P – 9. Corte todas as palavras que você nunca cortou antes

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Em matéria de vocabulário, um princípio: CORTE todas as palavras que você nunca cortou antes.

– I – Ascaris lumbricoides, deveras

Um tempo atrás, sugeri neste blog que o escritor dedicado acabará criando para si uma coleção de figurinhas, um banco com variadas formas de expressão e estilo extraídas de bons autores, para ajudá-lo a compor seus próprios textos.

Alguns poderiam ler isso de forma imprecisa e começar a colecionar clichês. Paciência. Gosto é gosto, mau gosto é mau gosto, e sempre haverá aqueles que sentirão atração particular por figuras surradas e idéias de pouco valor.

Mas há o pior, e é dele que quero tratar hoje. Falo das extravagâncias verbais, da adesão arbitrária ao vocabulário raro, exótico. Daquela palavra que foi lida nalgum autor bom ou medíocre, antigo ou moderno, e causou não-sei-que impressão forte de sapiência ou de ironia ou de profundidade mística, gravando-se numa esquina do cérebro e ficando-se lá, a pulsar e repetir-se, como aqueles vocábulos que assediavam o magistrado Schreber durante sua doença nervosa.

Exibe-se, o verbetezinho. Impõe-se, e coça, e cicia… 

Tive um desses na juventude: “deveras”. Onde contraí tal nematódeo, não sei; sei que o bicho se instalou nas dobrinhas da minha linguagem juvenil, e ia-se arrastando e contorcendo, balançando o rabo (que era seu corpo todo) para fazer-se visto, e não havia uma vez que eu não pensasse pendurar um “deveras” no texto que compunha, ainda que fosse uma conversa de MSN Messenger (que aliás, foi quem inventou a conversa com “figurinhas”).

A frase saía já troncha, já empafiosa, já (e este é o mais nocivo) já impressionante. A palavra, alguns não na entendiam, outros não na aprovavam, e uns poucos decidiam julgá-la muito sonora e chique, como eu também julgava. Esses talvez pinçassem o parasita “deveras” e, aproximando bem o rosto, mordiscassem-lhe a pontinha do rabo, ou um pouco mais que a ponta, experimentando. Quinze dias depois, ascaridíase vocabular, deveras!

É preciso, no entanto, falar sério sobre essa analogia, porque “deveras” não é um nematóide linguístico. O mais provável é que inexista algo como um nematóide linguístico — se bem que, até hoje, “dessarte” nunca se-me tenha mostrado palavra justificável, em contexto nenhum. 

Talvez o problema com “deveras” e outros lexemas seja o mesmo das ostras ou do peixe cru. A palavra é então o alimento, não o agente patógeno. Há palavras feijão com arroz e há palavras raras, cuja ingestão exige parcimônia, e cuja seleção e preparo demandam experiência e concentração. Não é a palavra-iguaria em si que faz mal; mas ela pode causar congestão por seu consumo desordenado, ou intoxicação por um erro na forma como foi escolhida e enunciada.

O problema está no consumo, isto é, no nosso modo de ler e ouvir. E está na oferta, isto é, no nosso modo de escrever.  Está em não recorrermos sempre a esse poderoso digestivo que é o dicionário, nem ao cozimento completo do texto promovido durante a revisão.

Se naquele tempo eu compreendesse o que é ler de verdade um dicionário, e tivesse notícia de qual era o melhor para consultar, e não desdenhasse da gramática nem fosse apressado e presunçoso demais com a língua… Talvez eu tivesse aberto o Aulete (original) e aprendido:

▶ adv. || sinceramente; verdadeiramente; realmente; muito; demais: 

◽ Não há religiosos que mais deveras honrem e manifestem a potência criadora. ( Castilho. ) 
◽ Que lhe fizessem comédias, que haviam de ser portuguesas deveras. (Garrett.) | 

▶ (Bras.) Às deveras, (loc. adv.) o mesmo que deveras: 

◽Vinha muito risonha… perguntando se estava disposto às deveras. (Valdomiro Silveira, Caboclos, p. 190, ed. 1920.) F. De+veras.

O que o bom dicionário nos mostra é que as palavras têm vida, têm história. Têm certo hábito de andar umas com as outras, certas sutilezas e caprichos. Que têm também seus momentos marcantes nesse longo passado, como belos porta-retratos na parede: “Deveras com Castilho”, “Deveras com Garrett”… 

Nem lombriga, nem ovo com gema mole: essa palavra tinha alma, era como gente! E eu a fazê-la de isca no anzol, espetada sempre na pontinha das frases, após a vírgula, como se fosse um sorriso pimpão ou um tapa na mesa… Deveras! Deveras!

