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(Trecho extraído do Capítulo 7 de Ortodoxia)
Dizer que tudo ficará bem de qualquer forma é uma afirmação compreensível: mas não pode ser vista como o soar de uma trombeta. A Europa deve na verdade enfatizar a possibilidade da perdição; e a Europa sempre a enfatizou. Nisso sua religião superior se une com todos os seus romances mais baratos. Para o budista ou para o fatalista oriental, a existência é uma ciência ou um plano, que deve acabar de determinada forma. Mas para um cristão a existência é uma estória, que pode acabar de qualquer forma. Em uma novela emocionante (esse produto puramente cristão) o herói não é devorado pelos canibais; mas é essencial para a existência da emoção que ele possa ser comido pelos canibais. O herói deve, por assim dizer, ser um herói comestível. Da mesma forma, a moral cristã sempre disse ao homem não que ele perderia sua alma, mas que deveria cuidar para que não a perdesse. Na moral cristã, em suma, é perverso chamar um homem de “condenado ao inferno”: mas é estritamente religioso e filosófico chamá-lo de condenável.
Todo o cristianismo se concentra no homem na encruzilhada. As filosofias vastas e rasas, as grandes sínteses do embuste, falam sobre eras, evolução e desenvolvimentos últimos. A filosofia verdadeira se preocupa com o instante. Será que o homem tomará esta estrada ou aquela? Essa é a única coisa a se pensar, se você aprecia pensar. É muito fácil pensar nas eras e qualquer um pode fazê-lo. O instante é realmente terrível: e é porque nossa religião sentiu intensamente o instante, que lidou bastante em sua literatura com a batalha, e na teologia com o inferno. Está cheia de perigos, como um livro de garotos: está numa crise imortal. Há grande similaridade real entre a ficção popular e a religião dos povos ocidentais. Se você diz que a ficção popular é vulgar e espalhafatosa, somente diz o que os chatos e bem-informados dizem sobre as imagens nas igrejas católicas. A vida — de acordo com a fé — é bem semelhante a uma estória seriada em uma revista: termina com a promessa (ou ameaça) de “continuar no próximo capítulo”. Com uma nobre vulgaridade, a vida também imita a novela seriada e acaba no momento mais excitante. Pois a morte é distintivamente um momento excitante. Mas o ponto é que uma estória é excitante porque tem em si um elemento forte de vontade, daquilo que a teologia chama de livre-arbítrio. Você não pode terminar uma soma como quiser, mas pode terminar uma história como desejar. Quando alguém descobriu o cálculo diferencial, havia somente um cálculo diferencial a ser descoberto. Mas no mesmo trecho em que Shakespeare mata Romeu, ele poderia tê-lo casado com a velha ama de Julieta se assim se sentisse inclinado. E a cristandade se excedeu no romance narrativo exatamente porque insistiu sobre o livre-arbítrio teológico. É um grande assunto, só que pende demais para um lado da estrada para ser adequadamente discutido aqui; mas é a objeção real à torrente do falatório moderno sobre tratar o crime como uma doença, sobre tornar uma prisão meramente um ambiente higiênico como um hospital, onde o pecado pode ser curado por lentos métodos científicos. A falácia da coisa é que o mal é uma questão de escolha ativa, enquanto a doença não é. Se você diz que curará um devasso como cura um asmático, minha resposta ingênua e óbvia é: “Produza pessoas que querem ser asmáticas como tantos querem ser devassos”. Um homem pode se deitar e se curar de uma moléstia. Mas não pode se deitar se deseja se curar de um pecado; ao contrário, ele deve levantar e saltar violentamente. O argumento completo é de fato perfeitamente expresso na própria palavra que usamos para um homem em um hospital; “paciente” está no modo passivo; “pecador” está no ativo. Se um homem deve ser salvo da gripe, ele pode ser paciente. Mas se deve ser salvo de uma farsa, ele só pode ser impaciente. Deve estar pessoalmente impaciente com a farsa. Toda reforma moral deve começar na vontade ativa e não na passiva.
Gilbert Keith Chesterton, Ortodoxia (pp. 286-289). Edição do Kindle. — OBS.: Não recomendo particularmente esta tradução, que só cito por ser a que tenho em formato digital.

