I – (De novo) o corretor automático
Em outro artigo deste blog formulei a seguinte pergunta: o computador nos poupará do estudo da gramática?
Desde então tenho pensado sobre como podemos estar concedendo, a um simples programa de computador, o poder de influenciar o destino de nossa Língua Portuguesa, ao deixá-lo recriminar repetidas vezes uma palavra ou construção correta, até que ela desapareça.
Tudo começou com uma correção feita pelo Microsoft Word numa frase minha, um “e também” que o processador de texto reputou errado, com a justificativa de ser redundância, pleonasmo, prolixidade — não me lembra a palavra exata.
Na semana seguinte, revisitei as primeiras estrofes dos Lusíadas:
As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca d’antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
–
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
O computador não leu Camões, é claro! Na verdade, ele não leu nada, nem entende muito de gramática.
Ora, “também” é advérbio de modo (Napoleão Mendes de Almeida, Gram. Metódica, §527), ao passo que “e” é conjunção aditiva (ibidem, §571).
“E” liga orações umas às outras, ou palavras umas às outras. “Também” acompanha uma palavra ou conjunto de palavras para agregar-lhes uma idéia de inclusão ou igualdade — entre outras que sondaremos mais adiante.
Sim, uma parte do campo de sentidos de “também” sobrepõe-se a uma parte do campo semântico do “e”, mas isso não permite reputá-los equivalentes. Ninguém dirá que o “também” nada acrescenta à frase abaixo, ninguém pensa que poderia ser eliminado sem prejuízo à intenção de quem a proferiu:
“Maria foi ao mercado e comprou café. Eu não percebi, e também acabei comprando café.”
Nenhuma equivalência intrínseca há entre “e” e “também”. Tanto é assim, que este último combina-se sem dificuldade com a conjunção adversativa “mas”, cujo sentido padrão é bem distinto (para não dizer o oposto) de “e”:
“Maria foi ao mercado e voltou sem café. Então eu saí para comprar, mas também voltei sem o café. Ela tinha razão, estava muito caro.”
Ao admitir que o “também” deveria ser eliminado depois de um “e” qualquer, pouco a pouco seremos levados a concluir que deve ser eliminado sempre. Ao confundir conjunção com advérbio, o corretor ortográfico confunde também o que é reforço com o que é redundância, coisas muito distintas uma da outra.
II – E tã bem comta muytas cousas que padeçeo pella ffe
Concedendo o benefício da dúvida, fui aos manuais de redação e aos dicionários de dificuldades da língua — Cegalla, Bechara, o Dicionário de Questões Vernáculas, o Manual do Estadão, e até um volume velho de Artur Torres, que arrematei no último expurgo da biblioteca do Tribunal de Contas. Busquei, busquei, e nada de encontrar a tal da regrinha inventada pelo computador. Ao contrário, os gramáticos… continue lendo em PDF

