*
[SOBRE O MODO VERBAL SUBJUNTIVO (CONJUNTIVO)]
🔸 Se o modo do indicativo exprime a realidade do fato, considerado em relação ao passado, presente e futuro, o do conjuntivo¹ [subjuntivo] exprime a sua possibilidade, com todas as consequências que essa atitude de incerteza pode trazer para o espírito do homem: o sentimento da dúvida, o desconhecimento, o desejo, a surpresa, a probabilidade, etc. De um modo geral, exprimindo o conjuntivo [subjuntivo] o ato concebido pelo espírito, adquire por isso mesmo um tom abstrato e intelectual, que o toma pouco estimado da linguagem corrente. Vejamos este exemplo:
«Como o encontrasse a ler, não lhe disse nada».
A construção está correta: o nosso espírito quer significar não tanto o ato de ele estar a ler, como a razão, o motivo de ele estar lendo. Por isso a oração de ‘como’ é chamada causal. Mas sentimos que a construção é demasiado abstrata e preferimos dizer de outra maneira, embora talvez sem o mesmíssimo sentido: «Como o encontrei a ler, não lhe disse nada»; ou: «Encontrando-o a ler, não lhe disse nada»; ou ainda: «Encontreio-o a ler e não lhe disse nada». Do conjuntivo [subjuntivo] passou-se para o indicativo e do imperfeito passou-se para o perfeito. Ficou a ideia mais clara, perdendo embora um pouco da sua subtileza.
🔸 Os Clássicos, que usavam mais do que nós o conjuntivo [subjuntivo], talvez sob a influência da sintaxe latina, notaram o caráter intelectual desse modo e já procuravam substituí-lo. Um exemplo de Fr. António das Chagas:
«Acho-me destas bandas, e é provável que não hei de voltar a elas».
A construção lógica seria antes ‘volte’. O escritor preferiu usar o futuro perifrástico, transformando uma dúvida numa espécie de certeza futura. O mesmo se dava com a locução ‘é possível’, que hoje todavia construímos sempre com o verbo no conjuntivo [subjuntivo]. O Padre Antônio Vieira usava nestes casos o indicativo, quando queria acentuar a realidade do fato e exprimir, por contraste, a surpresa provocada:
«É possível que os peixes ajudam à salvação dos homens, e os homens lançam ao mar os ministros da salvação ?»
Hoje, diríamos ‘ajudem’ e ‘lancem’, por um regresso à lógica e ao pensamento abstrato. Essa tendência para o conjuntivo [subjuntivo], que diminui o pitoresco, a visualidade do estilo, aparece, por exemplo, na linguagem de Teixeira-Gomes, com uma insistência surpreendente:
«Depois do jantar, como suceda que procuremos um banco na praça Gil Vicente. – Mas, porque em todas essas igrejas os mesmos variados estilos se encontrem representados».
É uma das provas, e das mais curiosas, da ordenação lógica, do “classicismo” do seu estilo.
🔸 Vejamos agora este modo corrente de dizer:
«Se tem plantado essa árvore, já tinha ameixas para o ano!»
O modo lógico, gramatical de dizer isto, seria: «Se tivesse plantado essa árvore, já teria ameixas para o ano!» Mas a linguagem familiar, que se move por razões que não são propriamente as lógicas, prefere às incertezas e hipóteses do conjuntivo [subjuntivo] e do condicional as realidades presentes do indicativo. Sempre a mesma tendência para reduzir passado e futuro ao presente, e transformar a dúvida mortificante em certeza consoladora.
Extraído de: Manuel Rodrigues Lapa, Estilística da Língua Portuguesa (Capítulo 11, Título 6, pp.152-153). São Paulo: Martins Fontes. 1988.
*
PARA SE APROFUNDAR…
[MANUEL SAID ALI – “INDICATIVO E CONJUNTIVO”]
Primeiro que tudo convém esclarecer uma questão de terminologia. Indicativo é termo consagrado pelo uso. À duvida entre conjuntivo, que significa “modo unido, conjunto” e subjuntivo, que indica “modo subordinado “, responde-se que nenhum dos dois termos exprime com exatidão o que seja o respectivo modo verbal.
Ele não só occorre em orações subordinadas, mas, em vários idiomas, também em orações principais, e este emprego em orações principais é justamente o mais antigo. Nem a linguagem creou² um modo especial para o verbo da oração dependente, nem esta função é privativa do conjuntivo. Há muitos casos de oração subordinada em que,
pelo contrário, o uso do indicativo é simplesmente obrigatório. Dada a liberdade de escolha, pois não pensamos em propor um termo novo que ninguém aceitaria, decidimo-nos pelo nome conjuntivo.
Com o verbo no indicativo se enuncia a certeza ou realidade do fato; por oposição de idéias, entende-se que o conjuntivo será o modo da irrealidade ou incerteza. Mas este conceito que só visa o polo contrario não basta para definir o emprego do conjuntivo. Trata-se de um problema complexo, a começar pela circunstância que às funções proprias do cunjuntivo se ajuntaram em latim ainda as do optativo, o qual em outros idiomas indo-europeus constituia um modo à parte. Considerando certos casos de emprego de conjuntivo que especialmente ferem a atenção, somos tentados a classificá-lo em volitivo, potencial, optativo, deliberativo, concessivo, prospectivo, hortativo, etc.; mas não convém insistir muito na especificação de tais categorias, pois não há limites seguros que as separem umas das outras. Deve-se trabalhar por enquadrá-las todas em duas ou três classes gerais. […]
Extraído de: Manuel Said Ali Ida, Gramática Histórica da Língua Portuguesa (Livro 2 : Sintaxe. Capítulo: “Emprego dos Modos”. Título “b”: Indicativo e Conjuntivo)
________________
[¹] “Conjuntivo” — Assim é chamado em Portugal o modo “subjuntivo” dos brasileiros. Os dois nomes remetem à idéia da conjunção subordinativa, elemento que mais frequentemente rege (ou seja, exige) o modo subjuntivo. Também, com um exercício de imaginação, podemos dizer que o conjuntivo é o modo em que pomos o verbo na dependência da uma conjuntura, e que o verbo no subjuntivo está sempre sob e junto, ou seja, subordinado e acoplado a uma oração principal, a um termo indicativo de incerteza ou probabilidade etc.
No trecho de Lapa ora transcrito não há menção ao termo “subjuntivo”, que fizemos constar entre colchetes sempre junto ao original “conjuntivo”.
São truques para ajudar na memorização. (Nota deste Blog)
[²] “Creou” — Isto é: “criou”. Said Ali ressalta na sua Gramática Histórica uma difereça semântica entre as formas “crear” e “criar”, a qual não cabe desenvolver aqui. (Nota deste Blog)


Seu blog é muito bom. Adorei.
CurtirCurtido por 1 pessoa
Olá, Nayara. Seja bem-vinda!
Obrigado pelo seu comentário. Caso tenha sugestões de temas, pode mandar por aqui. Abraços.
CurtirCurtido por 1 pessoa