não raro falsos e preconceituais — e a lição de Alexandre Herculano, relativa e comparativamente tão pobre quanto à linguagem, não servia senão vicariamente. Camilo era através de quem se podia, de golpe, incorporar toda a expressividade, riqueza e pureza do seiscentismo, dos Bernardes, dos Luíses de Sousa, dos Filintos ‘et aliios’.
Mas sob o capítulo da língua, não se nutram duas ilusões. A primeira é que Camilo não foi um “obediente” usuário da língua, aos padrões dos mestres que lera e assimilara. Muito pelo contrário, é de ver-se-lhe a sempre presente intuição, confirmada pela sua prática mesma da língua, de que esta não é apenas um elenco ou repertório do já havido que cumpre conhecer e usar, mas antes um sistema que, apreendido em toda a sua funcionalidade, “abre” continuas possibilidades ao usuário, já agora ele também criador de coisas e palavras que nunca antes haviam tido a oportunidade de serem ditas (ou pensadas), mas que, ditas ou escritas, eram ouvidas e lidas como se sempre tivessem sido ouvidas e lidas. A segunda é que Camilo, como tanto escritor moderno por aí, em Portugal e no Brasil, não é um escritor arrevesado pelo prazer do arrevesamento pelo arrevesamento: quando parece havê-los, sobretudo para nós brasileiros, há em verdade uma aproximação saborosa do coloquialismo (quer urbano, mais raro, quer provincial, muito mais freqüente) — o que faz do seu diálogo (não apenas entre os personagens, senão que, muitas vezes, dele Camilo para conosco, leitores), em certas novelas, o equivalente da caracterização naturalista ou realista dos personagens em autores subseqüentes.
Coloquialismo tramontano, duriense ou minhoto, isto é, das localidades provinciais em que passou a sua formação e de onde derivou, no fundamental, sua temática; pois que, se os motivos básicos de Camilo são a luta pela vida, a caça do amor, o lugar ao sol, a busca da felicidade, a rapina do dinheiro, a classificação pela riqueza, as canseiras do trabalho, a exploração dos ( = pelos) poderosos, a exploração dos ( = sobre) os fracos, tristes, miseráveis, pobres — quantitativamente, como era “natural”, predominantes —, sua temática se erige sobre um espectro de experiências autobiográficas — donde, aliás, a extrema validade documental para refletir a sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX, com os ricaços por herança, os ricaços (quase sempre) “brasileiros” (que o são quase sem exceção no sentido de portugueses broncos mas avidamente espertos enriquecidos sabe Deus como no Brasil e revoltos para ostentar e gozar de sua golconda).
Como Balzac — afinal de contas, a associação entre a obra de ambos os escritores é já um lugar comum, realmente válido, inclusive na própria intenção, em certo momento, de Camilo —, como Balzac para com a França, Camilo oferece um painel quase completo de Portugal na segunda metade do século XIX. Menos isento, menos imparcial, menos “cientista” do social (pois acima de tudo foi um moralista ou moralizante) do que Balzac, é possível que Camilo dê um painel sobretudo triste, doloroso e sofrido: em Camilo chora-se, aos punhos, às bátegas, muito mais que em Balzac.
De outro lado, sua parcialidade não teve outra conseqüência fecunda: a de fazê-lo porta-voz de uma classe. Desse modo, o moralismo de Camilo foi ambíguo: esbarrava com as convenções, na prática e nas novelas, na vida e na ficção, ao mesmo tempo em que, contraditoriamente, se compadecia com todas as mostras externas de classificação social. Desta mesma coleção [Coleção Prestígio, da Ediouro], um dos primeiros títulos camilianos é ‘Agulha em palheiro’, assinado no Porto, em 1865 e dedicado a Antônio Feliciano de Castilho. Trata-se de uma história de amor: um jovem que, “ascendendo” pelo estudo, aspira a uma jovem herdeira; pelo amor puro que lhe dedica, chega à felicidade: mulher, filhos, um bom e seguro pecúlio dotal e todas as dignidades do mundo: salva a aparente excepcionalidade o título — “Agulha em palheiro”. Mas iludir-se-ia o leitor se supusesse que nesse sentido; a “agulha” é a constância no amor.
Aproxima-se o momento em que Camilo voltará à tona como o merece, na literatura de expressão portuguesa.
[1] Texto apresentado como introdução ao livro “Os brilhantes do brasileiro”, publicado pela Ediouro.