– II – Corte, ressurreição e reencarnação.

Comecei este artigo com uma regra, que repito agora:

Em matéria de vocabulário, um princípio: CORTE todas as palavras que você nunca cortou antes.

É o que eu deveria ter feito com “deveras”. É o que fiz e sigo fazendo com “lavoura”, simplesmente porque essa palavra me parece bonita demais para figurar em algum texto meu (esta vez não conta). É, evitados por óbvio os exageros, um dos melhores processos disponíveis para cozermos nosso vocabulário.

Eis a receita:

▶ 1) Quando revisar o texto, corte as palavras que souber que está usando pela primeira vez. Corte-as sem tergiversar, corte-as com um risco duplo.

▶ 2) Daqui a três dias você vai revisar o texto novamente e, quem sabe, aquela palavrinha ressuscite. Sim, elas podem ressuscitar! — mas não sem um ritual apropriado, que se chama dicionário, pesquisa, comparação.

▶ 3) Na revisão final, experimente de novo a textura e o sabor do vocábulo, pela leitura em voz alta

Se o ritual terminar com a palavra retornando do mundo dos mortos, essa já não será sua primeira vida, o que lhe dará um salvo-conduto para a regra em epígrafe. Aliás, é um bom indicativo perceber que ela não volta exatamente como antes. Volta corpórea ainda, material ou moterial (como brincava o dr. Lacan), porém não bem com o mesmo corpo e aspeito que tinha. Volta um tantinho como Gandalf depois de sumir em Khazad-dûm. (Mas calma lá: eu disse “um tantinho como…”)

Isso tudo falando em várias revisões sequenciais. Se você só fizer uma, o destino da palavrinha é o undiscovered country, dormindo e sonhando com reencarnar num texto futuro. Pois, insisto, ela deve morrer na primeira revisão.

Por fim, para aqueles que não revisam, absolutamente… a estes só me resta recomendar o palavreado mais básico possível, senão até o mais infantil. Isso, ou passar vergonha.

– III – Conclusão: opulência e ridículo

Qualquer pessoa alfabetizada pode e deve enriquecer seu vocabulário. Lembremos porém que a verdadeira riqueza deriva do trabalho honesto e consistente; o que vem fácil, vai fácil. 

É preciso ler muito, é preciso ponderar, é preciso pesquisar. É preciso reencontrar as palavras algumas vezes antes de dá-las por ganhas, antes de considerar que estão disponíveis em nosso acervo particular.

Quando o assunto é vocabulário, a opulência está sempre a um passo de cair no ridículo.

Palavras raras na pena de um escritor preguiçoso são como crianças maquiladas, por suas próprias mãos, diante dum espelhinho de pataca.

– IV – Apêndice: figurinhas extras com “deveras”

Quinze anos esperei por este momento em que enfim poderia trazê-lo de volta ao reino dos viventes. 

Mas nada de velas bruxuleantes, compasso ou copo de cristal, apelos guturais e estrela em giz! Vamos invocá-lo como bons cristãos: de boamente lendo e meditando à bofé; respeitando deveras o espírito da língua e a inteligência dos que escreveram antes de nós.

▶▶A) Já citados – dicionário Aulete digital, “deveras”

🐛 “Estes conventos-palácios, estas cercas-principados e paraísos, estas grossas rendas, por que se não aplicaram a abrigar e manter, isto é, a salvar, recompensar, e aproveitar, poetas, artistas, e sábios, que são, cada um a seu modo, outros tantos solitários por vocação, e que do fundo dos seus ermos encantam o mundo com prodígios? Não há Religiosos que mais deveras honrem e manifestem a Potencia Criadora. ”
(António Feliciano de Castilho, A Chave do Enigma [cit. por Aulete, ‘deveras´, verb.orig.]) 

🐛 “Com o dinheiro que ele suava para as óperas italianas, para castrados, para maestro e maestrinos, podia ter quatro teatros nacionais: e o Garção que lhe fizesse comédias, que haviam de ser portuguesas deveras, porque o Garção era português às direitas.”
(Almeida Garrett, Um Auto de Gil Vicente [cit. por Aulete, ‘deveras´, verb.orig.])

🐛 “Vinha muito risonha… perguntando se estava disposto às deveras.”
(Valdomiro Silveira, Caboclos [cit. por Aulete, ‘deveras´, verb.orig.])

