[Curtos] Escritores que se prezam…

“A evolução [da língua], por felicidade um tanto lenta, permite formularem-se as regras da elocução correta e do uso que prevalece entre a gente educada durante um espaço de tempo mais ou menos longo. Escritores que se prezam não afrontam esse uso; não se animam a buscar, na variabilidade da linguagem, salvo-conduto para se exprimirem ao som de caprichos pessoais. Curvam-se, como convém, ante a prática geral dos seus contemporâneos, ao menos em tudo quanto se houver conservado fiel à tradição. Têm por dever resistir à tentação de adotar dizeres novos ou estrangeiros de que outros se sirvam só para condescender com a moda, quando é certo subsistir para todo o mundo a consciência de expressões vernáculas de sentido perfeitamente idêntico. Não descerão tampouco a utilizar-se de termos e frases plebeias que não são recebidas em boa sociedade, e evitarão, se preferirem ser entendidos a ser admirados, o emprego de arcaísmos e o acúmulo de vocábulos cujo sentido, por ocorrerem raramente, seja ininteligível à maioria dos leitores. Para escrever corretamente e com elegância é preciso, além do mais, possuir o sentimento da língua e talento. A leitura, meditada e assídua, de obras modelares contribuirá para formar o hábito da expressão polida e educará o estilo.

[…]

O que a princípio se chamou linguagem clássica abrangia uma complexidade de conceitos. Não se definiu o termo, mas entre os dotes que elevaram Barros, Camões e Vieira muito acima do vulgar, estão sem dúvida a clareza da linguagem, a nobreza da expressão, o emprego de vocábulos apropriados e de sentido acessível, e o sentimento de ordem harmonia e proporção. Os clássicos dizem muito com poucas palavras; ao passo que outros precisam de um exército de palavras para abrir caminho a um minguado número de ideias.”

Manuel Said Ali, Dificuldades da Língua Portuguesa

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