P – 10. Então é errado escrever “e também”?

I – (De novo) o corretor automático

Em outro artigo deste blog formulei a seguinte pergunta: o computador nos poupará do estudo da gramática?

Desde então tenho pensado sobre como podemos estar concedendo, a um simples programa de computador, o poder de influenciar o destino de nossa Língua Portuguesa, ao deixá-lo recriminar repetidas vezes uma palavra ou construção correta, até que ela desapareça.

Tudo começou com uma correção feita pelo Microsoft Word numa frase minha, um “e também” que o processador de texto reputou errado, com a justificativa de ser redundância, pleonasmo, prolixidade — não me lembra a palavra exata.

Na semana seguinte, revisitei as primeiras estrofes dos Lusíadas:

O computador não leu Camões, é claro! Na verdade, ele não leu nada, nem entende muito de gramática.

Ora, “também” é advérbio de modo (Napoleão Mendes de Almeida, Gram. Metódica, §527), ao passo que “e” é conjunção aditiva (ibidem, §571). 

E” liga orações umas às outras, ou palavras umas às outras. “Também” acompanha uma palavra ou conjunto de palavras para agregar-lhes uma idéia de inclusão ou igualdade — entre outras que sondaremos mais adiante.

Sim, uma parte do campo de sentidos de “também” sobrepõe-se a uma parte do campo semântico do “e”, mas isso não permite reputá-los equivalentes. Ninguém dirá que o “também” nada acrescenta à frase abaixo, ninguém pensa que poderia ser eliminado sem prejuízo à intenção de quem a proferiu:

“Maria foi ao mercado e comprou café. Eu não percebi, e também acabei comprando café.”

Nenhuma equivalência intrínseca há entre “e” e “também”. Tanto é assim, que este último combina-se sem dificuldade com a conjunção adversativa “mas”, cujo sentido padrão é bem distinto (para não dizer o oposto) de “e”:

“Maria foi ao mercado e voltou sem café. Então eu saí para comprar, mas também voltei sem o café. Ela tinha razão, estava muito caro.”

Ao admitir que o “também” deveria ser eliminado depois de um “e” qualquer, pouco a pouco seremos levados a concluir que deve ser eliminado sempre. Ao confundir conjunção com advérbio, o corretor ortográfico confunde também o que é reforço com o que é redundância, coisas muito distintas uma da outra.

II – E tã bem comta muytas cousas que padeçeo pella ffe

Concedendo o benefício da dúvida, fui aos manuais de redação e aos dicionários de dificuldades da língua — Cegalla, Bechara, o Dicionário de Questões Vernáculas, o Manual do Estadão, e até um volume velho de Artur Torres, que arrematei no último expurgo da biblioteca do Tribunal de Contas. Busquei, busquei, e nada de encontrar a tal da regrinha inventada pelo computador. Ao contrário, os gramáticos… continue lendo em PDF

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