▶▶B) Outros, “deveras”

🐛 “São muitos e mui cruéis os golpes por todo o corpo, que não passa o negócio em visão nem sonhos, mas vai tão deveras que se ouvem as pancadas por fora da igreja e espertam a elas os vizinhos.”
(Lucena, Hist. da Vida do Pe. São Francisco Xavier)

🐛 “Segunda: que os governadores e capitães-mores que vierem a este Estado sejam pessoas de consciência; e, porque estas não costumam vir cá, que ao menos tragam entendido que mui deveras hão-de ser castigados se em qualquer cousa quebrarem a dita lei e regimento.”
(Pe. Antonio Vieira, Cartas).

🐛 “Seria anúncio de amor? Mas ele tinha amado, amado muito e deveras.. e cuidava amar ainda, e devia amar; por quanto há sagrado e santo aos deveres do coração, era obrigado a amar ainda. Oh obrigações de amor, obrigações de amor! se vós não sois, se vós já não sois senão obrigações…”
(Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra)

🐛 “Não obstante, o descrédito do seu clássico deveras lhe doeu, mormente pelo tom de mofa com que o cirurgião enxovalhou as cãs do honrado e lusitaníssimo escritor Luís Mendes.”
(Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo

🐛 “Ande lá, ande lá, que, enquanto não cair deveras doente, não há-de escarmentar, já vejo.”
(Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor)

🐛 “Uma parte da alma de Renan vacila deveras entre a vida mundana, que lhe não oferece as delícias íntimas, e a vida eclesiástica, onde a condição terrena não corresponde muita vez ao seu ideal cristão.”
(Machado de Assis, “Henriqueta Renan”)

🐛 “Tinha os olhos úmidos deveras; levava a cara dos desenganados, como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças, e vê sair branco o maldito número — um número tão bonito!”
(Machado de Assis, Dom Casmurro)

🐛 “[…] Franziu de novo o nariz, torcendo o pé: Diabo! Decididamente tens o pé muito seco… e isto está me incomodando deveras. Até logo, às cinco. E foi-se.”
(Coelho Neto, A Conquista)

🐛 “Lembro-me por exemplo de que, em Paris, a um restaurante onde tôdas as noites jantava com Gervásio Vila-Nova, ia algumas vezes uma rapariga italiana, deveras graciosa — modêlo sem dúvida —, que muito me enternecia, que eu cheguei quási a desejar.”
(Mário de Sá-Carneiro, A Confissão de Lúcio

🐛 “[…] perde uma causa, cuja salvação estava nas suas mãos, e ainda porventura estaria agora nas de algum estadista liberal, que deveras o seja, e concentre a vontade necessária para reprimir este despenhamento.”
(Rui Barbosa, Obras

▶▶C) Construções afins

🐛 “Importa, pois, que ao empreendermos alguma coisa mais custosa e árdua, nos determinemos com maiores veras [⇆ deveras / ainda mais].”
(Pe. Manuel Bernardes, Luz e Calor)

🐛 “[…] conquanto nesse breve período do derriço que durara apenas o mês das vindimas, pensasse amá-lo com todas as veras [⇆ deveras / com toda a sinceridade].”
(Trind. Coelho [cit. por Aulete, ‘veras’, verb. orig.)

🐛 “— Não gracejo — tornou o bispo —, falo sério e de muitas veras [⇆ deveras / com toda a sinceridade].
(Almeida Garrett, O Arco de Sant’Ana)

🐛 “E conhecido, adoptado, que todos o amem enfim, nos seus heróis, nos seus feitos, mesmo nos seus defeitos, em todos os seus padrões, e até nas veras pedrinhas das suas calçadas!”
(Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires)

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Eis dezassete espécimes vistos pela perspectiva do etólogo, em seu próprio ambiente natural. 

Fotografe os mais vistosos para a sua coleção de figurinhas (farei isso na minha entrada F8-1141).

Sonde-lhes a seguir as sutilezas: 

▶ Quando parecem ter apelo à idéia de verdade (⇆“verdadeiramente”)? Quando são apenas uma ferramenta de ênfase (⇆“muito”)? 

▶ Quando modificam adjetivo? Quando modificam verbo? Há outras formas de construir?

▶ Há diferenças entre os empregos nos escritores mais antigos e nos mais modernos?

▶ Quais destas formas podem ser aproveitadas? Quais soam caducas? Há algum torneio capaz de reabilitar a construção antiquada e restituir-lhe o vigor?

▶ Há outras palavras que aprender nas frases? As construções são compreensíveis, ou há algo que você precisa guardar para decifrar futuramente, com uma boa revisão de gramática (sintaxe, pontuação, ortografia…)?

Tome nota de tudo o que achar relevante nas suas figurinhas, como se explicasse tudo a seu aprendiz no verso de um cartão postal.

Até mais.

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